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terça-feira, 4 de novembro de 2008

Casais

Caminhavam felizes pela calçadinha do parque, naquele pôr-do-sol típico de Brasília. Aquele céu encantador com suas tonalidades rosáceas, alaranjadas mesclando-se à negritude da noite que se aproximava.

Marcelo era alto, esguio e sorridente. Priscila era baixa, formosa e séria. A despeito dessa disparidade notória, formavam um casal perfeito. Suas discordâncias eram saudáveis e enalteciam as discussões do casal. Discussões das quais, não raro, ambos saiam com pontos de vista transformados, característica comum dos que estão abertos á novas idéias.

Combinavam em tudo, até mesmo nesse gosto provinciano de caminhar de mãos dadas ao final da tarde, enquanto o sol se põe. Caminhavam felizes conversando sobre a vida, o cotidiano e sobre os planos futuros.

Ele levava a vida como uma grande brincadeira o que fazia com que Priscila assumisse o papel da pessoa lúcida do casamento. Marcelo era a alegria que faltava a Priscila e ela era a seriedade que falta a ele. Uma relação simbiótica ímpar.

Nesta segunda-feira brasiliense típica eles caminhavam pelo Parque da Cidade, um casal de idosos ia à sua frente também caminhando, enquanto eram ultrapassados pelos atletas amadores, ciclistas de patinadores. Apenas caminhavam pelo prazer de estar lado a lado ao final de um dia de trabalho estressante.

- Sabe, amor...
- Hum...
- Não entendo como alguns casais não conseguem e manter juntos.
- Que papo é esse? Eu, hein...
- Ah, é que o Augusto lá do departamento tá se separando.
- Sério? Por quê? Aconteceu alguma coisa?
- Ah, eu perguntei a ele. Disse que não dá mais. Só isso.
- Como assim "não dá mais"?
- Foi o que eu perguntei. Ele só repetiu que não dava mais e saiu meio nervoso.
- E porque ele ficou nervoso?
- Foi o que eu me perguntei, mas não tive coragem de perguntar a ele. Na verdade eu acho que ele ainda gosta dela.
- Se gosta, por que vai separar?
- Porque não dá mais.
- Todo engraçadinho, você, né?
- Ah, amor. Eu penso nessas coisas e fico com medo de acontecer com a gente.
- E porque você acha que pode acontecer conosco?
- Não sei. Vai ver é só um medo bobo, mas não deixa de ser um medo.
- Eu não tenho medo.
- Não?
- Não. Quero você e pronto.
- Que bom então.

Abraçou-a. Enquanto conversavam aproximaram-se do casal de idosos que, inevitavelmente ouviu a conversa. Enquanto Marcelo e Priscila se afastavam abraçados e sorridentes, Seu João olha Dona Catarina. Abraça-a, dentro das possibilidades que seu corpo enrijecido permite e lhe beija a face.

- Foi assim que a gente conseguiu não foi, meu bem?
- Deixa de ficar ouvindo a conversa alheia, velho safado.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Tempo perfeito

Sabe, eu tenho essa tendência nata a complicar as coisas. O raciocínio metódico é inerente à minha pessoa. Penso, analiso, calculo, repasso. Faço tudo isso em busca de um resultado não apenas satisfatório, porque de resultados satisfatórios são feitos os homens comuns. Eu busco a perfeição, porque tenho a ambição de alcançar a excelência. Sim, é um anseio deveras ambicioso, mas, por favor, não confunda minha ambição com ganância. São coisas que, se analisadas a fundo, podem ser completamente díspares, e acredito ser esse o meu caso.

Você deve estar se perguntando o porquê de tantos preâmbulos e eu direi agora. Tenho protelado o momento de tomar uma atitude de verdade ao que você tem considerado como "nós". A verdade, é que não existe "nós". Essa junção de duas pessoas em uma só é uma invenção patética dos românticos frustrados do passado. Veja bem, estou explicando o que, para mim, seria o "nós", e ele seria justamente isso: romantismo frustrado. Analisei a fundo essa questão e, depois de tanto pensar, firmei os pés no chão e cheguei à conclusão que tanto para mim, quanto para você deve haver um "eu e você", confesso que chega a parecer uma coisa monstruosa para a maior parte das pessoas, acostumadas a filmes água-com-açúcar veiculados por nossos meios de comunicação que tornam as pessoas cada dia mais acéfalas. Oh, desculpe-me, mas a televisão me enerva.

Bem, quando eu digo que deve haver dentro de um relacionamento o "eu e você", quero dizer que nosso relacionamento é feito por dois indivíduos diferentes, que podem pensar de maneira diferente e tomar decisões individuais. Acho que essa é a solução ideal. "Nós" é muita gente, "eu e você" somos dois indivíduos distintos.

Assim refletindo cheguei também a algumas conclusões no que tange a questões temporais. Eu e você somos duas pessoas com projetos de vida que tendem a serem construídos em torno de um pilar comum, nosso bem estar. O porquê disso? Certamente porque nos conhecemos o suficiente para nos querermos bem, e essa é uma questão que segue unicamente uma lógica passada. Por que eu haveria de gostar de quem você poderia ou não ser? Não tenho essa pretensão futura. Tenho um sentimento construído no passado e nenhum plano pro futuro. Não, não me olhe assim de maneira tão exasperada, não quero comunicar que pretendo terminar o relacionamento, muito pelo contrário, acredito que a conclusão a que cheguei é muito mais interessante do que esse pensamento comodista de quem pensa no futuro.

Os amantes que pensam no futuro fazem planos para futuro, fazem juras de amor eterno e essas outras baboseiras que no final se tornam apenas palavras ao vento. Oras a eternidade é por demais longa e eu tenho quiçá mais uns quarenta anos pela frente. Não, não possuo a eternidade, e ainda se a possuísse enlouqueceria, o momento de vida humano é breve para ser vivido em sua intensidade, e aí chegamos ao ponto que eu queria. Intensidade. Não te prometo amor futuro, porque do futuro eu não sei. O que posso te prometer é o melhor tempo que eu tenho na minha vida: o agora.

Concorda que se vivermos o agora, sem a esperança de um futuro, cada segundo nos parecerá muito mais precioso do que a eternidade que as pessoas prometem como se realmente a tivessem? Então, o que te prometo é o agora, porque agora estou aqui, agora só quero você, agora esse seu sorriso me conquista, porque agora te amo. É tão simples, não sei porque compliquei durante tanto tempo.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Cretino conquistador

Ela sempre foi muito bonita, isso eu não tenho como negar, foi assim que a conheci: tentando conquistá-la. Ela estava em um vestido preto que mostrava o corpo esguio e aquele busto fenomenal. Estava conversando com uma senhora de uns quarenta anos excessivamente bem vestida para a ocasião e com uma maquiagem que parecia inspirada em bailes de carnaval. Aproximei-me com um copo de uísque na mão.

– A festa está bem animada, não acham?

Ambas me olharam com desdém e voltaram a conversar como se eu não estivesse ali. Eu fingi que aquilo não me abalou.

– É... nem todo mundo está animado. Frigidez é um problema sério. Tchau, minhas queridas.

A senhora fingiu que não era com ela, mas Mariane não resistiu. Ofendeu-se. Eu já estava virando de costas e saindo quando ela falou:

– Tchau, palhaço.

Voltei, abri o sorriso mais cretino que uma pessoa consegue simular e olhando nos olhos dela disse:

– Pelo menos você viu alguma graça em mim, já eu não posso retribuir a afirmação.

Sai sem esperar resposta e ela ficou sem reação. Ela sabia que era linda e ouvir de um homem que ela não o atraía era como uma bomba que seu orgulho não seria capaz de suportar.

Continuei: bebi, dancei e flertei com várias mulheres. A festa estava realmente bastante animada e cheia de mulheres bonitas. Dancei um xote com uma das mulheres mais bonitas da festa – minhas aulas de forró estavam realmente surtindo efeito. Ao fim da música eu pedi licença, fui ao banheiro e de lá ao bar, pra pegar uma água tônica. No caminho, Mariane me puxou pelo braço.

– Você é sempre assim?
– Assim como?
– Sem educação.
– Só quando a ocasião pede.
– Olha... foi mal, me desculpe mas eu estava já estava nervosa com o papo chato daquela senhora.
– Tudo bem, agora com licença.
– Ei, você vai aonde? Estamos conversando.
– Ah, estamos? Eu pensei que o assunto havia encerrado.
– Prazer meu nome é Mariane.
– Klaus.
– Nome diferente.
– Meu pai sempre achou bonito. Não gosto muito dele, mas como não tenho outra opção, acabo aceitando.
– E então, Klaus. De onde você conhece o Henrique.
– Estudamos juntos na faculdade. Ele comprava os trabalhos dele de mim, sabe.
– Que horror.
– O quê?
– Você colaborar com isso: vender trabalhos universitários.
– Só isso? Eu vendo até hoje. É um dinheiro fácil que eu não dispenso de forma alguma.
– Um absurdo isso.
– Deixa pra lá. E você de onde conhece o Henrique?
– A Juliana é minha prima.
– Ah, a Juliana é sua prima?
– É sim.
– Que interessante.
– Por quê?
– Porque a Juliana é praticamente minha vizinha. Somos muito amigos e ela freqüenta bastante a minha casa. Aliás, fui eu quem fez as apresentações dos dois. Engraçado eu nunca ter te visto por lá.
– Bem, não somos extremamente amigas. Somos primas e só. Ela me chamou pra vir à festa hoje porque minha mãe passou na casa dela e eu fui junto. Como não nos víamos há muito tempo me chamou pra festa.
– Ela e o Henrique são perfeitos, não? É o casal mais bacana que eu conheço.
– Nossa que termo.
– O quê?
– Bacana...
– O que tem?
– Tão... chulo.
– É meu jeito, se não te agrada...
– Você é sempre assim?
– Assim como?
– Sem educação.
– Só quando a ocasião pede.

Achei que a conversa deveria terminar ali mesmo e fui saindo, ela segurou meu braço novamente e me puxou de volta.

– Você é tão bonito, por que age desse jeito?
– Por que não agir desse jeito?

E fiz novamente o sorriso cretino. Aliás, esse sorriso cretino é minha marca registrada. Um sorriso de canto de boca com os olhos meio apertados: um charme só. Ela aparentemente ficou horrorizada com a resposta que porque soltou meu braço e ficou com aquele olhar vago, fixando o vazio. Acho que ficaria assim por um minuto inteiro se eu não tivesse intervido.

Aproximei dela, segurei seu rosto com uma mão enquanto colocava a outra na sua cintura. Ela pareceu despertar com um choque e assustar-se, mas não reagiu. Apenas me olhou. Eu olhei seus olhos, sua boca, aproximei meu rosto, puxei o corpo dela contra o meu e parei. Nossos lábios estavam bem próximos.

– E agindo assim, eu agrado?

Foi então que nos beijamos. Um beijo demorado e lento. Um beijo apaixonado. Enquanto a beijava eu acariciava seus cabelos e passava a mão por suas costas. Que pele macia, que cabelos maravilhosos. Acho que nunca vou esquecer a sensação que foi nosso primeiro beijo. Uma sensação deliciosa que sinceramente, nunca mais experimentei desde então.

Terminado o beijo permanecemos abraçados, nos olhando em silêncio. Estávamos nos admirando por alguns momentos. Ela era realmente linda e tinha um jeito muito carinhoso.

– Então...
– Então o quê?
– Isso é porque você não viu graça nenhuma em mim?
– Você viu em mim, isso me basta.
– Você é muito cheio de si.
– Eu transbordo egocentrismo.
– Percebi.
– E aproveitou também.
– Jesus amado, você não consegue deixar de ser assim nem um instante? – disse sorrindo.
– Assim como, sem educação?
– Não. Convencido.
– Ah, eu achei que eu era sem educação. Você muda de idéia muito rápido.

Ela sorriu. Pediu licença, disse que voltava e saiu em direção ao banheiro. Eu olhei o relógio, fui até a saída e pedi ao manobrista que trouxesse meu carro. Voltei à festa para me despedir do Henrique e da Juliana. Retornei à saída onde meu carro já estava esperando, dei uma gorjeta ao manobrista e fui embora.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Tempos apaixonados, tempos apaixonantes

Ontem eu me peguei pensando nela novamente. Dizer isso soa muito engraçado porque não existe ELA especificamente, compreende? Acho que estou vivendo novamente um daqueles momentos mutantes da vida, onde nos pegamos nostálgicos. Relembramos tudo de bom que nos aconteceu e começamos a pensar e pensar e pensar. Assim pensando, pensando e pensando acabamos sentindo saudades.

Ontem eu estava com saudade dela. Daquele friozinho na barriga, daquela euforia desmedida e aparentemente sem sentido de todas as manhãs. Esperança, euforia, decepção, frustração, mais esperança, alegrias, encantos e desencantos. Olhares, sorrisos, lágrimas, mais sorrisos, mais lágrimas, espinhos, pétalas, flores, cores, odores e temores.

Quanta coisa se viveu. Tanta coisa boa, tanta coisa ruim. No final ficam as lembranças, o aprendizado e a maldita saudade. Nós nos esquecemos de tudo, mas um dia a saudade bate e traz à tona tudo que se viveu e a vontade de viver tudo de novo, e nessas horas, no anseio de se reviver, as lembranças se misturam às fantasias, aos desejos e acabamos sentindo saudade até mesmo daquilo que não vivemos, porque também sentimos saudades dos sonhos que aparentemente morreram.

Sonhos são lindos, são maravilhosos e traiçoeiros. Nunca acredite que um sonho morreu. Ele se transforma, metamorfa, se maquia e é maquiavélico. Quando menos esperamos eles voltam pra nos assombrar, de sonhos se transformam em fantasmas. Frustração mal trabalhada, sabe? Faz parte da vida acontece comigo e com certeza acontece, aconteceu ou acontecerá com você. Paciência, não se morre dessas coisas e se formos espertos o bastante ainda conseguimos transmutar esses fantasmas de volta em sonhos. Isso é viver.

Sinto saudades da paixão. Sinto saudades de estar apaixonado. Sinto saudades dos meus sonhos. Sinto medo dos meus fantasmas... e eles sentem medo de mim.

sábado, 10 de maio de 2008

Simplicidade envolvente

Estávamos abraçados. Era noite e estávamos abraçados olhando pela janela, as luzes apagadas, e eu sentia o cheiro dela enquanto o aparelho de som preenchia o ambiente com aquele trip hop relaxante.

Eu fechava os olhos e sentia a textura da pele dela. Lisa, macia, tentadora. Até então a noite havia sido perfeita. Um bom jantar, um bom vinho, sorrisos, abraços, beijos e sexo apaixonado. Não importa quantas vezes você fez sexo na sua vida, quando se faz com sentimento sempre parece ser a primeira vez.

Mordi levemente a orelha dela. Ela passou a mão pelo braço que a apertava contra meu corpo.

- O que faremos agora?
- Não sei. Sei que está sendo muito bom.
- Não me imagino mais sem você.
- Nem eu me imagino sem você. Sem esse abraço, sem esse sorriso...
- Mas você tem que ir embora e eu não posso ir junto.
- Ah, não, amor. Vamos aproveitar o nosso tempo...

Dito isso, virou-se, colocou seus braços em volta do meu pescoço e me beijou.

- Para de pensar nisso, a gente vai dar um jeito.

Simples. Fácil. Tudo para ela parecia ser assim. Ela parecia não se importar com os meandros dos caminhos da vida, com os obstáculos impostos pelo destino. Fascinante essa visão da vida. Uma linha reta: simples e sem interferências. Uma visão tão fascinante quanto perigosa. Não posso negar que fui seduzido por tudo nela, desde sua beleza até sua forma simplista de ver a vida.

Beijei-a de volta, abraçando-a firmemente. Parei e, olhando dentro daqueles olhos encantadores, não pude pensar em outra coisa, além da felicidade de se viver o agora.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Livros

Andei pensando em você, sabe. Na verdade, andei pensando em nós. Sei que ainda não existe um "nós", e sei muito bem que poderá não existir, mas é como eu digo aos quatro cantos do mundo "eu sou um idiota romântico". Pensar em "eu e você" sem um "nós" me deixa meio confuso das idéias, então por isso me atrevo a declarar que estive pensando em nós, e pensando em nós pensei na dissintonia, na desarmonia, no destom, na disparidade, ou qualquer outra palavra que você prefira para definir nossas diferenças. Sei que sou diferente de você, sei que sou diferente das pessoas que você conhece, na verdade sei que sou diferente de muita gente. Estou acostumado com minhas diferenças e aprendi a lidar com as diferenças alheias, do contrário não teríamos nos conhecido, eu teria virado um eremita. A verdade é que com o passar dos anos, vivendo intensamente minhas decepções, assim como eu vivo intensamente tudo que há para se viver, eu aprendi que as pessoas são como livros. É possível ler as pessoas, e cada uma delas tem uma história pra contar. Ouso até dizer que cada uma delas tem histórias para contar, e cada história tem sua própria história. Somos um emaranhado complexo de divagações, experiências, vontades e frustrações, e cada mistura dessas sensações, em proporções mesmo que ligeiramente diferentes, nos dá uma nova história. O prazer de nos relacionarmos com as outras pessoas é confuso, porque ao mesmo tempo em que queremos saber, viver e sentir intensamente cada história contada nesse livro queremos também nos tornar co-autores e ajudar a escrever a história que ainda não aconteceu. Queremos escrever a história da vida das outras pessoas, e ao mesmo tempo queremos que essas pessoas nos ajudem a escrever a história das nossas vidas. Parceria e companheirismo. Sincronia. Para mim você tem se mostrado um livro fechado, lacrado, inatingível, inalcançável. Você me permite ver a sua capa, apenas, enquanto eu me abro por inteiro e me deixo ser folheado. Se quisesse entregaria agora mesmo uma caneta e permitiria que você escrevesse seus capítulos na minha vida, mas só faria isso se deixasse eu ler um pouquinho que fosse da tua história.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Carta para Clariana

Clariana,

Sei que as coisas têm sido difíceis entre nós, se é que eu ainda posso dizer que existe "nós". Essa situação esquisita em que o nosso relacionamento se encontra tem me deixado louco! Tenho pensado noite e dia em todos os acontecimentos de que posso me recordar, lembrando-me dos mínimos detalhes em busca de uma pista qualquer que me indique onde foi que eu errei. Sim, penso desta maneira, que o erro foi meu, porque é fato que eu não vejo nenhum erro de tua parte.

Sempre dedicou-se a mim de corpo e alma, com essa devoção fervorosa quase impossível de se ver nos dias de hoje, e isso conquistou-me e deixou-me mal acostumado. Onde estão as ligações perguntando como estou, onde estou ou o que tenho feito? Teu cuidado me faz falta, assim como faz uma falta imensa aquele brilho especial que eu via em teus olhos sempre que nos encontrávamos, e aquele sentimento de que o peito estava prestes a explodir de saudade, antes mesmo de terminarmos nosso beijo de despedida. Onde está essa Clariana que me conquistou?

Hoje mal me liga, quando nos vemos está sempre dispersa, sempre distante, e quando nos despedimos parece que estou te tirando um peso enorme dos ombros? Por favor, não agüento mais essa situação! Eu pergunto todo santo dia o que está acontecendo e esse teu silêncio me fere mais do que se uma adaga em brasa tivesse sido transpassada em meu coração! Ao menos me dê uma resposta! Tenha ao menos a dignidade de falar que não me quer mais, que eu não sou mais o homem da sua vida, que não quer mais ter filhos e um futuro comigo e todas as outras coisas que sempre disse, mas não me torture mais com a tua indiferença e esse teu silêncio. Se há algo que me fere mais que as tuas palavras é a total ausência delas.

Esta carta é meu último recurso em busca de uma resposta para tudo o que tem acontecido. Quem sabe escrevendo não se solte mais e me conte o que está acontecendo. Por favor, não me negue uma resposta a esta carta. É tudo o que eu te peço: as coisas como elas realmente são, preto no branco.

Beijos,
Marcos Aurélio Damasceno

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Idealização

Angustiado. Assim me sinto agora. Consegui em pouco tempo estragar tudo, como sempre, mas não é culpa minha, pelo menos não diretamente. Sou dessas criaturas sensíveis que se deixam levar pelo arrebatamento de uma paixão repentina e põem-se a fantasiar o futuro e as diversas possibilidades que existem entre o agora e o porvir. Dentro desses devaneios sou capaz de criar as mais diversas probabilidades de um relacionamento feliz, porque assim sou: dedicado de corpo e alma ao bem-estar de ambas as partes dentro de uma relação. Em minha imaginação, eu vejo o teu sorriso e os teus olhos olhando dentro dos meus, como se não fosse capaz de conter sozinha toda a paixão que sente e precisasse de alguma maneira comunicar-me que eu faço parte de tudo isso, como se toda a tua felicidade estivesse contida apenas na minha existência. Imagino-te ao meu lado fazendo todas essas coisas que ninguém mais faz porque estão todos tão ocupados vivendo suas vidas corridas e sem emoção, que acabam se esquecendo que a companhia de quem amamos é a melhor em qualquer momento, até mesmo nos mais simples: vejo estrelas, vejo a lua em todas as suas fases, vejo o sol poente, vejo o sol nascente, vejo o céu limpo e nós dois caminhando lado a lado em um gramado, assim como vejo o céu nublado e nós dois deitados juntinhos assistindo um filme. Sinto tua cabeça deitada em meu peito, e sinto teu cheiro, o cheiro de teus cabelos, a textura de tua tez, o gosto de teus lábios e me perco nessa imensidão toda do teu ser. Um ser que idealizei, e que agora trago aqui comigo corroendo meu peito, por não saber se existirá sequer uma parte ínfima de tudo aquilo que eu criei. Eis a razão da minha angústia. Por quem estou apaixonado? Por você ou pela pessoa que a minha paixão criou?

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Ponto final

Eu posso até me arrepender de estar te escrevendo, porque certas coisas são tão danosas que o simples fato de dedicarmos-lhes atenção já é uma coisa nociva ao nosso próprio bem-estar.

Aquele dia eu te fiz a pergunta errada com o sentimento certo. A verdade é que eu não consigo racionalizar meus sentimentos com muita facilidade, ainda mais quando a necessidade de fazê-lo se manifesta assim, de maneira tão repentina. Como eu disse, eu não sei “jogar” de outra maneira, sou sincero e espontâneo, mesmo quando isso me prejudica por ter a necessidade de manifestar urgentemente o que eu sinto e esta urgência não me permite formular corretamente uma pergunta ou uma afirmação que defina meus sentimentos com clareza. A pergunta correta a ser feita domingo seria: “Por que pra você estou sempre em segundo plano?”

A resposta eu já tenho (na verdade eu sempre tenho essas respostas, nem sei por qual motivo ainda pergunto). A resposta é: porque eu mesmo deixo. Eu me entrego com facilidade, talvez por viver o passado. Eu revivo a paixão de nove anos atrás e me entrego àquela menina que eu conheci quando ela ainda tinha quinze anos, andava de skate e parecia estar começando a gostar de alguém pela primeira vez na vida, e esse alguém aparentemente era eu.

E quando eu me entrego assim com facilidade, me torno cego para a pessoa que você se transformou nesse tempo, que eu não tenho direito algum de julgar, mas que eu desconheço quase completamente. Só conheço essa capacidade de aparecer de repente e causar estragos na minha cabeça e no meu coração. O mais hilário disso tudo é constatar que sou eu próprio que te outorgo esse direito, porque se você me faz tanto mal assim é pura e simplesmente porque eu mesmo deixo.

Eu poderia lutar contra tudo e contra todos. Poderia propor que fossemos contra todas as adversidades porque é assim que um relacionamento de verdade cresce e se transforma em algo que muda as nossas vidas e nos marca para sempre, mas por que falar isso tudo se eu sei que seria uma batalha em vão? Eu estaria te propondo algo que você poderia aceitar racionalmente, mas que você nunca pensou em fazer de verdade com seu coração. Basta olhar para trás e ver a facilidade com que me largou sempre, sem nem mesmo se dar a oportunidade de experimentar algo que poderia ser diferente e transformador em sua vida, mas que você tem medo de viver. Eu imagino que é desta maneira que as coisas se passam aí dentro de você.

Eu ainda procuro imaginar por qual motivo você às vezes me procura assim do nada, o que se passa na sua cabeça ou no seu coração: quando faz isso e também quando decide alçar vôo e me largar com um punhado de esperanças no coração e um monte de projetos na cabeça.

Sendo sincero, eu, atualmente, achava que estava imune a isso tudo, tendo em vista que há muito tempo esse tipo de coisa não me acontece de jeito nenhum, mesmo porque, como eu disse, não dou esse direito a ninguém, só me resta saber e entender porque ainda permito que especificamente você o faça.

Com base em tudo o que eu já vivi, nos meus sentimentos e no atual contexto da minha vida, só me resta desejar novamente que você consiga achar o seu caminho, se concentrar naquilo que realmente te importa e te deixar um conselho muito importante: não deixe que os outros ditem a forma como você deve viver, ou o que deve fazer para ser feliz. É a terceira vez que você vai embora contra a sua vontade e por causa de outras pessoas (ou então você mente para mim quanto às suas razões).

Eu finalizo a carta pedindo a você que realmente não me procure mais, porque dessa vez o estrago foi grande. Maior até do que você pode imaginar, e como você foi a causa direta, nada mais certo do que te informar.

Seja feliz.


Sem nomes e sem datas. É melhor que seja assim...

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Carta de agradecimento

Oi, Lisa, tudo bem? Desculpe-me o jeito assim, informal, de escrever, eu nunca fui muito de palavras e você sabe disso, assim como sabe que eu falo enquanto durmo, que eu gosto de leite com chocolate de manhã e assim como você sabe tudo mais que se possa saber a respeito de minha pessoa porque você, Lisa, você foi a única pessoa com quem eu convivi de verdade.

Por você eu abandonei todos os meus vícios e manias, adqüiridos ao longo de vinte anos de solidão e isolamento. Você foi a única pessoa que pôs fim à minha misantropia. Depois que você entrou em minha vida tudo mudou. Graças a você aprendi a tratar decentemente as pessoas, independentemente de quem elas sejam ou do que elas tenham feito no passado, porque a vida começa sempre agora e sua única direção é o futuro. Sua alegria de viver mudou meu humor e os planos que você tinha para o futuro eram deslumbrantes e contagiantes.

Lisa, você realmente foi a pessoa que apareceu na minha vida para me tirar do lamaçal fétido em que eu vivia, sempre sufocado pelos meus rancores, pelos meus desgostos e preso pela minha falta de fé e de esperança em um futuro decente para mim, ou para qualquer ser vivo da espécie humana. Hoje vivo meus dias com grandes planos e procuro sempre concretizá-los, como aquela viagem à Inglaterra que eu sempre te falei. Os pubs londrinos são indescritíveis.

Hoje faz um ano que nos separamos, e eu só achei que eu devia isso a você. Eu aprendi tanto com você a respeito da vida e a respeito do que é viver que seria, no mínimo, falta de respeito se eu voltasse a ser o homem de outrora. Eu queria dizer também que eu ainda te amo, e muito. E que você não faz idéia da falta que me faz o seu sorriso, o seu cheiro, os cafunés que você me fazia de manhã, as suas ligações ao cair da tarde sempre me pedindo para levar alguma coisa diferente para o jantar. A sua ausência, a princípio, quase me levou à loucura, tanto que eu quase voltei a ser aquela criatura sorumbática de antes, mas me apeguei firmemente a tudo que aprendi com você, às nossas lembranças e à alegria de viver que você me ensinou. Não valia a pena voltar ao buraco negro onde eu me escondia.

Prometo te escrever sempre, e te amar ainda mais com o passar dos anos, até o dia em que ela vier me buscar também. Aí então poderemos viver juntos novamente.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Pôr-do-sol

Ambos estávamos contemplando o pôr-do-sol na janela do meu apartamento. E após um longo tempo em silêncio ela diz:

- Sabe...
- Hum...
- O melhor de tudo é que a gente se entende: e isso é o que importa.

E voltou a contemplar o horizonte. Eu fiquei ali olhando aquele perfil dela, agora ainda mais maravilhoso por causa das luzes meio alaranjadas meio avermelhadas que davam a seu rosto traços ainda mais sensuais. Abracei-a, olhei para o horizonte e disse:

- Isso é porque a gente se ama: e isso basta.

Medo do inferno

E o que mais você poderia esperar de um cara como eu? Amor, esperança e confiabilidade? Sim, eu te garanto que eu também sou feito desse tipo de material, mas a verdade é que depois de tanto tempo tomando tapas na cara, a vida me moldou de uma maneira diferente. Eu já fui ao inferno algumas vezes, todas elas por causa de pessoas como você. O problema é que eu sempre volto diferente, muito diferente, e quando volto tem sempre outra escrota como você pronta pra me mandar pra lá de novo. Chega, cansei!!! Quem quiser conhecer o miolo agora vai ter que romper a casca, e ela é dura e fria, eu poderia até dizer, de maneira poética (ou dramática), que ela foi forjada no inferno. O mesmo inferno aonde você com certeza me jogaria. Essa minha atitude tem uma simples razão de ser: apesar de ter sido tantas vezes jogado lá por causa de criaturas como você, eu nunca percebo quando estou caindo. Eu te garanto que a gente só percebe que está no inferno quando é tarde demais. O coração gela, as lágrimas queimam e nosso rosto se distorce de maneira quase irreconhecível. Não, não ouse abrir a boca agora. Você me acusou de ser insensível, quem fala o que quer, ouve o que não quer. Você me acha insensível mas eu quero que perceba o quanto eu já sofri. Você acha realmente que eu estou disposto a sofrer de novo? Não, eu não sou insensível, no máximo posso ser acusado de ser medroso. Sim, confesso que sou um tremendo medroso, um borra-botas, caso prefira assim, mas o fato é que ninguém vai me jogar de volta naquele abismo medonho. Ninguém! Isso!!! Vá embora!!! É melhor pra você do que pra mim, aproveite e leve suas alianças. Adeus!

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Aprendendo o amor

Ele estava deitado de lado no tapete, o corpo todo curvado em posição fetal e comprimia contra o peito uma almofada onde despejava suas lágrimas, sua saliva, o muco que saia de seu nariz e principalmente onde abafava o som agudo do seu choro. Aquele choro desesperador, ininterrupto que parecia vir do fundo de uma alma atormentada, cicatrizada pelas agruras da vida.

No auge de seus dezesseis anos ele experimentava pela primeira vez a dor que movimentava o mundo, a dor de amar. O amor que o inspirara a escrever dezenas de poesias, que o fazia andar pelas nuvens, que lhe apertava o coração sempre que a via sua bela amada, o amor que o encorajou a superar sua timidez e declarar-se era agora o mesmo amor que apertava seu peito, enrugava sua face e deixava-a molhada de lágrimas. As lágrimas da inesperada e indesejada rejeição.

Se ao menos ele tivesse a oportunidade de vislumbrar o seu futuro em alguns anos... ah, se ele tivesse esta oportunidade e fosse capaz de sentir tudo o que se teria passado e adquirir toda a experiência desse tempo de vida vindouro. Com certeza ele aprenderia que o amor destrói mundos, mas que no outro dia está tudo bem.

sábado, 5 de maio de 2007

Desesperança

Chovia torrencialmente. Ele parecia não se importar com o fato. Apenas caminhava calmamente pela chuva, como se estivesse passeando pelo parque em uma bela manhã de domingo. Estava à procura de um lugar qualquer onde pudesse se sentar e beber sossegadamente. Queria beber para esquecer o passado que o assombrava durante a lucidez da sobriedade.

Podia ver aquela tez que um dia fora tão delicada quanto a casca de um pêssego e que depois havia se tornado enrugada, ressecada e sem vida. Os lábios, outrora vivos e ardentes, tornaram-se ao mesmo tempo de um pálido sem vida e um roxo cor de morte. Ao se lembrar de como ela era bela, ele estancou na rua. Um verdadeiro dilúvio caia sobre sua cabeça. Se não estivesse chovendo seria possível ver as lágrimas que seus olhos vertiam, manifestação de seu coração destroçado pela saudade. Em alguns casos a saudade faz bem e inspira, em outros ela destrói uma pessoa, como se fosse uma onda na praia que vem com toda força e naturalidade fazendo ruir os castelos de areia.

Retornou à realidade e continuo caminhando, procurando um bar aberto. Já havia passado por três, mas ele queria um que fosse silencioso. Nada de som ambiente, nada de televisão, nada de conversas paralelas. Somente ele, a embriaguez e o silencioso som do esquecimento.

Encontrou finalmente um barzinho aberto que atendia às suas necessidades. Era um bar aparentemente bem família, e estava vazio. Ao chegar dirigiu-se ao dono sentado atrás do balcão e pediu uma dose de cachaça. Enquanto esperava ouvia a chuva desabando raivosa na rua, o som das gotas nas telhas de zinco do puxadinho do boteco e a água que descia das calhas das proximidades.

O dono deu-lhe a dose pedida, e ele pagou. Pegou o copo e sentou-se no fundo do bar, próximo aos sanitários, virado para a parede. As lembranças recomeçavam a surgir. Lembrava-se da última viagem que fizeram juntos para a praia. Meses de planejamento, outros tantos juntando dinheiro para a viagem tão desejada: lua-de-mel em uma praia o mais deserta e paradisíaca possível. Conseguiram juntar o dinheiro necessário e viajaram. Choveu tempestuosamente todos os dias, uma chuva parecida como a que caia agora.

Ele olhava fixamente a parede à sua frente, cheia de rabiscos e sujeira. Por mais vidrado que parecesse seu olhar ele não estava alheio à realidade. Ouvia à chuva, e chorava silenciosamente. Um choro imperceptível para quem o via de costas. As lágrimas simplesmente rolavam pelo rosto, sem emitir nenhum som. Sua dor era silenciosa e privativa.

Levantou-se, sem tocar no copo, foi ao balcão e pediu a garrafa toda ao dono do local. Pagou e retornou à mesa, na mesma posição em que estava. Sentou-se e começou a tomar a cachaça. Três copos seguidos. Ao perceber que as lembranças começavam a afogar-se no álcool, resolveu degustar o quarto copo. Agora permanecia somente uma pergunta: "por que ela"? A mesma pergunta de sempre, a única que nunca ia embora e que nunca era respondida. Talvez fosse essa pergunta que lhe causasse tantas lágrimas e tanto desgosto, ou ainda a causa de tanto sofrimento fosse a ausência de uma resposta lógica para ela. O peito ardia, o fôlego faltava, aquele nó na garganta nunca se desatava e as lágrimas desciam; silenciosas e cristalinas.

O amor que morre naturalmente merece as lágrimas da saudade, e da tristeza por ter se acabado. O amor que morre abruptamente arranca do peito as lágrimas pelas infinitas possibilidades dizimadas, pelo amanhã que nunca chegará, pela saudade que nunca há de cessar porque não houve um obstáculo que tornasse aquele amor, que era um mar de rosas, em um fardo a ser carregado por um caminho de espinhos.

Câncer. Em estágio avançado. Quimioterapia, sofrimento, dor e mais quimioterapia. Durante o tratamento a semente do sofrimento havia sido plantada junto com a semente da esperança em seu coração, e cada qual deveria ser devidamente regada para se desenvolver. A semente do sofrimento havia sido regada com morte, e germinara. A semente da esperança não tinha esperanças.

"Etliches fiel unter die Dornen; und die Dornen wuchsen auf und erstickten's".
Matthöus 13:7