segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ele grita. ela olha. ele berra mais alto. ela acende o cigarro entra as unhas já não mais tão perfeitamente vermelhas.
ele fala, agora mais manso: "me responde. me res-pon-de."
ela termina o cigarro. joga no chão. apaga. vira as costas. e fala. ainda de forma que ele escute.
"quando tu aprender a ser homem, tu me procura."

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Epifania mal-interpretada

Era tarde. Quer dizer, à tarde. Eu caminhava pelo deserto semi-árido que é Brasília no período da seca, entre o Palácio do Buriti e o Memorial JK. Tinha perdido um ônibus, eu acho. Ou sei lá, acho que ia até o Sudoeste a pé, justamente por ter perdido o ônibus, isso. Ia passar na casa dela por algum motivo que não me lembro agora, só que era um motivo doído. Tipo acertar os detalhes da separação. Tipo pegar a caixa com as minhas coisas essenciais ("os quadros deixa aí que eu coloco pra vender numa galeria depois" - ela disse, muito vaca. Comprei aqueles quadros de um artista vanguardista que ela adorava a um preço absurdo, dá pra entender a revolta?). Enfim, eu tinha rompido com a mulher da minha vida, o ser humano a quem mais amei na face da terra e por quem briguei com minha mãe e fui banido de todos os almoços de família para sempre. Deus, como eu amava aquela mulher. Mas ela, bruxa má do oeste, percebeu que em algum momento eu a sufocava e quis dar no pé. Quer dizer, dar no pé é só pra ilustrar a situação, porque quem ficou sem carro e sem apartamento fui eu. Porque eu jamais deixaria a mulher amada e desamparada na rua da amargura. Sendo que a rua da amargura dela era um outro cara no meu apartamento. Que agora era dela. Não sou um monstro, sou um romântico burro e incorrigível.

Voltando. Perco o foco às vezes, desculpem aí.

Estava debaixo daquele calor inclemente de Agosto caminhando em direção à casa que um dia foi minha ouvindo uma das musiquinhas mudernês que ela gostava. Nem sei o nome da banda. Tinha colocado no meu mp3 porque me fazia lembrar dela, e sou desses que gosta de se torturar após um fim de relacionamento. Eu não gostava daquele tipo de música até ela aparecer na minha vida. Ela era mudernê, entendam, eu era um classicista chato, extremamente preconceituoso e sem vontade de conhecer nada novo. Brigávamos horrores por conta disso, porque ela queria ir pras festas de discotecagem mudernê da cidade e eu nem queria ir e nem queria que ela fosse, porque ficar sem ela por algumas horas me deixava em completo desespero. Eu emburrecia sem ela. Sabe como? Não sabia o que fazer das pernas. Mas ela queria ir, e batia o pé, e dizia que se sentia um pássaro aprisionado na gaiola comigo. Eu também odiava essas metáforas, ela era a rainda das metáforas, mas como eu a amava eu suportava isso. E depois que ela me deixou eu virei o rei das metáforas também, mas perdi meus amigos por conta disso. No fim das contas ela acaba indo pras festinhas mudernês e eu ficava em casa macambúzio olhando pro relógio de minuto em minuto esperando seu regresso. E quase sempre colocava um brega sofrido no som porque era assim que eu me sentia, um cara brega que sofria.

Vou tentar desenvolver o tópico sem resgatar esse tipo de lembrança dolorosa. Bom, era à tarde de um dia quente e eu tinha perdido o ônibus e então eu decidi ir caminhando até a casa dela pra buscar qualquer coisa minha da qual ela queria se livrar. Era agosto. Em Brasília. Isso significa que nessa época do ano faz um calor desgracento e o tempo seco e a baixa umidade não ajudam em absolutamente nada, apenas no pôr-do-sol mais bonito que já vi na vida. Então era agosto, e como é final do período da seca, costuma chover de uma hora pra outra, chuva das fortes mesmo, repentinamente, como ela me deixou, r-e-p-e-n-t-i-n-a-m-e-n-t-e. Então eu ia caminhando quando olhei pro céu e percebi que lá no horizonte ele estava mais carregado que o meu peito (eu disse que tinha virado o rei das metáforas). Ia chover em cinco minutos, no máximo. Vocês conhecem Brasília? Na região central existe apenas um descampado com cerrado seco, sem árvores, sem prédios com marquise, sem absolutamente nada que possa fazer um pobre coitado se abrigar da chuva. A maior parte do tempo eu amo Brasília, mas nessas horas ela me dava um pouco de raiva. Ia cair um temporal e eu estava completamente desabrigado, obviamente sem guarda-chuva, porque ao sair de casa pela manhã estava um sol insano. Eu me sentia a criatura mais tola e infeliz da face da terra, caminhando no sol e depois na chuva só pra ver por dois minutos a mulher que me largou. E muito embora em tempos outros eu conseguisse ver poesia e beleza nisso tudo, nessa hora só um alarme apitava na minha cabeça, como se dissesse que eu estava deixando de fazer sentido.

A chuva chegou antes do previsto (como eu disse, r-e-p-e-n-t-i-n-a-m-e-n-t-e), mas não me pegou. Curiosamente, no exato ponto em que eu estava, não chovia. Como num desenho animado, só que ao contrário. Olhei para o céu, como se pedindo clemência, ou até mesmo agradecendo por não estar encharcado, e vi a metáfora de mim mesmo. Parado ali, com uma nuvem negra ao meu redor, e só havia luz sobre mim.

Talvez eu não tenha entendido direito a coisa. Saí do spot de luz que Deus tinha me dado por breves momentos, como uma epifania bizarra e completamente palpável, e caminhei ainda mais decidido à casa da mulher amada. Obviamente peguei muita água no caminho, porque o spot de luz ficou lá, paradinho, sem me perseguir (no momento achei que isso fosse acontecer, ainda como num desenho animado, sabe como? Só que ao contrário, no desenho animado chove sobre você, e esse não era o caso). Depois de quase meia hora de caminhada e encharcado até os ossos, toquei a campainha do apartamento que era meu, virou nosso e agora era dela. Ela abriu a porta e sequer se dignou a me oferecer uma toalha, só pediu pra eu esperar que ela já voltava com as caixas. Quando voltou, perguntei se ela podia me dar uma carona, porque estava chovendo, ela se desculpou e disse que não podia por estar muito ocupada. Ficou parada à porta me olhando com cara de "por que você ainda não foi embora" quando eu desperdicei toda a epifania que Deus me deu naquele momento anterior, aquela coisa toda da luz e da chuva. Pedi a ela que voltasse pra mim, pelo bem da minha saúde. Prometi a ela que a deixaria respirar, como se eu garantisse que abriria a gaiola pra ela dar uma voltinha e quem sabe fazer as fezes longe do jornalzinho (não disse isso, mas soou como se eu tivesse dito, o que pensei depois ser uma grande estupidez). Prometi que seria o melhor marido do mundo e faria dela a mulher mais feliz e amada da face da terra. Ela só me pediu pra ir embora. Mais nada. Só disse "por favor, vá embora". Joguei a caixa com meus pequenos pertences no chão e a abracei pela cintura, desesperado mas sem chorar, e disse que não sabia o que fazer da vida sem ela. Ela se afastou, foi tudo tão rápido, ela se afastou e o punho cerrado do cara que eu não conhecia e morava com ela atingiu meu nariz com tanta precisão que na hora nem senti dor. Fiquei pensando "Deus, que golpe preciso, será que ele luta?" até cair no chão. Senti o sangue quente escorrer pelo rosto e aí doeu, porra, doeu muito. Ela não se mexeu, ficou lá em pé parada com cara de vaca ainda esperando que eu fosse embora. Eu me levantei, limpei o nariz sangrento na camisa de maneira absolutamente inútil e fui embora com minha caixa com meus pequenos pertences e deixando pingos de sangue pelo corredor.

Quando saí do prédio já não chovia mais e o calor abismal tinha voltado. O sangue secou no meu rosto e coçava. E eu olhei pro céu com raiva de Deus, porque na minha cabeça aquela luz sobre mim indicava que, se eu pedisse com carinho, ela me aceitaria de volta. É, eu não era bom em entender sinais.

Apareci na casa da minha mãe a cara do abandono. Ela se encheu de pena, quis me dar banho, disse que ia matar a vaca e essas coisas que mães falam. Fui pro quarto que ainda era meu, mesmo depois de banido, me joguei na cama e chorei com tanto gosto que até desanuviou o peito. Uns dez minutos depois, minha mãe abriu a porta e disse, toda alegrinha "veja pelo lado positivo, agora você pode participar dos almoços de domingo".

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Da fome

Tem gente que se alimenta de comida. De música. De amor. De luz. Ela se alimentava de mágoa. Deixava acumular, fingia que perdoava, chorava sozinha e mordia a ponta dos dedos, sentindo toda a mágoa do mundo de uma vez só. E somente quando se cansava muito é que ela conseguia sair da letargia e, por fim, se recuperar. Mas só pelo excesso de mágoa que deixava juntar no peito. Como se no fundo do fundo do poço sem fundo houvesse uma mola que se alimentasse também das dores dela, e somente muito pesada pudesse impulsioná-la para fora. Alimentada de mágoa ela conseguia levantar da cama e organizar a casa, tirar dois quadros da parede, arrumar o banheiro que está há dias esperando o conserto, somente alimentada de mágoa ela sentia que tinha que se reencontrar e, sabe? Viver. Porque sem isso era como se não houvesse fome. E sem fome era como se não houvesse porque levantar da cama depois de dois dias. Ela se enchia de mágoa pra comer o próprio coração.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Devaneio

Ele vinha caminhando rua abaixo imerso em pensamentos. Em meio a seus pensamentos rápidos e atropelados divagava sobre tudo e sobre nada enquanto seu corpo caminhava automaticamente para lugar algum. Era como se o mundo ao seu redor não existisse até o instante em que chocou-se com outra criatura tão distraída quanto ele.

- Desculpa
- Eu que peço desculpa estava aqui viajando e nem te vi.

Despediram-se e seguiram seus caminhos confusos de destinos incertos. Ele sentou-se num banco e pôs-se a tentar devanear como já fazia antes da brusca interrupção que sofrera, foi quando deu-se conta de que não pensava em nada antes de interromperem-no. Quanto mais pensava menos conseguia lembrar de seus pensamentos anteriores.

Começou então a ser tomado por um sentimento incômodo de não ter em que pensar. Todo mundo tem no que pensar, oras. Por que justamente ele não conseguia pensar em outra coisa além da incômoda sensação de não conseguir pensar? A dúvida o torturava: teria ele algo em que pensar?

Levantou-se e pôs-se a observar os transeuntes. Todos sisudos, estariam eles imersos em seus mundos de problemas inexistentes e medos injustificáveis? Não tendo no que pensar começou a pensar sobre o que estariam os outros pensando.

Uma senhora caminhando do outro lado da rua tinha um olhar despreocupado, enquanto aquele homem de meia-idade que passava por ela naquele exato instante tinha um caminhar apressado. De cabeça baixa e cara amarrada facilmente seria comparado a um touro pronto para atacar.

Foi quando deu-se conta de que estava observando as pessoas então pensou consigo se alguém o estaria assistindo naquele exato instante. Deu um giro sobre si mesmo procurando seus possíveis observadores e nada encontrando voltou a observar os outros e tentar descobrir sobre o que eles pensavam.

Tomado por grande curiosidade decidiu que teria que decifrar o mistério. Uma jovem de uns vinte anos de idade vinha subindo a rua. Cabisbaixa, usava toca e cachecol para se proteger do frio e enquanto respirava soltava aquela fumaça resultado da diferença da temperatura corporal para o ambiente frio que a circundava. Resolveu perguntar o que ela pensava e imaginou grandes respostas sobre trabalho, família ou faculdade. Talvez o término de um relacionamento ou o início de um novo.


Assim sendo, quando ela ultrapassou-o ele soltou um grito:

- Hey!

Ela parou de andar e voltou a cabeça para ele, por sobre os ombros:

- Você está pensando no quê agora?

Ela voltou a caminhar com um passo ainda mais apressado e saiu balançando a cabeça, deixando-o na dúvida.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Dos excessos

Assim como veio foi, e quase como num daqueles blues antigos, o que me sobrou foi muito tão pouco que considero nada. Havia tanta fome um dia, havia tanta sede um dia, havia tanta de tanta coisa que hoje em dia nem sei dizer se era enfim real o que havia. Era tanto sentir. Assim como veio foi, aquela necessidade de sangrar por todos os poros pra ver se ainda havia vida, porque de tudo que havia, a vida é o que menos preenchia os espaços. E de todas as lacunas vazias, a tua presença não preenchia as mais severas do peito, disso eu sabia, mas não sentia porque teu olhar me dizia coisas outras. "E de te amar assim muito e amiúde", dizia o Poetinha e eu repetia aos brados pelos cantos do peito porque eu acreditava nisso. Ah, eu te amava demais. Hoje em dia só ficou o café de requentar, o pão com manteiga do café que me olha quando chego à noite em casa. Hoje em dia só ficou o ficar, porque de tudo que havia, constato, nada aconteceu de continuar a existir, como se de mim uma parte você tivesse transformado em todo e assim levado contigo o todo que sou eu. E um dia aconteceu de você me perguntar "por que você me ama assim, hein? nesse exagero todo de quem vai morrer?". E aconteceu de responder "porque se eu não te amar eu morro, oras". Oras, não era claro? Mas, olha só, nem morri. Chorei, sequei, mas nem morri.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Semi-árido

A luz amarelo-mortiça do poste deixava a rua com uma aparência meio mórbida. O frio de enregelar ossos uivava no meu ouvido. Era quase um deserto, e eu esperei em vão ouvir um barulho seco de um disparo. Eu ouvia as passadas dela à minha frente e cada passo doía, como um golpe seco, como doía. Ela ria, bêbada, e gritava andiamo, andiamo!, mas eu não conseguia alcançá-la. Talvez tivesse medo de alcançá-la, na verdade. Porque de nada adiantaria chegar até lá pra não conseguir dizer que eu a amava. Porque eu nunca consegui escrever poesia.

Não que ela ligasse pra poesia, ela não ligava pra maioria das coisas que eu ligava, e no estado em que se encontrava, ela não ligava pra absolutamente nada. Minha prima, ela. Meu amor desde que tenho lembrança. Minha melhor amiga. Que me ligou no início da noite pra dizer que o namoro tinha acabado e ela estava arrasada e ia beber umas vodcas pra variar.

Não que eu visse ali, em sua dor e embriaguez, uma possibilidade pra dizer a ela que eu a amava sem medida, desde sempre, e que ela nunca soube porque eu nunca pude dizer. Não, eu não via. Porque quando a encontrei, já bêbada, o seu olhar seco (como o golpe seco que era cada passada dela, como o vento seco que corria naquela noite árida, como seco é o som do disparo que me acordaria pra vida) me disse que ali não haveria mais nada de amor, pelo menos não por um tempo, aquele tempo que todo mundo precisa quando sofre uma desilusão, e costuma desperdiçar em todos os bares da cidade. E não, não poderia só me aproveitar de sua fragilidade pra ter uma noite tórrida de um sexo embriagado e seco, porque a ela eu amava.

Continuava a correr e eu continuava a lhe acompanhar, de longe, não queria sentir o cheiro do cabelo dela. Até que ela parou, olhou pra trás com olhos de perdição e piedade, o olhar que ela tinha vez em quando e que me dilacerava e pediu: primo, me leva pra casa.

Pude lhe oferecer um abraço, sabendo que ali estaria toda a minha poesia, transbordando dos meus braços pro corpo dela, mas era tudo que eu podia. E senti seus cheiros, tanto o perfume quanto o hálito de vodca quanto o suor da correria quanto o sangue do joelho machucado quanto o vômito da esquina anterior e amei todos aqueles cheiros num desespero silencioso e momentâneo, e fui feliz tendo todos aqueles cheiros assim tão perto de mim. E a levei pra minha casa e a deitei na minha cama e ela adormeceu de embriaguez e dor. E eu adormeci no chão, ao lado dela e sentindo a respiração dela.

Quando acordei no meio da tarde seca e cinzenta, só havia dela os cheiros deixados, cheiro de suor seco, de sangue seco, de embriaguez seca, vômito seco, lágrima seca e coração seco. Assim como era seco o disparo que ouvi e que me acordou naquele deserto semi-árido que era a tarde. Meu coração junto com o dela.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Limites ultrapassados

Nós estávamos nessa vida terrível de idas e vindas. Terminamos nos últimos três meses coisa de umas 7 vezes. Brigávamos pelos motivos mais banais, e reatávamos pelos menos importantes. Não havia nada que nos mantivesse unidos, nem nada que conseguisse nos manter separados.

Acredito que, nunca na minha vida, viverei algo tão intenso quanto o fim desse relacionamento. Agora que acredito que ele realmente tenha chegado ao ponto sem retorno, vejo que amadureci demais. Vivenciei sentimentos que jurava ser incapaz de sentir. Odiei, perdoei, odiei ainda mais e alcancei novamente o ápice do perdão. Quis vinganças, busquei serenidades e cheguei até a admitir que a situação estava fora do meu controle, coisa que, para mim, é praticamente impossível.

Depois de eventos descabidos, como eu me trancando no banheiro para não levar uma facada, ou ela correndo escada abaixo de camisola para não levar uma surra, finalmente cheguei à conclusão de que havíamos ultrapassado até mesmo o limite do irracional. Obviamente não foi uma decisão comum. Xingamos-nos, brigamos, nos agredimos fisicamente e no auge da briga começamos a nos beijar. Um beijo intenso, vívido e quente. Desses que imaginamos ser coisa de novela até nos acontecer.

Fizemos sexo. Um sexo sem limites, sem perversão e sem sentimento. Sexo puro e simples. Depois de terminado o coito eu limpei o canto da minha boca, que sangrava por causa de uns socos que ela havia me dado após desferir-lhe um tapa na cara. Olhei o sangue em minha mão e vi meu rosto marcado nas dezenas de reflexos no espelho quebrado, que milagrosamente manteve-se na moldura do guarda-roupas.

Ali eu entendi o grau de insanidade a que havíamos chegado. Sem falar nada eu retirei as malas de cima do guarda-roupa e comecei a jogar minhas roupas dentro. Ao ver a cena ela começou a pedir que eu não fosse embora, que eu era tudo que ela queria na vida. Vendo que não me abalei ante seus apelos ela se pôs a chorar e começou a me xingar. Xingou-me de uma maneira tão impiedosa que, por um milésimo de segundo ponderei recomeçar a briga que havíamos acabado de encerrar como dois animais no cio.

Quando fechei a mala e comecei a vestir a roupa que eu estava usando antes ela começou a me bater. Desvairada. Chorava, gritava, xingava e me batia. Eu estava tão decidido que parecia que não estava vivendo aquela cena. Eu apenas continuei me vestindo calado enquanto ela me batia e ficava cada vez mais fraca.

Perdeu as forças e sentou-se nua no chão, sem importar-se com os cacos de vidro espalhados, os restos de um porta-retratos com uma linda foto nossa. Botou a cabeça entre os joelhos e chorou todas as lágrimas do mundo. Um choro convulsivo e desesperador que sequer me tocou. Havíamos ultrapassado o limite há muito tempo, muito embora só ali eu tenha me dado conta.

Peguei a mala e sai porta afora. Quando cheguei ao térreo do prédio o celular tocou. Era ela. Eu apenas atirei o aparelho no espelho d'água na entrada do prédio, sem atendê-lo. Dirigi-me até o carro, acendi um cigarro e olhei pela última vez para a janela do apartamento onde morávamos. Joguei a mala dentro do carro e sai guiando sem direção até parar em um desses botecos de esquina, tão imundos na entrada que chega a dar medo de pensar em como é o banheiro.

Pedi uma garrafa de uísque e adormeci na mesa do bar, embriagado com aquele uísque falsificado.