Começando a conversa: esse talvez seja o primeiro texto declaradamente pessoal que publico em um espaço que não seja o meu bloguinho, meu cantinho escondido onde falo abertamente de mim. Claro que, dentro do meu entendimento de literatura e partindo do pressuposto de que sou uma literata, muitos dos textos que escrevo, embora ficcionais, têm relação comigo ou com vivências que experimentei. Mas, nesse post sincerista, não vou me travestir de literata. Sou eu, palavra por palavra. Fácil não é. Uso a literatura justamente para falar de mim sem me expor. Mas como o espaço é dedicado aos românticos incorrigíveis, me sinto à vontade, é quase como conversar com a melhor amiga.
Sendo um texto sincerista, o estilo também é o sincerismo. Escrevo como falo, como sinto, sem preocupações maiores com o vernáculo. Principalmente por saber que, quando há sentimento, quem também sente entende, e isso independe da forma como é dita. Basta sentir.
*
Estou há quase quinze dias sem ver meu namorado, fato que não ocorre há mais de um ano. Difícil, sabem? Ser dividida em duas cidades sempre faz do período de férias um drama.
Passar tanto tempo longe da cara persona acabou me proporcionando diversas epifanias, coisas que tinha ignorado até então e surgiram em momentos de olhar pra dentro. Descobri que, ao contrário do pressuposto comum de que com o amor se aprende, eu desaprendi uma série de coisas.
Descobri que tenho medo de andar sozinha à noite. Eu, que sempre curti a noite (entendam, eu disse a noite e não a “nigth”), que sempre caminhei sozinha à noite pra pensar, que andava mais de dez quarteirões com a melhor amiga depois das dez da noite só pra botar a conversa em dia, tenho medo de andar sozinha à noite. Percebi isso ontem, enquanto voltava pra casa saindo da casa de um amigo. Porque há mais de um ano, quando eu volto pra casa, meu namorado tá no banco do passageiro do carro. E parece que só a presença dele garante minha segurança e bem-estar. Não, não me sinto uma mulherzinha indefesa e não vejo nele o guerreiro medieval que vai afastar os monstros na noite escura. É só aquela reação mecânica de pensar que, se algo acontecer, não vai ter ninguém do meu lado pra ajudar. Também não significa que antes eu me sentia Highlander. É difícil explicar. Mas, resumindo: antes dele, eu andava à noite sem medo.
Descobri também que não sei mais dormir em cama de solteiro. Sozinha, então, é terrível. Descobri numa noite fria, e não só por me faltar o cobertor de orelha, aquela coisa de dormir abraçadinho e tal. Ilustrando: sempre durmo com o ar-condicionado ligado. E há sempre aquele momento, no meio da madrugada, que o frio do ar aperta. Quando isso acontece e quando estou com ele do meu lado, me basta dizer “amor, tou com frio”. Em um minuto – às vezes até menos – o ar já está desligado, ele já ajeitou os cobertores e já me abraçou daquele jeito dele que me deixa mais aquecida. Parece romance, né? É bem piegas, né? Talvez até seja. Mas quando você acorda no meio da noite morrendo de frio e leva cinco minutos pra perceber que a cara persona não está lá pra desligar o ar-condicionado, fechar a janela, virar o ventilador pro outro lado, ajeitar os cobertores ou dar aquele abraço, qualquer coisa que demonstre que seu incômodo incomoda também aquele a quem ama, quando você acorda no meio da noite e percebe que não tem ninguém ali do lado que cuide de você, dá um aperto, ó. Uma vontadezinha fajuta de chorar, chorar de saudade porque você se pega pensando se a outra pessoa também está em casa rolando na cama sem conseguir dormir, porque de repente aquela cama ficou enorme demais.
Descobri que todos aqueles rituais matinais vistos nos filmes estão apenas lá, nos filmes, mas que ainda existe uma maneira de amanhecer ao lado da pessoa amada sem perder a ternura. Abraços, desejos de bom-dia, mais abraços, ele se levanta pra se preparar pra sair (eu me dou ao luxo de ficar na cama até as onze). Toma um banho, come alguma coisa – se o horário permite – e sempre antes de sair me dá um beijo, um abraço e me deseja de novo um bom-dia. Às vezes diz que vai tentar resolver o que tem pra resolver e voltar, e se volta, me traz coxinha de frango e Baré, café da manhã dos campeões. E assim eu desaprendi não só a dormir sozinha mas, obviamente, a acordar sozinha, e meu humor oscila durante o dia se não tenho nosso rituais matinais. É como se a ausência do desejo dele de bom-dia acabasse influenciando no meu dia de fato, deixando ele bem meia-boca.
Descobri que assistir a competições de artes marciais sem ele também não tem graça nenhuma. E olha que eu adoro artes marciais. Sempre assisti ao UFC, campeonato de MMA (mixed-martial-arts, o antigo vale-tudo), mas com ele tudo fica tão mais engraçado e divertido, sabe como? Porque não é só assistir ao evento. É deixar de sair num sábado à noite, comprar umas cervejinhas e acompanhar com fervor religioso os competidores se matando numa gaiola – e o amor tem dessas coisas, de transformar em poesia um esporte violento. Tentei assistir ao UFC sem ele durante as férias, mas dormi durante o primeiro round da primeira luta. E isso nunca tinha acontecido antes dele. Com ele, então, impossível. Porque ao menor cochilo eu acordava assustada ao som de “pega, puta! Dá na cara dele! Joelhada, joelhada! Muito foda, muito foda!”. Claro que é incrível descobrir, no meio de tanta gente, alguém com tanta afinidade para as coisas menos prováveis, como o MMA. E quando se encontra, parece que não dá mais pra dissociar. Daí a gente desaprende a acompanhar se a pessoa não está por perto, pra fazer com que o gosto pela coisa faça sentido.
É claro que todo esse processo de desaprendizado leva a pessoa a aprender coisas novas. Aprendi e aceito a condição de lembrar dele ao ouvir heavymetal, e por lembrar dele, de sentir saudade de ouvir heavymetal. Aprendi a perder uma tarde inteira assistindo ao desenho animado preferido dele (Flapjack, recomendo, passa no Cartoon) só pra ter a impressão de que estamos juntos em casa e eu o observo rachar de rir enquanto assiste. Aprendi que saudade dá pra se matar assim, aos poucos e com pequenas coisas, enquanto não chega o momento de estar junto de novo. Aprendi que o meu lugar preferido do mundo é o peito onde ele me abriga, ainda que à distância, ainda que quebrada em duas cidades, e acredito no poeta que diz que deve haver um porto¹.
Assim como pude descobrir, à la Orkut, o que aprendi com os relacionamentos anteriores (impossível deixá-los de lado, sou feita de memória): o amor é cigano. Caminha, caminha, caminha, tece trilhas e mais trilhas até o local perfeito pra se parar e descansar. The long and widing road that leads to your door². O longo e sinuoso caminho que me levou até a porta dele.
1 – Caio Fernando Abreu
2 – Lennon & McCartney
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segunda-feira, 1 de março de 2010
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Epifania mal-interpretada
Era tarde. Quer dizer, à tarde. Eu caminhava pelo deserto semi-árido que é Brasília no período da seca, entre o Palácio do Buriti e o Memorial JK. Tinha perdido um ônibus, eu acho. Ou sei lá, acho que ia até o Sudoeste a pé, justamente por ter perdido o ônibus, isso. Ia passar na casa dela por algum motivo que não me lembro agora, só que era um motivo doído. Tipo acertar os detalhes da separação. Tipo pegar a caixa com as minhas coisas essenciais ("os quadros deixa aí que eu coloco pra vender numa galeria depois" - ela disse, muito vaca. Comprei aqueles quadros de um artista vanguardista que ela adorava a um preço absurdo, dá pra entender a revolta?). Enfim, eu tinha rompido com a mulher da minha vida, o ser humano a quem mais amei na face da terra e por quem briguei com minha mãe e fui banido de todos os almoços de família para sempre. Deus, como eu amava aquela mulher. Mas ela, bruxa má do oeste, percebeu que em algum momento eu a sufocava e quis dar no pé. Quer dizer, dar no pé é só pra ilustrar a situação, porque quem ficou sem carro e sem apartamento fui eu. Porque eu jamais deixaria a mulher amada e desamparada na rua da amargura. Sendo que a rua da amargura dela era um outro cara no meu apartamento. Que agora era dela. Não sou um monstro, sou um romântico burro e incorrigível.
Voltando. Perco o foco às vezes, desculpem aí.
Estava debaixo daquele calor inclemente de Agosto caminhando em direção à casa que um dia foi minha ouvindo uma das musiquinhas mudernês que ela gostava. Nem sei o nome da banda. Tinha colocado no meu mp3 porque me fazia lembrar dela, e sou desses que gosta de se torturar após um fim de relacionamento. Eu não gostava daquele tipo de música até ela aparecer na minha vida. Ela era mudernê, entendam, eu era um classicista chato, extremamente preconceituoso e sem vontade de conhecer nada novo. Brigávamos horrores por conta disso, porque ela queria ir pras festas de discotecagem mudernê da cidade e eu nem queria ir e nem queria que ela fosse, porque ficar sem ela por algumas horas me deixava em completo desespero. Eu emburrecia sem ela. Sabe como? Não sabia o que fazer das pernas. Mas ela queria ir, e batia o pé, e dizia que se sentia um pássaro aprisionado na gaiola comigo. Eu também odiava essas metáforas, ela era a rainda das metáforas, mas como eu a amava eu suportava isso. E depois que ela me deixou eu virei o rei das metáforas também, mas perdi meus amigos por conta disso. No fim das contas ela acaba indo pras festinhas mudernês e eu ficava em casa macambúzio olhando pro relógio de minuto em minuto esperando seu regresso. E quase sempre colocava um brega sofrido no som porque era assim que eu me sentia, um cara brega que sofria.
Vou tentar desenvolver o tópico sem resgatar esse tipo de lembrança dolorosa. Bom, era à tarde de um dia quente e eu tinha perdido o ônibus e então eu decidi ir caminhando até a casa dela pra buscar qualquer coisa minha da qual ela queria se livrar. Era agosto. Em Brasília. Isso significa que nessa época do ano faz um calor desgracento e o tempo seco e a baixa umidade não ajudam em absolutamente nada, apenas no pôr-do-sol mais bonito que já vi na vida. Então era agosto, e como é final do período da seca, costuma chover de uma hora pra outra, chuva das fortes mesmo, repentinamente, como ela me deixou, r-e-p-e-n-t-i-n-a-m-e-n-t-e. Então eu ia caminhando quando olhei pro céu e percebi que lá no horizonte ele estava mais carregado que o meu peito (eu disse que tinha virado o rei das metáforas). Ia chover em cinco minutos, no máximo. Vocês conhecem Brasília? Na região central existe apenas um descampado com cerrado seco, sem árvores, sem prédios com marquise, sem absolutamente nada que possa fazer um pobre coitado se abrigar da chuva. A maior parte do tempo eu amo Brasília, mas nessas horas ela me dava um pouco de raiva. Ia cair um temporal e eu estava completamente desabrigado, obviamente sem guarda-chuva, porque ao sair de casa pela manhã estava um sol insano. Eu me sentia a criatura mais tola e infeliz da face da terra, caminhando no sol e depois na chuva só pra ver por dois minutos a mulher que me largou. E muito embora em tempos outros eu conseguisse ver poesia e beleza nisso tudo, nessa hora só um alarme apitava na minha cabeça, como se dissesse que eu estava deixando de fazer sentido.
A chuva chegou antes do previsto (como eu disse, r-e-p-e-n-t-i-n-a-m-e-n-t-e), mas não me pegou. Curiosamente, no exato ponto em que eu estava, não chovia. Como num desenho animado, só que ao contrário. Olhei para o céu, como se pedindo clemência, ou até mesmo agradecendo por não estar encharcado, e vi a metáfora de mim mesmo. Parado ali, com uma nuvem negra ao meu redor, e só havia luz sobre mim.
Talvez eu não tenha entendido direito a coisa. Saí do spot de luz que Deus tinha me dado por breves momentos, como uma epifania bizarra e completamente palpável, e caminhei ainda mais decidido à casa da mulher amada. Obviamente peguei muita água no caminho, porque o spot de luz ficou lá, paradinho, sem me perseguir (no momento achei que isso fosse acontecer, ainda como num desenho animado, sabe como? Só que ao contrário, no desenho animado chove sobre você, e esse não era o caso). Depois de quase meia hora de caminhada e encharcado até os ossos, toquei a campainha do apartamento que era meu, virou nosso e agora era dela. Ela abriu a porta e sequer se dignou a me oferecer uma toalha, só pediu pra eu esperar que ela já voltava com as caixas. Quando voltou, perguntei se ela podia me dar uma carona, porque estava chovendo, ela se desculpou e disse que não podia por estar muito ocupada. Ficou parada à porta me olhando com cara de "por que você ainda não foi embora" quando eu desperdicei toda a epifania que Deus me deu naquele momento anterior, aquela coisa toda da luz e da chuva. Pedi a ela que voltasse pra mim, pelo bem da minha saúde. Prometi a ela que a deixaria respirar, como se eu garantisse que abriria a gaiola pra ela dar uma voltinha e quem sabe fazer as fezes longe do jornalzinho (não disse isso, mas soou como se eu tivesse dito, o que pensei depois ser uma grande estupidez). Prometi que seria o melhor marido do mundo e faria dela a mulher mais feliz e amada da face da terra. Ela só me pediu pra ir embora. Mais nada. Só disse "por favor, vá embora". Joguei a caixa com meus pequenos pertences no chão e a abracei pela cintura, desesperado mas sem chorar, e disse que não sabia o que fazer da vida sem ela. Ela se afastou, foi tudo tão rápido, ela se afastou e o punho cerrado do cara que eu não conhecia e morava com ela atingiu meu nariz com tanta precisão que na hora nem senti dor. Fiquei pensando "Deus, que golpe preciso, será que ele luta?" até cair no chão. Senti o sangue quente escorrer pelo rosto e aí doeu, porra, doeu muito. Ela não se mexeu, ficou lá em pé parada com cara de vaca ainda esperando que eu fosse embora. Eu me levantei, limpei o nariz sangrento na camisa de maneira absolutamente inútil e fui embora com minha caixa com meus pequenos pertences e deixando pingos de sangue pelo corredor.
Quando saí do prédio já não chovia mais e o calor abismal tinha voltado. O sangue secou no meu rosto e coçava. E eu olhei pro céu com raiva de Deus, porque na minha cabeça aquela luz sobre mim indicava que, se eu pedisse com carinho, ela me aceitaria de volta. É, eu não era bom em entender sinais.
Apareci na casa da minha mãe a cara do abandono. Ela se encheu de pena, quis me dar banho, disse que ia matar a vaca e essas coisas que mães falam. Fui pro quarto que ainda era meu, mesmo depois de banido, me joguei na cama e chorei com tanto gosto que até desanuviou o peito. Uns dez minutos depois, minha mãe abriu a porta e disse, toda alegrinha "veja pelo lado positivo, agora você pode participar dos almoços de domingo".
Voltando. Perco o foco às vezes, desculpem aí.
Estava debaixo daquele calor inclemente de Agosto caminhando em direção à casa que um dia foi minha ouvindo uma das musiquinhas mudernês que ela gostava. Nem sei o nome da banda. Tinha colocado no meu mp3 porque me fazia lembrar dela, e sou desses que gosta de se torturar após um fim de relacionamento. Eu não gostava daquele tipo de música até ela aparecer na minha vida. Ela era mudernê, entendam, eu era um classicista chato, extremamente preconceituoso e sem vontade de conhecer nada novo. Brigávamos horrores por conta disso, porque ela queria ir pras festas de discotecagem mudernê da cidade e eu nem queria ir e nem queria que ela fosse, porque ficar sem ela por algumas horas me deixava em completo desespero. Eu emburrecia sem ela. Sabe como? Não sabia o que fazer das pernas. Mas ela queria ir, e batia o pé, e dizia que se sentia um pássaro aprisionado na gaiola comigo. Eu também odiava essas metáforas, ela era a rainda das metáforas, mas como eu a amava eu suportava isso. E depois que ela me deixou eu virei o rei das metáforas também, mas perdi meus amigos por conta disso. No fim das contas ela acaba indo pras festinhas mudernês e eu ficava em casa macambúzio olhando pro relógio de minuto em minuto esperando seu regresso. E quase sempre colocava um brega sofrido no som porque era assim que eu me sentia, um cara brega que sofria.
Vou tentar desenvolver o tópico sem resgatar esse tipo de lembrança dolorosa. Bom, era à tarde de um dia quente e eu tinha perdido o ônibus e então eu decidi ir caminhando até a casa dela pra buscar qualquer coisa minha da qual ela queria se livrar. Era agosto. Em Brasília. Isso significa que nessa época do ano faz um calor desgracento e o tempo seco e a baixa umidade não ajudam em absolutamente nada, apenas no pôr-do-sol mais bonito que já vi na vida. Então era agosto, e como é final do período da seca, costuma chover de uma hora pra outra, chuva das fortes mesmo, repentinamente, como ela me deixou, r-e-p-e-n-t-i-n-a-m-e-n-t-e. Então eu ia caminhando quando olhei pro céu e percebi que lá no horizonte ele estava mais carregado que o meu peito (eu disse que tinha virado o rei das metáforas). Ia chover em cinco minutos, no máximo. Vocês conhecem Brasília? Na região central existe apenas um descampado com cerrado seco, sem árvores, sem prédios com marquise, sem absolutamente nada que possa fazer um pobre coitado se abrigar da chuva. A maior parte do tempo eu amo Brasília, mas nessas horas ela me dava um pouco de raiva. Ia cair um temporal e eu estava completamente desabrigado, obviamente sem guarda-chuva, porque ao sair de casa pela manhã estava um sol insano. Eu me sentia a criatura mais tola e infeliz da face da terra, caminhando no sol e depois na chuva só pra ver por dois minutos a mulher que me largou. E muito embora em tempos outros eu conseguisse ver poesia e beleza nisso tudo, nessa hora só um alarme apitava na minha cabeça, como se dissesse que eu estava deixando de fazer sentido.
A chuva chegou antes do previsto (como eu disse, r-e-p-e-n-t-i-n-a-m-e-n-t-e), mas não me pegou. Curiosamente, no exato ponto em que eu estava, não chovia. Como num desenho animado, só que ao contrário. Olhei para o céu, como se pedindo clemência, ou até mesmo agradecendo por não estar encharcado, e vi a metáfora de mim mesmo. Parado ali, com uma nuvem negra ao meu redor, e só havia luz sobre mim.
Talvez eu não tenha entendido direito a coisa. Saí do spot de luz que Deus tinha me dado por breves momentos, como uma epifania bizarra e completamente palpável, e caminhei ainda mais decidido à casa da mulher amada. Obviamente peguei muita água no caminho, porque o spot de luz ficou lá, paradinho, sem me perseguir (no momento achei que isso fosse acontecer, ainda como num desenho animado, sabe como? Só que ao contrário, no desenho animado chove sobre você, e esse não era o caso). Depois de quase meia hora de caminhada e encharcado até os ossos, toquei a campainha do apartamento que era meu, virou nosso e agora era dela. Ela abriu a porta e sequer se dignou a me oferecer uma toalha, só pediu pra eu esperar que ela já voltava com as caixas. Quando voltou, perguntei se ela podia me dar uma carona, porque estava chovendo, ela se desculpou e disse que não podia por estar muito ocupada. Ficou parada à porta me olhando com cara de "por que você ainda não foi embora" quando eu desperdicei toda a epifania que Deus me deu naquele momento anterior, aquela coisa toda da luz e da chuva. Pedi a ela que voltasse pra mim, pelo bem da minha saúde. Prometi a ela que a deixaria respirar, como se eu garantisse que abriria a gaiola pra ela dar uma voltinha e quem sabe fazer as fezes longe do jornalzinho (não disse isso, mas soou como se eu tivesse dito, o que pensei depois ser uma grande estupidez). Prometi que seria o melhor marido do mundo e faria dela a mulher mais feliz e amada da face da terra. Ela só me pediu pra ir embora. Mais nada. Só disse "por favor, vá embora". Joguei a caixa com meus pequenos pertences no chão e a abracei pela cintura, desesperado mas sem chorar, e disse que não sabia o que fazer da vida sem ela. Ela se afastou, foi tudo tão rápido, ela se afastou e o punho cerrado do cara que eu não conhecia e morava com ela atingiu meu nariz com tanta precisão que na hora nem senti dor. Fiquei pensando "Deus, que golpe preciso, será que ele luta?" até cair no chão. Senti o sangue quente escorrer pelo rosto e aí doeu, porra, doeu muito. Ela não se mexeu, ficou lá em pé parada com cara de vaca ainda esperando que eu fosse embora. Eu me levantei, limpei o nariz sangrento na camisa de maneira absolutamente inútil e fui embora com minha caixa com meus pequenos pertences e deixando pingos de sangue pelo corredor.
Quando saí do prédio já não chovia mais e o calor abismal tinha voltado. O sangue secou no meu rosto e coçava. E eu olhei pro céu com raiva de Deus, porque na minha cabeça aquela luz sobre mim indicava que, se eu pedisse com carinho, ela me aceitaria de volta. É, eu não era bom em entender sinais.
Apareci na casa da minha mãe a cara do abandono. Ela se encheu de pena, quis me dar banho, disse que ia matar a vaca e essas coisas que mães falam. Fui pro quarto que ainda era meu, mesmo depois de banido, me joguei na cama e chorei com tanto gosto que até desanuviou o peito. Uns dez minutos depois, minha mãe abriu a porta e disse, toda alegrinha "veja pelo lado positivo, agora você pode participar dos almoços de domingo".
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Semi-árido
A luz amarelo-mortiça do poste deixava a rua com uma aparência meio mórbida. O frio de enregelar ossos uivava no meu ouvido. Era quase um deserto, e eu esperei em vão ouvir um barulho seco de um disparo. Eu ouvia as passadas dela à minha frente e cada passo doía, como um golpe seco, como doía. Ela ria, bêbada, e gritava andiamo, andiamo!, mas eu não conseguia alcançá-la. Talvez tivesse medo de alcançá-la, na verdade. Porque de nada adiantaria chegar até lá pra não conseguir dizer que eu a amava. Porque eu nunca consegui escrever poesia.
Não que ela ligasse pra poesia, ela não ligava pra maioria das coisas que eu ligava, e no estado em que se encontrava, ela não ligava pra absolutamente nada. Minha prima, ela. Meu amor desde que tenho lembrança. Minha melhor amiga. Que me ligou no início da noite pra dizer que o namoro tinha acabado e ela estava arrasada e ia beber umas vodcas pra variar.
Não que eu visse ali, em sua dor e embriaguez, uma possibilidade pra dizer a ela que eu a amava sem medida, desde sempre, e que ela nunca soube porque eu nunca pude dizer. Não, eu não via. Porque quando a encontrei, já bêbada, o seu olhar seco (como o golpe seco que era cada passada dela, como o vento seco que corria naquela noite árida, como seco é o som do disparo que me acordaria pra vida) me disse que ali não haveria mais nada de amor, pelo menos não por um tempo, aquele tempo que todo mundo precisa quando sofre uma desilusão, e costuma desperdiçar em todos os bares da cidade. E não, não poderia só me aproveitar de sua fragilidade pra ter uma noite tórrida de um sexo embriagado e seco, porque a ela eu amava.
Continuava a correr e eu continuava a lhe acompanhar, de longe, não queria sentir o cheiro do cabelo dela. Até que ela parou, olhou pra trás com olhos de perdição e piedade, o olhar que ela tinha vez em quando e que me dilacerava e pediu: primo, me leva pra casa.
Pude lhe oferecer um abraço, sabendo que ali estaria toda a minha poesia, transbordando dos meus braços pro corpo dela, mas era tudo que eu podia. E senti seus cheiros, tanto o perfume quanto o hálito de vodca quanto o suor da correria quanto o sangue do joelho machucado quanto o vômito da esquina anterior e amei todos aqueles cheiros num desespero silencioso e momentâneo, e fui feliz tendo todos aqueles cheiros assim tão perto de mim. E a levei pra minha casa e a deitei na minha cama e ela adormeceu de embriaguez e dor. E eu adormeci no chão, ao lado dela e sentindo a respiração dela.
Quando acordei no meio da tarde seca e cinzenta, só havia dela os cheiros deixados, cheiro de suor seco, de sangue seco, de embriaguez seca, vômito seco, lágrima seca e coração seco. Assim como era seco o disparo que ouvi e que me acordou naquele deserto semi-árido que era a tarde. Meu coração junto com o dela.
Não que ela ligasse pra poesia, ela não ligava pra maioria das coisas que eu ligava, e no estado em que se encontrava, ela não ligava pra absolutamente nada. Minha prima, ela. Meu amor desde que tenho lembrança. Minha melhor amiga. Que me ligou no início da noite pra dizer que o namoro tinha acabado e ela estava arrasada e ia beber umas vodcas pra variar.
Não que eu visse ali, em sua dor e embriaguez, uma possibilidade pra dizer a ela que eu a amava sem medida, desde sempre, e que ela nunca soube porque eu nunca pude dizer. Não, eu não via. Porque quando a encontrei, já bêbada, o seu olhar seco (como o golpe seco que era cada passada dela, como o vento seco que corria naquela noite árida, como seco é o som do disparo que me acordaria pra vida) me disse que ali não haveria mais nada de amor, pelo menos não por um tempo, aquele tempo que todo mundo precisa quando sofre uma desilusão, e costuma desperdiçar em todos os bares da cidade. E não, não poderia só me aproveitar de sua fragilidade pra ter uma noite tórrida de um sexo embriagado e seco, porque a ela eu amava.
Continuava a correr e eu continuava a lhe acompanhar, de longe, não queria sentir o cheiro do cabelo dela. Até que ela parou, olhou pra trás com olhos de perdição e piedade, o olhar que ela tinha vez em quando e que me dilacerava e pediu: primo, me leva pra casa.
Pude lhe oferecer um abraço, sabendo que ali estaria toda a minha poesia, transbordando dos meus braços pro corpo dela, mas era tudo que eu podia. E senti seus cheiros, tanto o perfume quanto o hálito de vodca quanto o suor da correria quanto o sangue do joelho machucado quanto o vômito da esquina anterior e amei todos aqueles cheiros num desespero silencioso e momentâneo, e fui feliz tendo todos aqueles cheiros assim tão perto de mim. E a levei pra minha casa e a deitei na minha cama e ela adormeceu de embriaguez e dor. E eu adormeci no chão, ao lado dela e sentindo a respiração dela.
Quando acordei no meio da tarde seca e cinzenta, só havia dela os cheiros deixados, cheiro de suor seco, de sangue seco, de embriaguez seca, vômito seco, lágrima seca e coração seco. Assim como era seco o disparo que ouvi e que me acordou naquele deserto semi-árido que era a tarde. Meu coração junto com o dela.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Ele vinha, passava um tempo que eu considerava a eternidade ao avesso e depois sumia, demorava uma eternidade de verdade pra voltar. E eu sei lá o que ele fazia quando ia. Sei que ele ia e eu me afogava em Lou Reed e cigarros e, pasmem, adquiri o hábito bacana de beber uísques todos os dias, umas duas ou três doses duplas de qualquer uísque que aparecesse. E ele devia andar a fazer trilhas ou qualquer coisa pseudo-inteligente, dentro das diversas decisões pseudo-inteligentes que ele havia tomado quando éramos um casal feliz - é assustador pensar que já fomos um casal feliz e hoje temos uma relação assim-assim. Porque, assim, quando éramos um casal feliz as coisas iam em conjunto e tínhamos os mesmos gostos e vontades, e de repente não mais que de repente ele resolveu que a vida andava parada demais e tinha tanta coisa pra se ver, não acha? Não, não achava, queria só ficar por aqui, mas ele achava que tinha tanta coisa pra se ver e se foi, oh, se foi mesmo, de verdade verdadeira, e me deixou a comer unhas e enlouquecer um pouco a cada dia. Passava uns três meses em destino incerto e não-sabido e voltava com uns presentinhos fajutos, arte de hippie, e eu me desmilinguia toda porque, no fim das contas, ele havia pensado em mim por um minuto que tivesse sido. Aí passava uns dias comigo, dias loucos e cheios de vida e sexo e amor, muito amor meu, depois partia pra um outro lugar que ele tinha a certeza que precisava conhecer. E aí eu me afundava de novo em cigarros e Lou Reed, e antes eu me afogava em vodka porque era a nossa bebida, nossa amada puta russa, mas depois fui acumulando umas raivas dele e abandonei a puta russa também, quando eu me embriagava muito eu sentia o cheiro dele nela ou por causa dela ou qualquer coisa nesse sentido e me enchia de ciúme e mágoa. E quando ele me ligava eu chorava e pedia peloamordedeus que ele voltasse logo porque senão eu ia pintar meu cabelo de laranja e a parede do quarto de preto, ia fazer um corte moicano no nosso cachorro (o Zé, criaturinha agradável) e ter um filho com um desconhecido. Ele ria e perguntava se eu queria ir pra onde ele estava, pedia pra ele dizer mas ele não dizia, falava que não ia e ele suspirava e desligava o telefone. Numa dessas ele me ligou de Portugal. Não acredito, não acredito, não acredito que você foi parar em Portugal sem mim, eu berrei no telefone, abraçada com carinho à garrafa de Jackson Daniel, meu atual melhor amigo. Ele suspirou fundo fundo bem fundo e falou que o tempo todo ele quis me levar mas eu nunca quis ir, estava com os pés fincados a este apartamento de quarto-e-sala que a terra um dia há de comer junto com meus olhos porque vou pedir pra ser enterrada dentro dele ou junto com ele e ai da funerária se não houve um caixão que caiba, volto pra infernizar a vida de todo mundo. Não, não é bem assim, você quis fazer isso sozinho, eu repliquei. Ele suspirou ainda mais fundo e disse que andava cansado, sabe? Tava pensando em parar um pouco em algum lugar pra ver o que acontecia. Eu te amo, eu disse. Para por aqui e você descansa e a gente descansa junto pra sempre. Isso soou meio mórbido, descansar junto pra sempre. Você quer me matar?, ele perguntou num misto de susto e riso e eu me dei por tranquila, sorri para o Jackson Daniel e ele sorriu pra mim, porque eu sabia que mesmo em Portugal meu amor pensava em mim. Pelo menos eu achava, né, porque ele nunca voltou, já tem um ano ou mais isso, nunca voltou, nunca mais ligou, mas eu sei que anda vivo porque a mãe dele me disse da última das trezentas vezes que liguei na casa dele. A mãe dele me disse que ele ainda estava em Portugal e deve andar se entupindo de pastéis de Belém ao lado de uma portuguesa bigoduda com certeza. Enquanto isso eu continuo aqui, com meu Lou Reed e meu Jackson Daniel e meus cigarros, na decisão pseudo-inteligente de não utilizar a passagem que comprei pra ir atrás dele. Porque, você sabe, se entupir de pastéis de Belém não é uma coisa saudável de se fazer. Meus poucos amigos me dizem que devo aceitar que acabou e pronto, mas eu acho só que ele esqueceu, ou perdeu alguma coisa no meio do caminho. Prefiro acreditar nisso a aceitar o fato de que meu amor partiu. O Jackson Daniel concorda comigo. E um cutelo na cabeça da portuguesa bigoduda até que ia bem.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Noite de Bukowski
Não fiquei necessariamente surpreso quando ela anunciou, de maneira apoteótica, o fim do nosso casamento. Fiquei ofendido, de certa forma. Assim, não que o casamento tivesse salvação, estávamos num declínio vertiginoso há anos, mas eu não podia aceitar que ela me deixasse, como macho dominante que sou – ou pelo menos devia ser. Tentando recuperar um restinho de dignidade, anunciei que ela podia até me deixar e nunca mais olhar na minha cara de novo, mas quem sairia de casa seria eu. Ela riu, condescendente. “Moramos na casa dos seus pais, idiota”. Titubeei um segundo, não tinha atentado praquilo, e de repente sair de casa me pareceu sem sentido. Mas me mantive firme na decisão. “Não faz diferença. Quem deixa esse lugar que um dia, sonhadoramente, chamei de lar, sou eu”. Ela riu de novo, mais condescendente ainda, e aquilo me irritou. Peguei uma mala no armário, enfiei minhas roupas de qualquer jeito e por último arremessei meu portfólio de fotografias por cima de tudo, de um jeito propositalmente dramático. Ela me olhava e eu sei que se enchia de pena a cada segundo que passava, mas mantive minha cena cinematográfica. Fechei a mala de qualquer jeito, dei uma última olhada pelo quarto e saí sem olhar pra ela. Passei no quarto dos meus pais e inventei uma viagem de última hora, não queria preocupá-los, e fui embora. A pé, porque fugir da casa dos pais com o carro que o pai te deu não me pareceu muito rebelde.
No segundo seguinte já estava arrependido, porque chovia a cântaros e cada osso do meu corpo doía com o frio. Caminhei até um hotelzinho do centro, o atendente mal humorado da recepção me jogou num quartinho de segundo andar com a janela emperrada e o ar condicionado quebrado. O quarto cheirava a casa de gente morta. O chuveiro só tinha água gelada, então só troquei de roupa e me joguei na cama. Por um segundo pensei estar agindo feito um estúpido, mas como essa era uma sensação velha conhecida, não lhe dei atenção.
Devo ter dormido duas horas, aproximadamente. Depois de beber todos os mini-uísques que vi pelo quarto (e não eram muitos), liguei para a recepção e perguntei ao atendente mal humorado se ele sabia onde ficava o bar mais próximo. Não consegui entender uma palavra do que ele me disse, mas soou como “primeira à esquerda, segunda à direita, putas baratas”. Ainda tentei retrucar esclarecendo que não estava à procura disso, mas ele simplesmente desligou o telefone. Peguei minha câmera e saí fotografando as ruas da cidade, os postes, ainda caía uma chuvinha fina, mas eu fotografei tudo que vi pela frente. Os passantes me olhavam de maneira suspeita, acho que não era comum alguém fotografar àquela hora da noite um lugar que seria teoricamente sem atrativos. Mas a luz (ou a ausência dela) me atraiu naquele lugar.
Acabei caindo na esquina das tais putas baratas, e elas realmente estavam lá. Fui a um bar próximo, tomei uma cerveja gelada cujo primeiro gole me pareceu irreal e pedi para fotografá-las. Elas riram, meio tímidas, me perguntaram se era algum tipo de tara, expliquei que não, que era fotógrafo e queria fotografá-las, podia até pagar por foto, sei lá. Então elas se animaram, fizeram pose, comprei mais cervejas e bebemos e fotografamos por quase meia-hora, e nos intervalos para trocar o filme da máquina eu contava a elas minha história. Quando já estávamos todos meio bêbados e as putas bem menos tímidas, apareceu um cafetão sabe-deus-de-onde e me encheu de pancada. Destruiu minha máquina e os rolos de filmes, e só não destruiu minha estrutura facial porque as meninas conseguiram explicar a tempo que eu não era um tarado, nem da polícia e nem de um puteiro cybernético, era apenas um recém-divorciado que tinha a mania doentia de fotografar putas e pagar pelas fotos. Ele tomou isso como aceitável e me deixou ir embora, jogando cem reais em cima de mim pelo conserto da máquina que não teria conserto.
Voltei para o hotel bêbado, encharcado de chuva e suor do cafetão, sangrando e mancando muito. O atendente mal humorado não queria que eu subisse pelo elevador pra não manchar o carpete, armei um escândalo na recepção e ele me xingou de vários palavrões num castelhano feroz. Então ele não era brasileiro, por isso eu não entendia uma palavra do que ele dizia. Mas ele tinha cara de brasileiro, isso era o assustador. Tinha cara de José da Silva, mas não era brasileiro. Tentei dizer isso a ele, que se enfureceu ainda mais e gritou palavras de ordem em castelhano, das quais só consegui entender ‘viva la revolución!’ e ‘Guevara hasta siempre!’. Boliviano? Quando perguntei ele subiu no balcão da recepção, colocou um chapeuzinho de lã na cabeça e cantou o hino, que imaginei ser da Bolívia e preferi acreditar que seria, aquilo já tinha ultrapassado todos os limites. Ao final da demonstração de ataque de hipoglicemia ufanista, ele bradou ‘EVO! EVO! EVO!’. Ótimo, um José boliviano. Disse a ele num castelhano arranhado que era partidário de Evo Morales e da revolução indigenista (isso existia?) e pedi que me conseguisse uns mini-uísques. Ele me perguntou onde eu tinha conseguido o olho roxo, falei que na esquina das putas baratas e ele começou a guinchar feito uma hiena mutante, mas me arranjou os mini-uísques. Saiu por uma portinha lateral, eu fiquei batucando os dedos no balcão, impaciente. No calendário pendurado na parede, a foto de uma modelo muito feia mas muito gostosa, possivelmente boliviana. Quando me dei conta da data, entrei em choque. 16 de agosto. Aniversário do velho Bukowski. A informação me veio num relance, eu não me lembrava de saber a data de aniversário daquele velho safado, mas de algum jeito eu sabia que aquela era a noite de 16 de agosto, ou seja, era aniversário do Velho Buk, então era por isso que todas essas coisas estúpidas estavam acontecendo comigo. Prestidigitação cigana. Devo ter passado muito tempo com a boca aberta, em choque, porque quando o José boliviano voltou com umas vinte garrafinhas de mini-uísque voltou a guinchar feito uma hiena, apontando descaradamente da minha cara pra cara da moça do calendário. Tentei explicar que não tinha achado a moça bonita, mas ele continuou a guinchar e eu me dei por vencido, tomei as garrafinhas dele e fiz questão de subir pelo elevador.
Quando voltei ao quarto ele estava parecendo uma sucursal do inferno de tão quente. A janela estava emperrada, então era impossível abrir sem quebrar, e se eu destruísse o hotel do José boliviano ele mandaria o Evo me matar. O ar condicionado não funcionava, ou melhor, ligava mas não refrigerava o ar, soltando aquele bafo quente na minha cara. Culpa do velho Buk, eu repetia, completamente sem sentido. Que noite horrível. Fiquei me perguntando o que minha ex-mulher teria feito, se já teria dito aos meus pais que eu fugi de casa num arroubo de adolescência tardia, se já teria contado sobre o fim do casamento, se já teria viajado para as Ilhas Fiji com aquele amante sem vergonha que ela tinha e que trabalhava na Bolsa de Valores. Fiquei me perguntando o que meus pais estariam pensando de mim, se já teriam mandado as equipes de busca atrás do meu corpo apodrecendo nas ruas perigosas, escuras e fétidas do centro. Depois pensei nas putas e fiquei me perguntando porque diabos eu não tinha chamado uma delas pro hotel, elas me disseram que eram baratinhas mas o material era de qualidade, e me pareceu mesmo, cada bunda e par de peitos que nunca tinha visto antes. De todos os pensamentos, pensar nas putas foi o que mais me confortou, então fiquei com ele. Tentei limpar o filtro do ar condicionado, sem sucesso, e a única solução para aquele calor infernal seria tomar um banho no chuveiro que só tinha água gelada. Ok, banho de uma hora, banho de onanista (a puta loira me fez uma grande companhia), já me senti melhor. Tentei dormir mas não consegui, tomei os outros mini-uísques e quando passava das duas da manhã minha mãe adentrou o quarto do hotel.
__ Certo. Filho, já sabemos o que está acontecendo. É hora de voltar pra casa.
__ Não vou voltar, mãe. Acabei de declarar minha independência. Vou fazer quarenta anos e ainda moro com vocês! Isso é ridículo.
__ Tudo bem. Tudo bem. Quer morar sozinho?
__ Quero!
__ Tudo bem, a gente prepara aquele apartamento da Augusta pra você. A Linete pode ir lá duas vezes por semana pra fazer a limpeza.
__ Certo!
__ E dinheiro?
__ Vou fotografar profissionalmente. Vou vender minhas fotos.
__ Tudo bem, vou te passar uma lista depois dos nossos conhecidos em jornais e revistas e essas coisas. Entro em contato direto com eles.
__ Ótimo!
__ Será que agora podemos voltar pra casa?
__ Não! Só saio daqui direto pro meu apartamento!
__ Bom, você é quem sabe. Vou deixar diárias pagas até o final da semana. Tudo bem pra você?
__ Sim!
__ Certo, então. Boa noite, meu filho. Ligue para o seu pai amanhã.
__ Boa noite, mamãe.
Ela deu as costas e cinco minutos depois o telefone do quarto tocou. O José boliviano disse que ela deixou as diárias pagas e mais todo o estoque do bar do hotel à minha disposição, então eu devia ir até lá pegar os mini-uísques porque ele não andava em elevadores por medo de queda. Desci de roupão até a recepção, e fiquei batucando os dedos na mesa esperando o atendente voltar. Olhei de novo para o calendário, e muito embora tecnicamente não fosse mais 16 de agosto, ainda estava acordado desde que o aniversário do Velho Buk começara. Decidi comemorar.
Desci de roupão até a esquina das putas baratas e encontrei a minha loira. Comemoramos com o Velho Buk no estilo do Velho Buk até amanhecer.
No segundo seguinte já estava arrependido, porque chovia a cântaros e cada osso do meu corpo doía com o frio. Caminhei até um hotelzinho do centro, o atendente mal humorado da recepção me jogou num quartinho de segundo andar com a janela emperrada e o ar condicionado quebrado. O quarto cheirava a casa de gente morta. O chuveiro só tinha água gelada, então só troquei de roupa e me joguei na cama. Por um segundo pensei estar agindo feito um estúpido, mas como essa era uma sensação velha conhecida, não lhe dei atenção.
Devo ter dormido duas horas, aproximadamente. Depois de beber todos os mini-uísques que vi pelo quarto (e não eram muitos), liguei para a recepção e perguntei ao atendente mal humorado se ele sabia onde ficava o bar mais próximo. Não consegui entender uma palavra do que ele me disse, mas soou como “primeira à esquerda, segunda à direita, putas baratas”. Ainda tentei retrucar esclarecendo que não estava à procura disso, mas ele simplesmente desligou o telefone. Peguei minha câmera e saí fotografando as ruas da cidade, os postes, ainda caía uma chuvinha fina, mas eu fotografei tudo que vi pela frente. Os passantes me olhavam de maneira suspeita, acho que não era comum alguém fotografar àquela hora da noite um lugar que seria teoricamente sem atrativos. Mas a luz (ou a ausência dela) me atraiu naquele lugar.
Acabei caindo na esquina das tais putas baratas, e elas realmente estavam lá. Fui a um bar próximo, tomei uma cerveja gelada cujo primeiro gole me pareceu irreal e pedi para fotografá-las. Elas riram, meio tímidas, me perguntaram se era algum tipo de tara, expliquei que não, que era fotógrafo e queria fotografá-las, podia até pagar por foto, sei lá. Então elas se animaram, fizeram pose, comprei mais cervejas e bebemos e fotografamos por quase meia-hora, e nos intervalos para trocar o filme da máquina eu contava a elas minha história. Quando já estávamos todos meio bêbados e as putas bem menos tímidas, apareceu um cafetão sabe-deus-de-onde e me encheu de pancada. Destruiu minha máquina e os rolos de filmes, e só não destruiu minha estrutura facial porque as meninas conseguiram explicar a tempo que eu não era um tarado, nem da polícia e nem de um puteiro cybernético, era apenas um recém-divorciado que tinha a mania doentia de fotografar putas e pagar pelas fotos. Ele tomou isso como aceitável e me deixou ir embora, jogando cem reais em cima de mim pelo conserto da máquina que não teria conserto.
Voltei para o hotel bêbado, encharcado de chuva e suor do cafetão, sangrando e mancando muito. O atendente mal humorado não queria que eu subisse pelo elevador pra não manchar o carpete, armei um escândalo na recepção e ele me xingou de vários palavrões num castelhano feroz. Então ele não era brasileiro, por isso eu não entendia uma palavra do que ele dizia. Mas ele tinha cara de brasileiro, isso era o assustador. Tinha cara de José da Silva, mas não era brasileiro. Tentei dizer isso a ele, que se enfureceu ainda mais e gritou palavras de ordem em castelhano, das quais só consegui entender ‘viva la revolución!’ e ‘Guevara hasta siempre!’. Boliviano? Quando perguntei ele subiu no balcão da recepção, colocou um chapeuzinho de lã na cabeça e cantou o hino, que imaginei ser da Bolívia e preferi acreditar que seria, aquilo já tinha ultrapassado todos os limites. Ao final da demonstração de ataque de hipoglicemia ufanista, ele bradou ‘EVO! EVO! EVO!’. Ótimo, um José boliviano. Disse a ele num castelhano arranhado que era partidário de Evo Morales e da revolução indigenista (isso existia?) e pedi que me conseguisse uns mini-uísques. Ele me perguntou onde eu tinha conseguido o olho roxo, falei que na esquina das putas baratas e ele começou a guinchar feito uma hiena mutante, mas me arranjou os mini-uísques. Saiu por uma portinha lateral, eu fiquei batucando os dedos no balcão, impaciente. No calendário pendurado na parede, a foto de uma modelo muito feia mas muito gostosa, possivelmente boliviana. Quando me dei conta da data, entrei em choque. 16 de agosto. Aniversário do velho Bukowski. A informação me veio num relance, eu não me lembrava de saber a data de aniversário daquele velho safado, mas de algum jeito eu sabia que aquela era a noite de 16 de agosto, ou seja, era aniversário do Velho Buk, então era por isso que todas essas coisas estúpidas estavam acontecendo comigo. Prestidigitação cigana. Devo ter passado muito tempo com a boca aberta, em choque, porque quando o José boliviano voltou com umas vinte garrafinhas de mini-uísque voltou a guinchar feito uma hiena, apontando descaradamente da minha cara pra cara da moça do calendário. Tentei explicar que não tinha achado a moça bonita, mas ele continuou a guinchar e eu me dei por vencido, tomei as garrafinhas dele e fiz questão de subir pelo elevador.
Quando voltei ao quarto ele estava parecendo uma sucursal do inferno de tão quente. A janela estava emperrada, então era impossível abrir sem quebrar, e se eu destruísse o hotel do José boliviano ele mandaria o Evo me matar. O ar condicionado não funcionava, ou melhor, ligava mas não refrigerava o ar, soltando aquele bafo quente na minha cara. Culpa do velho Buk, eu repetia, completamente sem sentido. Que noite horrível. Fiquei me perguntando o que minha ex-mulher teria feito, se já teria dito aos meus pais que eu fugi de casa num arroubo de adolescência tardia, se já teria contado sobre o fim do casamento, se já teria viajado para as Ilhas Fiji com aquele amante sem vergonha que ela tinha e que trabalhava na Bolsa de Valores. Fiquei me perguntando o que meus pais estariam pensando de mim, se já teriam mandado as equipes de busca atrás do meu corpo apodrecendo nas ruas perigosas, escuras e fétidas do centro. Depois pensei nas putas e fiquei me perguntando porque diabos eu não tinha chamado uma delas pro hotel, elas me disseram que eram baratinhas mas o material era de qualidade, e me pareceu mesmo, cada bunda e par de peitos que nunca tinha visto antes. De todos os pensamentos, pensar nas putas foi o que mais me confortou, então fiquei com ele. Tentei limpar o filtro do ar condicionado, sem sucesso, e a única solução para aquele calor infernal seria tomar um banho no chuveiro que só tinha água gelada. Ok, banho de uma hora, banho de onanista (a puta loira me fez uma grande companhia), já me senti melhor. Tentei dormir mas não consegui, tomei os outros mini-uísques e quando passava das duas da manhã minha mãe adentrou o quarto do hotel.
__ Certo. Filho, já sabemos o que está acontecendo. É hora de voltar pra casa.
__ Não vou voltar, mãe. Acabei de declarar minha independência. Vou fazer quarenta anos e ainda moro com vocês! Isso é ridículo.
__ Tudo bem. Tudo bem. Quer morar sozinho?
__ Quero!
__ Tudo bem, a gente prepara aquele apartamento da Augusta pra você. A Linete pode ir lá duas vezes por semana pra fazer a limpeza.
__ Certo!
__ E dinheiro?
__ Vou fotografar profissionalmente. Vou vender minhas fotos.
__ Tudo bem, vou te passar uma lista depois dos nossos conhecidos em jornais e revistas e essas coisas. Entro em contato direto com eles.
__ Ótimo!
__ Será que agora podemos voltar pra casa?
__ Não! Só saio daqui direto pro meu apartamento!
__ Bom, você é quem sabe. Vou deixar diárias pagas até o final da semana. Tudo bem pra você?
__ Sim!
__ Certo, então. Boa noite, meu filho. Ligue para o seu pai amanhã.
__ Boa noite, mamãe.
Ela deu as costas e cinco minutos depois o telefone do quarto tocou. O José boliviano disse que ela deixou as diárias pagas e mais todo o estoque do bar do hotel à minha disposição, então eu devia ir até lá pegar os mini-uísques porque ele não andava em elevadores por medo de queda. Desci de roupão até a recepção, e fiquei batucando os dedos na mesa esperando o atendente voltar. Olhei de novo para o calendário, e muito embora tecnicamente não fosse mais 16 de agosto, ainda estava acordado desde que o aniversário do Velho Buk começara. Decidi comemorar.
Desci de roupão até a esquina das putas baratas e encontrei a minha loira. Comemoramos com o Velho Buk no estilo do Velho Buk até amanhecer.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
E era assim, e desde que te conheci era assim, eu pensava em ti todos os dias. Todos os dias. Qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa do meu dia, fazia me lembrar de ti. Fosse porque o céu estivesse mais azul, fosse porque ventava, fosse porque o dia era comum, qualquer coisa me fazia lembrar de ti.
Era assim. Eu te conheci, e nunca mais descansei. As coisas não têm paz.
Era assim. Eu te conheci, e nunca mais descansei. As coisas não têm paz.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Termina o café. Apaga o cigarro. Solta a fumaça.
Ela caminha, mas num caminhar incerto, desses mesmo de quem não sabe aonde ir. Recusa uma ligação. Respira fundo enquanto olha a Lua, cheia. Num meio sorriso, lembrando de outro tempo, ela quase uiva. Não, não é momento.
De tanto caminhar, se cansa. Pára e senta num banco de praça. Afaga o peito pra conter a lágrima. E cai a chuva.
E com a chuva ela atende a ligação há pouco recusada. Num meio sorriso, mais de resignação, ela conversa. Porém nada manifesta, apenas diz sem dizer, como já é de seu costume fazer.
Volta a caminhar, agora sabendo aonde ir. E de tanto caminhar acaba chegando, ofegante, ao lugar onde não deveria estar.
Toca a campainha uma, duas, dez vezes. Ninguém vem ao seu encontro. Ninguém nunca está.
Pára diante da porta. Senta. Acende o cigarro. Solta a fumaça. E a lágrima.
Ela caminha, mas num caminhar incerto, desses mesmo de quem não sabe aonde ir. Recusa uma ligação. Respira fundo enquanto olha a Lua, cheia. Num meio sorriso, lembrando de outro tempo, ela quase uiva. Não, não é momento.
De tanto caminhar, se cansa. Pára e senta num banco de praça. Afaga o peito pra conter a lágrima. E cai a chuva.
E com a chuva ela atende a ligação há pouco recusada. Num meio sorriso, mais de resignação, ela conversa. Porém nada manifesta, apenas diz sem dizer, como já é de seu costume fazer.
Volta a caminhar, agora sabendo aonde ir. E de tanto caminhar acaba chegando, ofegante, ao lugar onde não deveria estar.
Toca a campainha uma, duas, dez vezes. Ninguém vem ao seu encontro. Ninguém nunca está.
Pára diante da porta. Senta. Acende o cigarro. Solta a fumaça. E a lágrima.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Profissão: literato
"Workshop de literatura com Miguel Leal, autor dos best-sellers 'O anjo dos fracassados' e 'O amor e seus demônios'. De 22 a 26 de setembro..." e blá blá blá, eu enjoava toda vez que lia aquele anúncio no jornal. Aí meu editor me ligava, empolgadíssimo: "leu o anúncio do jornal? Vou fazer uns contatos hoje, acho que consigo veicular no rádio e na tevê também" e eu tinha mais um colapso mental. "Já te disse que não quero fazer isso, Otávio. Não posso ensinar ninguém a escrever", eu dizia, mas era vão, ele não me ouvia. Podia imaginá-lo quicando por sua sala, feliz da vida com o novo contratado de sua editora: eu. E só um ser humano que teve hiperatividade na infância e a cabeça cheia de Ritalin poderia ficar empolgado em me contratar.
Depois do rolo com a editora anterior e sua revisora mal comida, gastei uma fortuna pagando as custas do processo, os danos morais e materiais, até o tratamento psiquiátrico daquela desgraçada ficou por minha conta. Tive de tirar meu blog do ar e fiquei meses sem conseguir me publicar. Curiosamente, foi o meu período mais fértil, escrevi quase cinco romances, todos eles com qualidade acima da média. Como dizia Ana, a mulher amada, eu estava enfim beirando a perfeição.
Aí, numa tarde dessas secas e quentes de Brasília, fui até o bar do Rubens pra tomar uma cerveja e vi o Otávio por lá. A gente já se conhecia de longa data, fizemos faculdade juntos, ele seguiu e eu larguei. Sentei à mesa com ele, conversamos, relembramos velhas histórias e demos muita risada.
__ E você, Miguel? Grande literato, quem diria. Já tem previsão de quando sai livro novo?
__ Estou sem editora, Otávio. Não publico nada há quase um ano, mas estou cheio de material.
__ E como você conseguiu ficar sem editora?
__ Uma história suja aí. Envolvendo um blog e uma revisora, enfim.
__ Você fazia sexo com ela, ahn? Pode falar, garanhão, pode falar! Fez sexo com ela, tirou fotos e postou no blog, ahn?!
__ Meu Deus, Otávio, você é doente. Não foi nada disso. Só tive um problema judicial, que já está resolvido. Mas fiquei sem editora e sem dinheiro.
__ Hum. Eu abri uma editora há pouco mais de seis meses.
__ Eu soube. E aí?
__ Muito trabalho. Tem muita gente nova querendo ser publicada. Conhece a Mariana de Médicis?
__ Nunca ouvi falar.
__ Incrível. Ela é incrível. Tem 22 anos. Já publicamos dois livros dela. Quase tudo tirado da internet, ela também tem um blog.
__ Ah. Mais uma.
__ Como assim?
__ Mais uma dessas. Orgias, drogas, pais ricos que não se importam.
__ Exatamente. Maravilhoso. Maravilhoso. Isso vende que nem água.
__ Isso não é literatura.
__ Não seja purista. Enfim. Manda algum material seu, quem sabe a gente publica.
__ Pode ser.
E assim fui contratado, não por período, nem por obra. Apenas fazia parte do casting da editora, já conhecida no mercado editorial por publicar praticamente qualquer coisa que tivesse mais de cem páginas, fosse lá o que fosse. Logo depois o Otávio teve a idéia de fazer o maldito workshop, pra avaliar como andava minha aceitação com o público antes de voltar a me publicar, muito embora meu romance já estivesse pronto pra ser distribuído. E me passou o endereço do blog da tal Mariana de Médicis, que joguei fora sem me interessar em ler.
No primeiro dia de aula eu estava nervoso. Não por ter de dar aulas, falar sobre literatura nunca foi problema pra mim. Eu estava nervoso por não concordar com aquilo. Quer dizer, como eu ia ensinar a alguém como ser um bom escritor? Isso não fazia sentido. Você pode ensinar alguém a escrever, juntar palavras de um jeito que tenha significado, mas jamais vai poder ensinar alguém a ser um escritor talentoso. Cansei de explicar isso pro Otávio, mas ele simplesmente não me dava ouvidos.
Cheguei ao local do maldito workshop e, para meu terror, estava lotado. Infestado de jovenzinhos da classe tipo Mariana de Médicis, todos que escrevem em blogs e sonham em um dia ver suas reclamações sobre a vida em papel impresso exposto em uma livraria qualquer. Vários estudantes de Letras que achavam que o domínio da norma culta o faziam literatos melhores que seus ídolos, gente tipo o Paulo Coelho e Sidney Sheldon. O tipo de gente que eu abomino.
__ Pois bem. Agradeço a presença de todos vocês aqui. Gostaria de dizer que ser um escritor de talento é bem simples. Basta ter nascido com ele. Se você nasceu com talento, ótimo. Vá escrever e encaminhe seu material pra editora e colha os louros da fama. Se você não tem talento, desista. Estude pra concurso público, vá trabalhar numa loja de shopping, vire artista de tevê, celebridade instantânea, participe de um reality show ou o que valha. Mas, por favor, não escreva. É isso. Obrigado por terem vindo e tenham todos uma boa tarde.
Não fiquei pra esperar a reação, apenas dei as costas e fui embora, me sentindo dez quilos mais leve. Poucas sensações no mundo se assemelham a de alívio. Voltei a pé pra casa, uma caminhada considerável, passei na casa de Ana pra dar-lhe um beijo e lhe dizer que a amava e finalmente entrei em casa. O Otávio já estava lá, tomando um cafezinho com a minha mãe.
__ Meu editor favorito.
__ Miguel, Miguel. Como você pôde fazer isso comigo?
__ Eu disse pra não contratá-lo, Otávio.
__ Obrigado, mãe. Otávio, eu cansei de dizer que não concordava com aquilo. E continuo discordando. É absurdo. Surreal.
__ Certo. Certo. O mais importante, porém, é que a pesquisa que fizemos no final de tudo indica que sua imagem não foi assim tão afetada. Eles te acham excêntrico, e excêntrico no mundo editorial é sempre um elogio.
__ Hum.
__ Ok. Vamos devolver o dinheiro deles e pedir que eles comprem seu livro. Já autorizei a distribuição. Mês que vem teremos noite de autógrafos! Saudade?
__ Não.
__ Hum. Você é realmente excêntrico. Bem, tenho uma reunião com a Mariana, parece que querem filmar o último livro dela, isso é fantástico.
__ Sim, estou molhado de excitação.
__ Ei! Você não quer ir à reunião comigo? Ia ser ótimo se os dois maiores escritores da minha editora se conhecessem.
__ Não posso. Tenho que colocar meus pés na água morna.
__ Não seja chato. Vamos.
Pouco depois chegamos à casa da tal Mariana, uma mansão no Lago Norte. Exatamente como eu imaginava. Ela era linda, loira e pseudo-rocker, ou punk de boutique, como já ouvi por aí. Usava roupa de couro preto, um coturno pesadíssimo e uma maquiagem que a deixava com cara de defunta. Contei uns cinco piercings numa primeira olhada, e no fim de tudo cheguei à conclusão que ela me dava medo.
__ Mari, meu amor. Como você está?
__ Hum. Entrem.
__ Oi, eu sou o Miguel.
__ Sei quem você é. O cara do blog. Ele saiu do ar, né?
__ Sim.
__ Essas 'fucking' instituições...por isso eu gostava de morar em Nova York. Existe liberdade de expressão por lá.
__ E por que voltou pro Brasil?
__ Uns lances aí. Família, 'tals'.
__ Tals?
__ É.
__ Hum. Otávio, vem até aqui no meu escritório.
Puxei o Otávio de volta em direção à porta e anunciei dramaticamente que iria embora.
__ Miguel, quer parar com isso? Dê uma chance à menina!
__ Otávio, ela fala 'tals'! Eu sei lá que diabos é isso! Se eu ficar, vou fazê-la se sentir tão deprimida que aí sim haverá razão pra cara de defunta dela.
__ Por favor, cara. Em nome da nossa amizade. E pra apagar o que você fez comigo hoje à tarde.
__ Tudo bem. Mas não me responsabilizo.
Voltamos à sala e ela bebia um dry martini enquanto fumava um charuto. Tudo nela me parecia ensaiado, forçado, pensado com calma. Pedi um uísque duplo sem gelo e me sentei no canto oposto da sala, meio que acuado no sofá, rezando pra que conseguisse permanecer calado. Otávio começou a falar do filme com ela e ela parecia propositalmente desinteressada. Dizia coisas como 'whatever', 'who cares?', 'oh, gosh!' e por aí vai. Ela me dava coceira.
__ Posso te fazer uma pergunta sincera?
__ 'Go on'.
__ Por que você escreve?
__ Sei lá. Um dia, contando minha história de vida pra alguém, um cara aí, ele falou que minha vida dava um livro. Então escrevi e vendeu e achei legal fazer isso. Quer dizer, agora tenho uma profissão, meu pai vivia reclamando que eu larguei a faculdade, agora posso dizer pra ele 'sou escritora, você pode viver com isso?'. Meu pai me odeia, 'by the way'.
__ E você escreve como fala?
__ 'Ié, babe'.
__ Deus. Você sente o mínimo de paixão por isso?
__ Minhas paixões são engarrafadas, querido. O resto é consequência do líquido.
__ Literatura não é profissão, Mariana.
__ Rá, vai dizer isso pro Paul Rabbit!
__ E quem diabos é esse?
__ 'Gosh', o Paulo Coelho!
__ Otávio, agora é sério, eu vou embora.
Dei as costas e saí da sala, doido pra respirar. Quando já estava a uma distância segura, liguei pra editora e pedi pra cancelarem meu contrato. Depois liguei pra minha mãe e avisei a ela que tinha enfim saído da editora, que voltaria a ser um peso pra ela e pro Estado. Ela sorriu e disse 'tudo bem, meu filho, não há nada tão ruim que não possa piorar'. Fui pra casa da Ana e disse a ela que não aguentava mais aquilo, estava decidido a largar tudo, encarar literatura como profissão foi justamente o que fez desses últimos dois anos os piores de minha vida. Disse a ela que minha meta agora era escrever tão somente por prazer, e deixar os escritos espalhados pela casa, os visitantes poderiam ler caso se interessassem, mas nada de publicar ou assinar contratos ou autografar exemplares em livrarias lotadas de imbecis. Ela sorriu o sorriso mais lindo da face da terra e disse que finalmente eu alcançara a perfeição.
***
Texto escrito para ler ao som de "Essa moça tá diferente", do Chico Buarque. Ou qualquer música que seja uma conversa do autor com sua própria obra.
Depois do rolo com a editora anterior e sua revisora mal comida, gastei uma fortuna pagando as custas do processo, os danos morais e materiais, até o tratamento psiquiátrico daquela desgraçada ficou por minha conta. Tive de tirar meu blog do ar e fiquei meses sem conseguir me publicar. Curiosamente, foi o meu período mais fértil, escrevi quase cinco romances, todos eles com qualidade acima da média. Como dizia Ana, a mulher amada, eu estava enfim beirando a perfeição.
Aí, numa tarde dessas secas e quentes de Brasília, fui até o bar do Rubens pra tomar uma cerveja e vi o Otávio por lá. A gente já se conhecia de longa data, fizemos faculdade juntos, ele seguiu e eu larguei. Sentei à mesa com ele, conversamos, relembramos velhas histórias e demos muita risada.
__ E você, Miguel? Grande literato, quem diria. Já tem previsão de quando sai livro novo?
__ Estou sem editora, Otávio. Não publico nada há quase um ano, mas estou cheio de material.
__ E como você conseguiu ficar sem editora?
__ Uma história suja aí. Envolvendo um blog e uma revisora, enfim.
__ Você fazia sexo com ela, ahn? Pode falar, garanhão, pode falar! Fez sexo com ela, tirou fotos e postou no blog, ahn?!
__ Meu Deus, Otávio, você é doente. Não foi nada disso. Só tive um problema judicial, que já está resolvido. Mas fiquei sem editora e sem dinheiro.
__ Hum. Eu abri uma editora há pouco mais de seis meses.
__ Eu soube. E aí?
__ Muito trabalho. Tem muita gente nova querendo ser publicada. Conhece a Mariana de Médicis?
__ Nunca ouvi falar.
__ Incrível. Ela é incrível. Tem 22 anos. Já publicamos dois livros dela. Quase tudo tirado da internet, ela também tem um blog.
__ Ah. Mais uma.
__ Como assim?
__ Mais uma dessas. Orgias, drogas, pais ricos que não se importam.
__ Exatamente. Maravilhoso. Maravilhoso. Isso vende que nem água.
__ Isso não é literatura.
__ Não seja purista. Enfim. Manda algum material seu, quem sabe a gente publica.
__ Pode ser.
E assim fui contratado, não por período, nem por obra. Apenas fazia parte do casting da editora, já conhecida no mercado editorial por publicar praticamente qualquer coisa que tivesse mais de cem páginas, fosse lá o que fosse. Logo depois o Otávio teve a idéia de fazer o maldito workshop, pra avaliar como andava minha aceitação com o público antes de voltar a me publicar, muito embora meu romance já estivesse pronto pra ser distribuído. E me passou o endereço do blog da tal Mariana de Médicis, que joguei fora sem me interessar em ler.
No primeiro dia de aula eu estava nervoso. Não por ter de dar aulas, falar sobre literatura nunca foi problema pra mim. Eu estava nervoso por não concordar com aquilo. Quer dizer, como eu ia ensinar a alguém como ser um bom escritor? Isso não fazia sentido. Você pode ensinar alguém a escrever, juntar palavras de um jeito que tenha significado, mas jamais vai poder ensinar alguém a ser um escritor talentoso. Cansei de explicar isso pro Otávio, mas ele simplesmente não me dava ouvidos.
Cheguei ao local do maldito workshop e, para meu terror, estava lotado. Infestado de jovenzinhos da classe tipo Mariana de Médicis, todos que escrevem em blogs e sonham em um dia ver suas reclamações sobre a vida em papel impresso exposto em uma livraria qualquer. Vários estudantes de Letras que achavam que o domínio da norma culta o faziam literatos melhores que seus ídolos, gente tipo o Paulo Coelho e Sidney Sheldon. O tipo de gente que eu abomino.
__ Pois bem. Agradeço a presença de todos vocês aqui. Gostaria de dizer que ser um escritor de talento é bem simples. Basta ter nascido com ele. Se você nasceu com talento, ótimo. Vá escrever e encaminhe seu material pra editora e colha os louros da fama. Se você não tem talento, desista. Estude pra concurso público, vá trabalhar numa loja de shopping, vire artista de tevê, celebridade instantânea, participe de um reality show ou o que valha. Mas, por favor, não escreva. É isso. Obrigado por terem vindo e tenham todos uma boa tarde.
Não fiquei pra esperar a reação, apenas dei as costas e fui embora, me sentindo dez quilos mais leve. Poucas sensações no mundo se assemelham a de alívio. Voltei a pé pra casa, uma caminhada considerável, passei na casa de Ana pra dar-lhe um beijo e lhe dizer que a amava e finalmente entrei em casa. O Otávio já estava lá, tomando um cafezinho com a minha mãe.
__ Meu editor favorito.
__ Miguel, Miguel. Como você pôde fazer isso comigo?
__ Eu disse pra não contratá-lo, Otávio.
__ Obrigado, mãe. Otávio, eu cansei de dizer que não concordava com aquilo. E continuo discordando. É absurdo. Surreal.
__ Certo. Certo. O mais importante, porém, é que a pesquisa que fizemos no final de tudo indica que sua imagem não foi assim tão afetada. Eles te acham excêntrico, e excêntrico no mundo editorial é sempre um elogio.
__ Hum.
__ Ok. Vamos devolver o dinheiro deles e pedir que eles comprem seu livro. Já autorizei a distribuição. Mês que vem teremos noite de autógrafos! Saudade?
__ Não.
__ Hum. Você é realmente excêntrico. Bem, tenho uma reunião com a Mariana, parece que querem filmar o último livro dela, isso é fantástico.
__ Sim, estou molhado de excitação.
__ Ei! Você não quer ir à reunião comigo? Ia ser ótimo se os dois maiores escritores da minha editora se conhecessem.
__ Não posso. Tenho que colocar meus pés na água morna.
__ Não seja chato. Vamos.
Pouco depois chegamos à casa da tal Mariana, uma mansão no Lago Norte. Exatamente como eu imaginava. Ela era linda, loira e pseudo-rocker, ou punk de boutique, como já ouvi por aí. Usava roupa de couro preto, um coturno pesadíssimo e uma maquiagem que a deixava com cara de defunta. Contei uns cinco piercings numa primeira olhada, e no fim de tudo cheguei à conclusão que ela me dava medo.
__ Mari, meu amor. Como você está?
__ Hum. Entrem.
__ Oi, eu sou o Miguel.
__ Sei quem você é. O cara do blog. Ele saiu do ar, né?
__ Sim.
__ Essas 'fucking' instituições...por isso eu gostava de morar em Nova York. Existe liberdade de expressão por lá.
__ E por que voltou pro Brasil?
__ Uns lances aí. Família, 'tals'.
__ Tals?
__ É.
__ Hum. Otávio, vem até aqui no meu escritório.
Puxei o Otávio de volta em direção à porta e anunciei dramaticamente que iria embora.
__ Miguel, quer parar com isso? Dê uma chance à menina!
__ Otávio, ela fala 'tals'! Eu sei lá que diabos é isso! Se eu ficar, vou fazê-la se sentir tão deprimida que aí sim haverá razão pra cara de defunta dela.
__ Por favor, cara. Em nome da nossa amizade. E pra apagar o que você fez comigo hoje à tarde.
__ Tudo bem. Mas não me responsabilizo.
Voltamos à sala e ela bebia um dry martini enquanto fumava um charuto. Tudo nela me parecia ensaiado, forçado, pensado com calma. Pedi um uísque duplo sem gelo e me sentei no canto oposto da sala, meio que acuado no sofá, rezando pra que conseguisse permanecer calado. Otávio começou a falar do filme com ela e ela parecia propositalmente desinteressada. Dizia coisas como 'whatever', 'who cares?', 'oh, gosh!' e por aí vai. Ela me dava coceira.
__ Posso te fazer uma pergunta sincera?
__ 'Go on'.
__ Por que você escreve?
__ Sei lá. Um dia, contando minha história de vida pra alguém, um cara aí, ele falou que minha vida dava um livro. Então escrevi e vendeu e achei legal fazer isso. Quer dizer, agora tenho uma profissão, meu pai vivia reclamando que eu larguei a faculdade, agora posso dizer pra ele 'sou escritora, você pode viver com isso?'. Meu pai me odeia, 'by the way'.
__ E você escreve como fala?
__ 'Ié, babe'.
__ Deus. Você sente o mínimo de paixão por isso?
__ Minhas paixões são engarrafadas, querido. O resto é consequência do líquido.
__ Literatura não é profissão, Mariana.
__ Rá, vai dizer isso pro Paul Rabbit!
__ E quem diabos é esse?
__ 'Gosh', o Paulo Coelho!
__ Otávio, agora é sério, eu vou embora.
Dei as costas e saí da sala, doido pra respirar. Quando já estava a uma distância segura, liguei pra editora e pedi pra cancelarem meu contrato. Depois liguei pra minha mãe e avisei a ela que tinha enfim saído da editora, que voltaria a ser um peso pra ela e pro Estado. Ela sorriu e disse 'tudo bem, meu filho, não há nada tão ruim que não possa piorar'. Fui pra casa da Ana e disse a ela que não aguentava mais aquilo, estava decidido a largar tudo, encarar literatura como profissão foi justamente o que fez desses últimos dois anos os piores de minha vida. Disse a ela que minha meta agora era escrever tão somente por prazer, e deixar os escritos espalhados pela casa, os visitantes poderiam ler caso se interessassem, mas nada de publicar ou assinar contratos ou autografar exemplares em livrarias lotadas de imbecis. Ela sorriu o sorriso mais lindo da face da terra e disse que finalmente eu alcançara a perfeição.
***
Texto escrito para ler ao som de "Essa moça tá diferente", do Chico Buarque. Ou qualquer música que seja uma conversa do autor com sua própria obra.
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terça-feira, 5 de agosto de 2008
Tempo errado
Aconteceu hoje de novo, sabe? Aconteceu de novo. Eu fico tão mal quando acontece, tão mal, mas isso sempre se repete. Todo dia alguém me vê e pergunta por você. E eu não me chateio por perguntarem, as pessoas não têm culpa de não saber. O que me enerva é que perguntam por você e eu respondo que não sei e daí eles encaixotam a discrição e o bom-senso e sempre perguntam com um ar fingidamente chocado se a gente terminou e eu respondo com o silêncio, talvez um aceno breve de cabeça, mas sempre em silêncio. E então eles começam a discursar sobre como éramos um casal bonito e feliz e, poxa, que pena que não estamos mais juntos, mas desejam que eu fique bem, essas coisas passam e logo eu vou encontrar outra pessoa - às vezes soa como "vá em frente, amigo, não morra, você consegue viver sem ela", como se eu estivesse morrendo de uma doença galopante por você ter me deixado. Outra coisa que me chateia é que quando eles perguntam por você imediatamente me pergunto por você também, porque assim como eles eu não faço a mais pálida idéia de por onde você anda. Ah, não, não me chateia não saber de você, me dá raiva por querer saber. Porque antes eu ainda tinha aquela coisa boba e dolorida de guardar os momentos bons, sabe? Antes ainda tinha aquela coisa de lembrar do dia ensolarado no parque ou qualquer coisa que eu tivesse como feliz na nossa história. E depois veio o tempo da amargura, o tempo de lembrar de todas as infelicidades e mágoas e dores pra ver se eu te esquecia. Depois veio o tempo mais feliz, pelo menos pra mim, que era lembrar de ti apenas como um ponto de referência, sabe como? Quando eu te inseria em uma lembrança minha era mais pra me situar no tempo e no espaço, algo como "choveu naquela noite", dizer "eu estava com ela" era o mesmo que dizer "foi um dia de calor absurdo". E agora eu acumulo todas as lembranças, boas e ruins, consigo me lembrar de cada gosto, de cada gesto, e agora sim eu pareço estar morrendo de uma doença galopante, porque antes não tinha isso de me perguntarem por você todos os dias. Engraçado, sabe do que me lembrei agora? Me lembrei que isso também me chateava no início de tudo, quando ainda estávamos "nos conhecendo e ficando ocasionalmente", passamos bem uns seis meses nessa, e as pessoas sempre me perguntavam por você e o que me dava raiva era porque de fato eu não sabia, você tinha a sua vida que não fazia parte da minha e era tão sua que eu não conseguia sequer imaginar o que você fazia quando estava longe de mim, porque estávamos apenas "nos conhecendo e ficando ocasionalmente" e eu não podia ligar só pra saber que diabos você andava fazendo. E muito embora eu soubesse que você tinha suas ocupações e não podia girar na minha órbita 24 horas por dia, meu coração apaixonado se enchia de delírios conspiratórios e sua ausência doía todas as noites, porque eu me sabia sozinho todas as noites mas não te sabia sozinha fumando um cigarro e pensando em mim antes de dormir. E aí se eu encontra alguém a primeira pergunta era sempre por você, e eu recalcado respondia "como é que eu vou saber?", ao que ouvia sempre uma piadinha na volta, algo como "é, se você não sabe, quem vai saber?". E foi assim até assumirmos o namoro, e incrivelmente as pessoas pararam de perguntar por você, justo na época que eu queria que perguntassem, porque aí eu saberia responder. Estão no tempo errado, todos eles. Dá vontade de tatuar na testa "não sei dela", pior é quando vão ao meu/que era nosso apartamento, "ah, ela não mora mais aqui", "por isso está essa zona" e por aí vai, e cada pergunta me traz uma lembrança nova, ainda mais corrosiva que a anterior, só fazendo aumentar a angústia e o tamanho da ausência. Quer saber? Da próxima vez que me perguntarem por ti, vou dizer que você morreu. De uma doença galopante qualquer. "Morreu, não é uma pena?".
quinta-feira, 24 de julho de 2008
De olores
Havia um cheiro em cada madrugada. Na primeira, o cheiro era uma mistura meio ébria de café, álcool, cigarros e maresia. Depois, com o tempo, veio o cheiro do sexo dela, do hálito amanhecido, do café requentado, sempre havia cheiro de cigarro, muitas vezes de álcool. E em mim havia o cheiro de gente doente, que morre um pouco a cada dia. Havia cheiro de flores brancas que eu sentia comigo desde o enterro de Nina, como se eu as carregasse pela eternidade em minhas mãos cansadas. E logo veio o cheiro de poeira, a poeira que se acumula sobre as coisas esquecidas na janela, em uma daquelas tardes em que estivemos a fumar e olhar o mar, tardes essas que não se repetem porque não compartilhamos cheiro algum agora. Não sinto, nunca senti o cheiro dela em minhas mãos. Lembro que ela tinha um cheiro bom na nuca, que não era perfume, era um cheiro próprio mesmo, e eu dizia que o cheiro de Clara era o meu preferido, ela ria feliz e me perguntava se eu ia engarrafar e vender. Eu, ciumento até da luz que a fazia ainda mais branca, ria e dizia que não haveria nunca de engarrafar, porque aquele cheiro estaria na nuca dela pra sempre eu haveria de senti-lo pra sempre. Tudo bem que meu 'pra sempre' era curto, mas só porque eu estava prestes a morrer, não por querer me livrar dela ou de todos os cheiros que ela tinha. Ela me dizia que eu tinha também um cheiro bom, um cheiro que não saía com banho ou a falta dele (eu tomava banho com frequência regular, só pra constar). Mas ela continuava a sentir o cheiro, e descobrimos depois de meses de uma convivência difícil e deliciosa que era o cheiro de um perfume que eu já não usava há anos. Pequenas magias. Minha casa tinha o cheiro de remédios e humores fatigados pela manhã, eu morrendo. À tarde a casa tinha cheiro de café e jazz, cheiro de tinta que eu usava pra escrever (eu sou desesperadamente formal e envelhecido, escrevo com caneta tinteiro), além do cheiro dela, um cheiro suave e marcante, que me fazia buscar seu pescoço de momento em momento. À noite a casa tinha cheiro de álcool costumeiramente, mas Clara era mundana e queria rua, sempre rua. Então eu a deixava, com o coração em um aperto só, fechando as janelas pra tentar prender o cheiro dela comigo. Às vezes eu me sufocava com o cheiro dela que era bom e se misturava aos meus que eram horríveis e corria pra beira do mar, tentando captar o cheiro de sal, e por vezes sentia junto com ele o cheiro de peixe podre do mercado ali no final da Copacana, sentia o cheiro das putas do calçadão, o cheiro de batata frita dos quiosques da orla, até cheiro de água de coco eu sentia. Todos aqueles cheiros. Voltava pra casa cansado como se tivesse corrido uma maratona e voltava a me sufocar com o cheiro dos remédios e com o cheiro da senhora dona morte que já caminhava ali perto à essa época. E um dia, um desses dias em que deixei Clara ser mundana, ela saiu e não voltou. Levou minha carteira de cigarros e levou o cheiro dela, nunca mais voltou. E enquanto o cheiro dela se esvaía o cheiro da senhora dona morte se acentuava. Ela me sorria, condescente, a senhora dona morte. Mas não, não era a hora. Senti o cheiro das flores brancas nas minhas mãos por alguns meses, alguns poucos, até o dia em que Clara voltou, era uma tarde límpida e ela voltou, branca e bela. Mas tinha um outro cheiro, não era mais o cheiro dela. Senti aquele cheiro novo na nuca dela por uma semana, sem nunca ter conseguido amá-lo. E ela se foi de novo, levando aquele cheiro estranho com ela. Nina me sorriu do espelho, senti o cheiro das flores brancas nas minhas mãos e no sorriso dela, segurei as mãos da senhora dona morte; ela toda cheirava a flores brancas. Flores brancas e mortas.
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O homem no espelho
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Sigo, busco, admito
Ao teu passo repasso
O teu ódio, a tua libido
O ócio e o descompasso
Deus, ópio nosso de cada dia
Que nos leve na leveza do pensamento
Que nos vele na eternidade do firmamento
Que as diferenças lançadas à frente
Sejam tua imagem e semelhança
Tua menina, tua esperança
Admito, busco o caminho
Repasso ao teu passo
A tua libido, o meu ódio
O ópio, meu pequeno paço.
[Escrito por Adaildo Neto e Daniela Andrade]
*
Mas quem é Adaildo Neto? O Neto veio na safra de novos amigos dessas terras acreanas tão distantes. Escreve para os blogs Grito Acreano e Excesso de Dúvidas Frequentes Sobre o Nada, dentre outros. Além de novo amigo da safra, espero que Neto seja também parceiro nesses passeios literários que surgem enquanto bebemos idéias, trocamos cigarros e fumamos cervejas.
Ao teu passo repasso
O teu ódio, a tua libido
O ócio e o descompasso
Deus, ópio nosso de cada dia
Que nos leve na leveza do pensamento
Que nos vele na eternidade do firmamento
Que as diferenças lançadas à frente
Sejam tua imagem e semelhança
Tua menina, tua esperança
Admito, busco o caminho
Repasso ao teu passo
A tua libido, o meu ódio
O ópio, meu pequeno paço.
[Escrito por Adaildo Neto e Daniela Andrade]
*
Mas quem é Adaildo Neto? O Neto veio na safra de novos amigos dessas terras acreanas tão distantes. Escreve para os blogs Grito Acreano e Excesso de Dúvidas Frequentes Sobre o Nada, dentre outros. Além de novo amigo da safra, espero que Neto seja também parceiro nesses passeios literários que surgem enquanto bebemos idéias, trocamos cigarros e fumamos cervejas.
sábado, 14 de junho de 2008
O homem no espelho
Eu sei, é o que todos dizem: histórias de pessoas e espelhos já foram contadas antes, anos e anos antes de mim. Mas esse maldito espelho de última categoria que tenho no meu quarto não conversa comigo, não me leva a outras dimensões e tampouco afirma o óbvio: que existe alguém mais belo que eu. Ele só me mostra diariamente minha degradação física e meus colapsos mentais.
Eu tinha uma esposa. Quer dizer, ela não era bem minha esposa, nunca fomos formalmente casados. Mas eu a conheci aos dezenove, montamos um apartamento aos meus 21 e vivemos juntos por 13 anos, quando eu tive meu primeiro colapso mental e a deixei. Aproximadamente dois anos depois ela morreu, suicídio, a covardia mais corajosa que já vi alguém cometer. Eu já estava doente antes disso e continuo doente agora, agora que se passaram cinco anos da morte dela, e muito embora eu tenha piorado consideravelmente desde que ela se foi, meu corpo sempre se esquece de morrer. Coisa muito agradável de se fazer, por sinal. Desde que ela morreu eu me abracei à minha mortalha e tenho esperado pela Indesejada, que anda me ignorando solenemente.
Nina nasceu pra mim numa noite subterrânea na faculdade. À época eu já parecia doente, tinha um quê de sorumbático que irritava muita gente. Sempre fui uma pessoa grave e silenciosa, tão tímido quanto um ser humano podia ser, e isso parecia meio arrogante às pessoas. Ou seja, eu praticamente não tinha amigos. Cursava Filosofia, era chato e carregava comigo a maior solidão do mundo. Andava pra cima e pra baixo com meu maço de cigarros completamente amassado, um livro velho que de tão lido e relido eu já tinha decorado e o porta-uísque sempre abastecido, que passou do meu avô imediatamente pra mim por ser meu pai um abstêmio convicto e feroz. O livro era Cem Anos de Solidão, em espanhol, uma raridade que encontrei a um preço irrisório num sebo vizinho à minha casa, abandonado como eu. Não tinha lá muito respeito por ele, fazia todo tipo de anotação nas suas páginas e, por nunca deixá-lo na estante, estava todo deteriorado. Mas eu tinha um apego sobre-humano àquele exemplar, como se eu não pudesse andar sem ele. Falava pouco às aulas e, às vezes, sequer atentava para a explicação do professor, absorvido na produção do meu romance, a minha grande obra que nunca consegui concluir na vida, uma das muitas coisas às quais me dediquei e falhei miseravalmente. Ora, nem morrer eu consigo.
Nina, era de Nina que eu falava. Era uma aula de Ética III, uma das matérias mais insuportavelmente enfadonhas de todos os tempos. Metade da sala dormia e a outra metade se concentrava em qualquer coisa que não fosse aquele senhor já idoso lendo o seu plano de aula. Saí da sala sem ser notado – não que fosse uma tarefa assim difícil – e acendi um cigarro no corredor. Sorvi a fumaça como se finalmente voltasse a respirar, tomei um gole do uísque e me sentei no chão pra reler meus apontamentos. Já disse que era uma noite subterrânea, não disse? Sim, a sala era no subsolo da faculdade, e aqueles corredores silenciosos e sombrios estavam sempre à espera de uma anunciação. E ela veio.
“O coração, se pudesse pensar, pararia”
Bernardo Soares. Meu coração parou, assim, mas sem pensar. Alguém ali ou além recitava Bernardo Soares. Me ergui num salto mais ágil do que me sabia capaz e quase caí, olhando ao redor e procurando a voz, ou melhor, a dona dela.
__ Gosta de Pessoa?
Ela estava à minha frente, e parecia que sempre estivera ali, eu é que nunca havia enxergado.
__ Gosto muito de Pessoa. Mas o Bernardo é meu favorito.
__ É, eu reparei – resmunguei sem inteligência.
Era branca de uma brancura absurda, palpável, quase líquida. Meu instinto foi tocá-la, mas não pude, eu já não fazia mais sentido. Mal sabia se ela existia. Contrastando com sua brancura líquida, cabelos lisos de um negrume só, uma escuridão impenetrável.
__ Como é seu nome?
__ Breno.
__ Oi, eu sou a Nina.
Ela sorriu, e eu sorri de volta só porque o sorriso dela me encheu de uma felicidade imbecil. Ela usava um vestido de um amarelo berrante que ofuscava, e quando se aproximou pra me dar um abraço – que só recebi, sem retribuir – causou um choque visual ao se encontrar com a minha blusa preta.
__ Desculpa, mas de onde você saiu?
__ Festinha nas Cênicas. Fui ao banheiro e na volta te vi fumando. Então vim pedir um cigarro.
__ Você faz Cênicas?
__ Não, Desenho Industrial. Você pode me dar um cigarro? O que você estuda?
__ Filosofia.
__ Interessante. Por que não está na festa?
__ Não sou de festas.
Ela esquadrinhou o chão à procura do isqueiro e encontrou meu livro.
__ Um intelectual, é? Sabe, eles também frequentavam festas. Os intelectuais. Bebiam absinto e usavam drogas, essas coisas.
Dei de ombros. Ela riu, superior. Sacudiu o livro com pouquíssimo zelo, quis matá-la. Mas não pude.
__ Gosta de García Márquez, pelo visto.
__ É meu preferido. Esse é o livro da minha vida.
__ Sei. Você carrega consigo a maior solidão do mundo. Eu até gosto dele, sabe? Mas prefiro poesia.
__ Você é passional.
Sorriu novamente, com gosto.
__ É? E de onde você tirou isso?
__ De lugar nenhum. É só uma teoria.
Estava nervoso, incomodado, intimidado e crescentemente envergonhado. Ela tinha um ar insolente que me desnorteava, eu não sabia o que fazer das minhas mãos. Por fim tomei o livro e o isqueiro dela e dei as costas.
__ Onde você vai, Bruno?
__ É Breno. Meu nome é Breno. Vou voltar pra aula.
Ela me puxou pelo braço, sempre sorrindo.
__ Esquece a aula. Vem, vamos nos espalhar por aí.
Passei três dias seguidos na casa dela, vivendo de sexo e brisa, ou seja, um amor desesperado e latente. Eu me apaixonei pela sua loucura. A casa era o exemplo da desordem, o som era alto dia e noite, pessoas iam e vinham a qualquer hora e ela se alimentava de maconha. E mesmo bebendo feito uma lontra selvagem e fumando maconha como quem respira ela quase nunca dormia. Tinha o maior número de amigos que pude imaginar e pintava o tempo todo, andando pela casa em trajes sumários como se estivesse sozinha. Por vezes ela me deixava à deriva e se perdia nas coisas dela que eram só dela e continuariam sendo pelos próximos quinze anos.
Dentro do que conseguimos aceitar como sensato construímos nossa vidinha. Ou melhor, ela construiu sua vida com o resto do mundo, eu construí um castelo inacessível e nos tranquei na torre mais alta. Minha vida era ela. Meu sangue era o dela, meu respirar era o dela. Trabalhava por trabalhar, estudava por estudar, eu vivi Nina em desespero.
Dois anos depois de sua morte eu tive meu segundo colapso mental e larguei o emprego, prestes a me aposentar integralmente por invalidez. Meu pai ficou felicíssimo, claro. Pediu minha interdição e me trancou num hospital em São Paulo para tratamento. Terapia, quimioterapia, eu só queria morrer, mas não podia. Nina morta em mim doía, toda a dor do mundo, toda a solidão do mundo. Após um ano tive o terceiro colapso, me dei alta daquele hospital infernal e me mudei para o Rio de Janeiro. Fumava dois maços de cigarro por dia pra ver se apressava a hora de ir embora e bebia ininterruptamente. Escrevia, virei escritor, fui publicado e lido aqui e ali, foi no terceiro mês de Rio que o espelho apareceu. Só comprei pra me livrar do vendedor, larguei aquela monstruosidade barroca no meu quarto e não lhe dei atenção por uns quatro dias, até me ver refletido nele.
Tive o quarto colapso mental, então. Parei de fumar, reduzi drasticamente a bebida àquele cálice de vinho famigerado dos cardiologistas e tentei fazer uns amigos. Cheguei a viver um pseudo-amor com uma moça branca e bela que hoje me odeia violentamente. Adiei a morte enquanto me foi possível, mas por um motivo qualquer que ainda agora ignoro completamente, pois não havia vontade, não havia apego nenhum à vida. Continuei a amar Nina de um jeito tão doentio e agalopado que me parecia errado não estar com ela.
Hoje, hoje tive meu quinto e último colapso mental, eu acho. Cheguei em casa mais embriagado que uma marmota mutante e vi Nina branca, incrivelmente branca, no espelho. Sem pensar uma vez sequer eu o destruí, juntando seus destroços sobre a cama, e me deitei ao seu lado, todas as pílulas nas mãos ensanguentadas.
“O coração, se pudesse pensar, pararia”. Acho que pára dessa vez.
*
A história de Breno, meu personagem mais longevo, está fragmentada em textos desse blog, e ainda resta uma lacuna, referente ao período que ele viveu com Clara no Rio de Janeiro. Se for do seu interesse, acompanhe sua história, lendo os seguintes textos, nessa ordem: Canção Desesperada, Amores possíveis I e Baixo Rio. Só não se incomode com sua morte. Era uma morte anunciada, como o título de um livro do seu literato preferido.
Eu tinha uma esposa. Quer dizer, ela não era bem minha esposa, nunca fomos formalmente casados. Mas eu a conheci aos dezenove, montamos um apartamento aos meus 21 e vivemos juntos por 13 anos, quando eu tive meu primeiro colapso mental e a deixei. Aproximadamente dois anos depois ela morreu, suicídio, a covardia mais corajosa que já vi alguém cometer. Eu já estava doente antes disso e continuo doente agora, agora que se passaram cinco anos da morte dela, e muito embora eu tenha piorado consideravelmente desde que ela se foi, meu corpo sempre se esquece de morrer. Coisa muito agradável de se fazer, por sinal. Desde que ela morreu eu me abracei à minha mortalha e tenho esperado pela Indesejada, que anda me ignorando solenemente.
Nina nasceu pra mim numa noite subterrânea na faculdade. À época eu já parecia doente, tinha um quê de sorumbático que irritava muita gente. Sempre fui uma pessoa grave e silenciosa, tão tímido quanto um ser humano podia ser, e isso parecia meio arrogante às pessoas. Ou seja, eu praticamente não tinha amigos. Cursava Filosofia, era chato e carregava comigo a maior solidão do mundo. Andava pra cima e pra baixo com meu maço de cigarros completamente amassado, um livro velho que de tão lido e relido eu já tinha decorado e o porta-uísque sempre abastecido, que passou do meu avô imediatamente pra mim por ser meu pai um abstêmio convicto e feroz. O livro era Cem Anos de Solidão, em espanhol, uma raridade que encontrei a um preço irrisório num sebo vizinho à minha casa, abandonado como eu. Não tinha lá muito respeito por ele, fazia todo tipo de anotação nas suas páginas e, por nunca deixá-lo na estante, estava todo deteriorado. Mas eu tinha um apego sobre-humano àquele exemplar, como se eu não pudesse andar sem ele. Falava pouco às aulas e, às vezes, sequer atentava para a explicação do professor, absorvido na produção do meu romance, a minha grande obra que nunca consegui concluir na vida, uma das muitas coisas às quais me dediquei e falhei miseravalmente. Ora, nem morrer eu consigo.
Nina, era de Nina que eu falava. Era uma aula de Ética III, uma das matérias mais insuportavelmente enfadonhas de todos os tempos. Metade da sala dormia e a outra metade se concentrava em qualquer coisa que não fosse aquele senhor já idoso lendo o seu plano de aula. Saí da sala sem ser notado – não que fosse uma tarefa assim difícil – e acendi um cigarro no corredor. Sorvi a fumaça como se finalmente voltasse a respirar, tomei um gole do uísque e me sentei no chão pra reler meus apontamentos. Já disse que era uma noite subterrânea, não disse? Sim, a sala era no subsolo da faculdade, e aqueles corredores silenciosos e sombrios estavam sempre à espera de uma anunciação. E ela veio.
“O coração, se pudesse pensar, pararia”
Bernardo Soares. Meu coração parou, assim, mas sem pensar. Alguém ali ou além recitava Bernardo Soares. Me ergui num salto mais ágil do que me sabia capaz e quase caí, olhando ao redor e procurando a voz, ou melhor, a dona dela.
__ Gosta de Pessoa?
Ela estava à minha frente, e parecia que sempre estivera ali, eu é que nunca havia enxergado.
__ Gosto muito de Pessoa. Mas o Bernardo é meu favorito.
__ É, eu reparei – resmunguei sem inteligência.
Era branca de uma brancura absurda, palpável, quase líquida. Meu instinto foi tocá-la, mas não pude, eu já não fazia mais sentido. Mal sabia se ela existia. Contrastando com sua brancura líquida, cabelos lisos de um negrume só, uma escuridão impenetrável.
__ Como é seu nome?
__ Breno.
__ Oi, eu sou a Nina.
Ela sorriu, e eu sorri de volta só porque o sorriso dela me encheu de uma felicidade imbecil. Ela usava um vestido de um amarelo berrante que ofuscava, e quando se aproximou pra me dar um abraço – que só recebi, sem retribuir – causou um choque visual ao se encontrar com a minha blusa preta.
__ Desculpa, mas de onde você saiu?
__ Festinha nas Cênicas. Fui ao banheiro e na volta te vi fumando. Então vim pedir um cigarro.
__ Você faz Cênicas?
__ Não, Desenho Industrial. Você pode me dar um cigarro? O que você estuda?
__ Filosofia.
__ Interessante. Por que não está na festa?
__ Não sou de festas.
Ela esquadrinhou o chão à procura do isqueiro e encontrou meu livro.
__ Um intelectual, é? Sabe, eles também frequentavam festas. Os intelectuais. Bebiam absinto e usavam drogas, essas coisas.
Dei de ombros. Ela riu, superior. Sacudiu o livro com pouquíssimo zelo, quis matá-la. Mas não pude.
__ Gosta de García Márquez, pelo visto.
__ É meu preferido. Esse é o livro da minha vida.
__ Sei. Você carrega consigo a maior solidão do mundo. Eu até gosto dele, sabe? Mas prefiro poesia.
__ Você é passional.
Sorriu novamente, com gosto.
__ É? E de onde você tirou isso?
__ De lugar nenhum. É só uma teoria.
Estava nervoso, incomodado, intimidado e crescentemente envergonhado. Ela tinha um ar insolente que me desnorteava, eu não sabia o que fazer das minhas mãos. Por fim tomei o livro e o isqueiro dela e dei as costas.
__ Onde você vai, Bruno?
__ É Breno. Meu nome é Breno. Vou voltar pra aula.
Ela me puxou pelo braço, sempre sorrindo.
__ Esquece a aula. Vem, vamos nos espalhar por aí.
Passei três dias seguidos na casa dela, vivendo de sexo e brisa, ou seja, um amor desesperado e latente. Eu me apaixonei pela sua loucura. A casa era o exemplo da desordem, o som era alto dia e noite, pessoas iam e vinham a qualquer hora e ela se alimentava de maconha. E mesmo bebendo feito uma lontra selvagem e fumando maconha como quem respira ela quase nunca dormia. Tinha o maior número de amigos que pude imaginar e pintava o tempo todo, andando pela casa em trajes sumários como se estivesse sozinha. Por vezes ela me deixava à deriva e se perdia nas coisas dela que eram só dela e continuariam sendo pelos próximos quinze anos.
Dentro do que conseguimos aceitar como sensato construímos nossa vidinha. Ou melhor, ela construiu sua vida com o resto do mundo, eu construí um castelo inacessível e nos tranquei na torre mais alta. Minha vida era ela. Meu sangue era o dela, meu respirar era o dela. Trabalhava por trabalhar, estudava por estudar, eu vivi Nina em desespero.
Dois anos depois de sua morte eu tive meu segundo colapso mental e larguei o emprego, prestes a me aposentar integralmente por invalidez. Meu pai ficou felicíssimo, claro. Pediu minha interdição e me trancou num hospital em São Paulo para tratamento. Terapia, quimioterapia, eu só queria morrer, mas não podia. Nina morta em mim doía, toda a dor do mundo, toda a solidão do mundo. Após um ano tive o terceiro colapso, me dei alta daquele hospital infernal e me mudei para o Rio de Janeiro. Fumava dois maços de cigarro por dia pra ver se apressava a hora de ir embora e bebia ininterruptamente. Escrevia, virei escritor, fui publicado e lido aqui e ali, foi no terceiro mês de Rio que o espelho apareceu. Só comprei pra me livrar do vendedor, larguei aquela monstruosidade barroca no meu quarto e não lhe dei atenção por uns quatro dias, até me ver refletido nele.
Tive o quarto colapso mental, então. Parei de fumar, reduzi drasticamente a bebida àquele cálice de vinho famigerado dos cardiologistas e tentei fazer uns amigos. Cheguei a viver um pseudo-amor com uma moça branca e bela que hoje me odeia violentamente. Adiei a morte enquanto me foi possível, mas por um motivo qualquer que ainda agora ignoro completamente, pois não havia vontade, não havia apego nenhum à vida. Continuei a amar Nina de um jeito tão doentio e agalopado que me parecia errado não estar com ela.
Hoje, hoje tive meu quinto e último colapso mental, eu acho. Cheguei em casa mais embriagado que uma marmota mutante e vi Nina branca, incrivelmente branca, no espelho. Sem pensar uma vez sequer eu o destruí, juntando seus destroços sobre a cama, e me deitei ao seu lado, todas as pílulas nas mãos ensanguentadas.
“O coração, se pudesse pensar, pararia”. Acho que pára dessa vez.
*
A história de Breno, meu personagem mais longevo, está fragmentada em textos desse blog, e ainda resta uma lacuna, referente ao período que ele viveu com Clara no Rio de Janeiro. Se for do seu interesse, acompanhe sua história, lendo os seguintes textos, nessa ordem: Canção Desesperada, Amores possíveis I e Baixo Rio. Só não se incomode com sua morte. Era uma morte anunciada, como o título de um livro do seu literato preferido.
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segunda-feira, 2 de junho de 2008
Amores possíveis II - Lígia e Bárbara
Então o plano.
Não, não havia plano. Era só estímulo, manifestação, sopro, indo em todas as direções, num caminhar descontínuo e sem limite. E havia a esperança, todas as esperanças unidas no desejo latente de matar a sede. A fome. Tudo que consome e cega. E consumida e cega eu ia, faminta dos gostos dela, desconhecidos e cravados na minha pele, minha língua, meu suor que banhava a cama noite após noite. E noite após noite meus dedos a transformavam em vítima e cúmplice desse crime ensopado, e a cada amanhecer de cada dia eu era ela, ainda que ignorando por completo seu nome. E andava nos seus passos por não encontrar meus sapatos ou o que tivesse valia, eu ia.
Então a forma.
E havia um dia de luz, uma luz clara de fechar olhos. E de olhos fechados eu ia até cruzar com ela, num único respirar do universo. Todos os meus poros se abriram como que para absorver o perfume que ela exalava impunemente, e naquele momento de luz e dor eu fui dela, e continuei sendo dela, todos os dias em que eu refazia aquele caminho pra cruzar com o olhar dela, esperando que de olhos abertos ela caminhasse e pudesse me ver, mendiga dos carinhos dela. E a segui, e os dias em que ela não caminhava pela nossa estrada de tijolos eram longos e vazios, daquela espera silenciosa e voraz pelo dia seguinte. Eu ia.
Então o espelho.
O espelho me julgava e me mentia todos os dias, porque eu contrariava a natureza por desejar aquela criatura e por saber que o sexo dela era o mesmo do meu. E não só o espelho como o dia, a noite, a chuva e todos os olhares me julgavam por esse desejo errado porém latente e de uma verdade tão absoluta quanto absoluta era a equidade entre o sexo meu e o sexo dela. Mas contrariando qualquer julgamento eu continuava a esperar, e cada vez mais sedenta do sexo dela igual ao meu junto ao meu eu ia.
E de ir acabei cegando pro que devia ter visto, e devo ter cruzado com ela em vários outros caminhos, mas a esperava sempre no lugar que julgava nosso, por tê-la visto lá a primeira vez. E não vi caminhos outros e não vi mais a ela e a mais nada. Apenas ceguei.
Então a visão.
Ela veio caminhando por um caminho novo, num dia sem luz de fechar olhos, num dia de se caminhar seguramente por um caminho que se vê, se conhece e se deseja. Ela veio. Eu não pude ir até ela porque não sabia se ainda podia andar, eu apenas esperei. Ela veio.
E começou a falar.
Não, não havia plano. Era só estímulo, manifestação, sopro, indo em todas as direções, num caminhar descontínuo e sem limite. E havia a esperança, todas as esperanças unidas no desejo latente de matar a sede. A fome. Tudo que consome e cega. E consumida e cega eu ia, faminta dos gostos dela, desconhecidos e cravados na minha pele, minha língua, meu suor que banhava a cama noite após noite. E noite após noite meus dedos a transformavam em vítima e cúmplice desse crime ensopado, e a cada amanhecer de cada dia eu era ela, ainda que ignorando por completo seu nome. E andava nos seus passos por não encontrar meus sapatos ou o que tivesse valia, eu ia.
Então a forma.
E havia um dia de luz, uma luz clara de fechar olhos. E de olhos fechados eu ia até cruzar com ela, num único respirar do universo. Todos os meus poros se abriram como que para absorver o perfume que ela exalava impunemente, e naquele momento de luz e dor eu fui dela, e continuei sendo dela, todos os dias em que eu refazia aquele caminho pra cruzar com o olhar dela, esperando que de olhos abertos ela caminhasse e pudesse me ver, mendiga dos carinhos dela. E a segui, e os dias em que ela não caminhava pela nossa estrada de tijolos eram longos e vazios, daquela espera silenciosa e voraz pelo dia seguinte. Eu ia.
Então o espelho.
O espelho me julgava e me mentia todos os dias, porque eu contrariava a natureza por desejar aquela criatura e por saber que o sexo dela era o mesmo do meu. E não só o espelho como o dia, a noite, a chuva e todos os olhares me julgavam por esse desejo errado porém latente e de uma verdade tão absoluta quanto absoluta era a equidade entre o sexo meu e o sexo dela. Mas contrariando qualquer julgamento eu continuava a esperar, e cada vez mais sedenta do sexo dela igual ao meu junto ao meu eu ia.
E de ir acabei cegando pro que devia ter visto, e devo ter cruzado com ela em vários outros caminhos, mas a esperava sempre no lugar que julgava nosso, por tê-la visto lá a primeira vez. E não vi caminhos outros e não vi mais a ela e a mais nada. Apenas ceguei.
Então a visão.
Ela veio caminhando por um caminho novo, num dia sem luz de fechar olhos, num dia de se caminhar seguramente por um caminho que se vê, se conhece e se deseja. Ela veio. Eu não pude ir até ela porque não sabia se ainda podia andar, eu apenas esperei. Ela veio.
E começou a falar.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Prato frio
Eu até poderia fingir que nunca doeu. Que nunca feriu. Eu podia fingir todas as coisas pra você, de fato poderia, e até quis por muito tempo. Aliás, penso que consegui por muito tempo, pois ainda ferido você tornava a me ferir. E não havia em meus atos ou palavras sinal nenhum de que tuas malignidades arrancavam lentamente, de uma lentidão suave e cruel, todos os amores que senti por ti e parti em milhares de pedaços, esperando em vão que de mim nunca saíssem. Mas estava em meu olhar o tempo todo, aquele desespero silencioso de quem vê a chaga mas não pode curá-la. Ou talvez não queira, na esperança de que outro, no caso a mulher amada, o faça. E é incrível olhar para trás agora, abrindo violentamente a cortina do tempo, e ver as chagas de anteontem ainda abertas. E somente te vendo agora, nua e sem vida, é que volto a me sentir vivo, como se milagrosamente eu voltasse a respirar, após um período longo e obscuro com a cabeça dentro d'água. E todas as palavras que eu quis um dia te dizer me vêm com facilidade tamanha, como se eu tirasse a mordaça que me censurou por todos esses anos. Posso até ver com clareza os seus erros, e consigo facilmente elencá-los em grau de maldade e violência. Eu estive cego durante anos, anos a fio em que você esteve a me trair, a mentir, a enganar, a sugar. Eu estive mudo durante todo esse casamento que você conseguiu, com sua fleuma de negociante, transformar em um arranjo, num jogo de interesses tão mesquinho quanto você mesma. Porém me veio a anunciação, minha cara, aquilo que chamamos precariamente e sem fé de Divina Providência. E nesta noite argentina não vou te deitar à minha cama, hei de te deixar banhada em sangue. E sairei, e rodarei, e viverei. E quanto eu voltar tu ainda estarás à minha espera, ainda nua e banhada em sangue, e como nunca silenciosa e devota.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Wishlist
E daí que casar não está nos meus planos, não mesmo. Ter um filho até, quem sabe, um Lorenzo. É, sou brega, não há remédio pra isso, já procurei na farmácia. Mas isso de ter um filho é sazonal e depende do estado dos meus nervos, então eu mudo de idéia toda vez que muda a Lua, e ainda bem que tomo pílula e todo o resto, senão o que eu ia fazer com o Lorenzo na época de não querê-lo? Oh, drogas. Também não pretendo passar o resto da vida num emprego só, mas isso não é o que todo mundo diz, o papo de promoção e progressão funcional ou trabalhar com qualquer coisa até o dia glorioso em que vou trabalhar com o que quero (tipos ser lanterneiro até conseguir chegar à Procuradoria Federal). Não. Mesmo se eu trabalhasse com o que amo desesperadamente - que no momento é aquele ser humano que toca bateria e trança o cabelo do jeito mais charmoso ever - eu ia querer trabalhar com outra coisa alguma hora da vida. E nem é por ser versátil, porque não o sou, ou por ser multifacetada, porque não gosto dessas frescuras. A questão é que me desapaixono por tudo de uma maneira tão rápida e indolor que às vezes dói, como diria o CaioF, 'lateja louca nos dias de chuva'. E a sensação de vazio me enche de tanta angústia que me perco nas coisas que nunca foram minhas, então preciso ter tudo, ora, isso não faz sentido. E também quero viajar muito e para muitos lugares, mas os locais mais não-convencionais possíveis, tipos todo mundo quer ir pra Nova Iorque só pra comprar aquela blusa idiota do I S2 NY, tudo bem soar clichê, todo mundo é clichê, mas tem o clichê charmoso, tipos eu quero a Europa, super clichê a Europa, mas não Paris e Londres e essas baboseiras que todo mundo faz. Quero a Espanha, o leste europeu, a parte mais dourada e menos cinzenta do Viejo Mondo, quero a vodca da Polônia e não da Rússia. E da Ásia prefiro a Indonésia à China, todo mundo vai pra China, todo mundo quer a China, é muita bicicleta amontoada, chega perco o ar. Nova Zelândia tá na moda, mas eu até queria, nem tanto pelos cangurus, ai, canguru é na Austrália, na Nova Zelândia é aquele pato-peixe, não é isso? Sei não. E além de viajar e não-casar e ter vários empregos vida afora, também quero ter muitos cachorros, nada de gatos, odeio gatos, mas quero ter muitos cachorros. Juro que não vou carregá-los em fakes da LuíVitón pra cima e pra baixo nem vou levá-los a DogSpas, vou deixar os bichinhos serem cachorros felizes, podem se sujar de lama e enterrar ossinhos (embora eu não acredite verdadeiramente nessa história de enterrar ossos). Enfim, eles poderão agir feito cachorros e estará tudo lindo, tudo na mais perfeita (des)ordem. E seus nomes serão coisas do tipo Zeca, Chico, Madalena, nada de Max ou Fox ou Scott ou Beethoven (se bem que um podia se chamar Wagner, de preferência o labrador de pelo negro, Wagner fica lindo). Enfim. E depois de ter vários cachorros e depois de viajar e depois de trabalhar com tudo que eu puder e depois de tudo mesmo eu queria aprender a operar um trator. Ou pilotar, ou dirigir, ou o que seja que alguém faz pra colocar o trator em movimento. Eu queria colocar um trator em movimento, com aqueles fones horrivelmente grandes no ouvido. Mas queria colocar um trator em movimento em uma avenida movimentada, tipos a Paulista às seis da tarde. Mas aí ele não ficaria em movimento, então esquece a Paulista. Não sei aonde, sei que tudo que ando querendo por agora é operar um trator. E não, pseudo-psicanalista-de-merda, isso não é um desejo reprimido, é o que é, vontade de operar um trator e pronto. Quem sabe até carregar uns tijolos pra lá e pra cá e depois tomar um café requentado. Mas é isso, por ora. Operar um trator e depois beber com os meus amigos e contar pra eles como é operar um trator, eles nunca fizeram nada parecido e vão ter inveja master. E quem sabe depois da vontade de operar trator venham vontades outras, também não-convencionais, tipos morar num iglu só pra ver se faz frio mesmo, e ver até onde suporto neve, porque eu acho neve o máximo, mas será que eu suportaria ver neve todos os dias por toda a minha vida? Não, eu não suportaria, cancela o iglu, cancela a neve. Quem sabe uma sociedade alternativa, cogu e visu da natu na cachu. Por uns três meses. Hahahahaha.
Pensando bem, pensando bem mesmo, ainda bem que essa vontade de ter Lorenzo vem e passa rápido, não sei se eu teria coragem de operar um trator sendo mãe. É isso, cancela o filho, fico com o trator.
Pensando bem, pensando bem mesmo, ainda bem que essa vontade de ter Lorenzo vem e passa rápido, não sei se eu teria coragem de operar um trator sendo mãe. É isso, cancela o filho, fico com o trator.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Amores Possíveis I - Breno e Clara
* Do processo de conhecimento
Início de tarde, final de outono, Leblon, Rio de Janeiro. Clara rodava à toa pelo shopping com umas amigas, perdida de uma perdição muito menos mundana e cheia de humanidade, quando se deparou com o cartaz na livraria que anunciava o lançamento da mais recente publicação de Breno Cavalcante, "Ao piano". Divisou o literato sentado - sozinho/solitário/abandonado - através da vitrine e encheu-se de uma histeria adolescente.
__ É verdade que o Breno Cavalcante tá lançando o livro dele aquihojeagora?
__ Sim, senhora.
__ E ele está autografando?
__ Exatamente, senhora.
__ Me vê um exemplar. Agora.
Com seu exemplar em mãos, Clara caminhou insegura até a mesa onde o escritor estava - entediado/desligado/desamado.
__ Boa tarde.
__ Oi.
Ele sorriu com um esforço sobre-humano, ainda assim lhe faltando humanidade.
__ O sr. é meu escritor preferido.
__ Que tragédia. Sinto muito por isso. Mas, por favor, não me chame de senhor.
__ Ah, perdão. Será que você pode autografar meu exemplar?
__ Claro. Já leu?
__ Ainda não, acabei de comprar.
__ Se acaso eu autografá-lo, vai valer menos ainda quando você tentar se livrar dele.
Clara sorriu, em êxtase.
__ Isso não vai acontecer, sabe? Leio "O homem no espelho" pelo menos uma vez por mês. Amo o seu trabalho, de verdade. Dos escritores da nova geração, é com quem mais me identifico.
__ Não sou um escritor da nova geração. Conta comigo: tenho a alma envelhecida, me falta espírito aventureiro e nunca usei drogas. Eu não me encaixo.
__ Não faz diferença. Continua sendo o meu preferido.
__ Nem me preocupo. Você é jovem, há tempo pra mudar. O livro?
__ Aqui está.
__ Seu nome?
__ Clara. Clara Monteiro. Eu também escrevo.
__ Mesmo? Alguma publicação?
__ Ainda não. Encaminhei uns originais para algumas editoras mas ainda não obtive resposta.
__ Essas cousas tomam tempo. Pronto, aqui está seu livro devidamente autografado. Caso não consiga vendê-lo, dá um excelente peso de papel.
Ele sorriu novamente, agora com um pouco mais de humanidade. Um desavisado poderia até jurar ter sentido um certo tipo de calor, tímido porém vivo.
Clara tomou seu exemplar com carinho e delicadeza tão extremos que chegavam a ser palpáveis. Retribuiu o sorriso de Breno com um calor incandescente que lhe subia a nuca e quase cegava.
__ Posso te convidar pra um café?
__ Clara, Clara, não se arrisque. Sou uma companhia desagradabilíssima.
__ Me deixe ao menos tentar. Assumo o risco.
Ele não sorriu, apenas aquiesceu com a cabeça, usando de uma gravidade que derramava charme impunemente. Clara mal conseguia esconder sua excitação ensopada quando dispensou as amigas sem maiores explicações, usando apenas um "vamos tomar um café!!!!" desesperado.
Ela voltou à livraria e se sentou a um canto para ler seu exemplar autografado, mas não pôde se concentrar na leitura por não conseguir tirar os olhos dele. E assim foi durante toda a tarde movimentada. Já passava das seis quando ele se levantou - cansado/desimportado/desempolgado - e se dirigiu até ela.
__ Vamos. Hora da tortura atípica.
* Da leitura - Café, cigarro e sal.
__ Preliminarmente: sou um cara verdadeiramente enfadonho, portanto durma ou fuja se lhe der vontade. Justamente por ser miseravelmente enfadonho é que quase nunca me ofendo. E muito embora seja lisonjeiro me ter em seu rol da fama, não me agrada falar dos meus livros, soa deveras presunçoso. Podemos conversar amenidades, caso as minhas a interessem, sou ameno da forma menos empolgante possível.
__ Não custa deixar acontecer, vejamos até onde vai. Podemos começar com o óbvio?
__ Tentemos.
__ Ainda mora em Brasília?
__ Não. Passei dois anos em São Paulo, tratamento, sabe como é. Me dei alta e mudei para o Rio, porque odeio o sol mas amo a praia, então escolhi morrer junto ao mar. E vim parar no Leblon porque sou tão clichê que chega a doer. E você?
__ Sou nascida no interior do Rio, Resende. Vim pra capital aos dezoito, ou seja, há seis anos. Moro em Ipanema, morei um tempo na Lapa mas estava me tornando alcoólatra. Em Ipanema não é assim tão diferente, mas quando fico bêbada pelas calçadas os garçons do Garota dão aquela força.
__ E você tem sido feliz aqui?
__ Quase o tempo todo. Não dá pra ser infeliz no Rio, não de verdade, especialmente nessa época do ano. O outono aqui é mais bonito que em outros lugares.
Breno sorriu com tanta humanidade que até o dia se deu por satisfeito.
__ É bom ouvir isso de outra pessoa. E em voz alta.
__ E você? Tem sido feliz aqui?
__ Ah, não. Sou uma pessoa infelicíssima, sabe? O que não me impede de apreciar a beleza das coisas, em absoluto. Mas de um jeito meio mórbido. Ao invés de ver o tom dourado que todo mundo diz que o Rio tem, especialmente nessa época do ano, costumo observar como as noites são mais negras e menos estreladas. Sou um caso perdido, Clara.
Ela também sorriu, e seu calor já abrasava os passantes, era visível, límpido, brilhante.
__ Podemos comprar nosso café e caminhar até a praia, assim ficamos junto ao mar e ainda podemos fumar, inclusive. Você fuma, não é?
__ Parei há algum tempo. Mas não me incomoda.
__ Então você realmente tem câncer?
__ Realmente tenho câncer.
Clara mordeu o lábio. Cruzamento/entroncamento/encruzilhada.
__ Então Nina realmente existiu. Não é errado pensar assim, é?
__ Não, não é errado.
O calor de Breno se dissipou rapidamente, dando lugar mais uma vez àquela gravidade sombria que, embora ainda charmosa, começava a assustar.
__ Não precisamos falar disso.
__ Não há o que falar. Nina nasceu, cresceu, viveu e morreu em mim. Fim.
__ Ela se matou.
__ Não. Ela só morreu.
__ Me desculpe.
__ Não carece de desculpa. Vamos. Nosso café, seu e pseudo-meu cigarro. Depois se aparam as arestas.
* A possibilidade de amor
__ Sempre amei escrever. Mas era tudo tão pessoal, nunca tinha imaginado a possibilidade de me publicar antes. Não me vejo como escritora profissional porque é tudo tão exorcismo, sabe como? E não me é fácil, por Deus, nunca foi, sempre teve sangue jorrando.
__ Gosto das suas metáforas. Emprego forte e certeiro. Você deve ser uma mulher difícil, Clara. Encantadora, mas de um jeito difícil.
__ Obrigada. Sempre me achei bem simples, na verdade. Muita paixão, muito sentimento, muita verdade, muito suor.
__ E eu aprecio tudo isso. Talvez por nunca ter sido assim.
__ Não consigo acreditar nisso. Se seus personagens são mesmo cópias suas, são cheios de paixão.
__ E medo.
__ Normal. Sinal que há um coração pulsando.
Ele a olhou com uma profundidade quase radiográfica, sentindo no peito a alteração do pulsar das obviedades. Era isso, o que Caio Fernando chamava de possibilidade de amor. Era estar com ela à beira do mar, café numa mão, cigarro na outra - depois de quanto tempo? matando aquilo que o matava suavemente. E aquela coisa de possibilidade de amor, depois de quantos anos? Depois de tanta solidão - mastigada/revolvida/regurgitada -, cá estava ele vislumbrando uma possibilidade rica e serena.
__ Sabe. Deu vontade de escrever agora.
__ Sério? Deve ser de um prazer imenso acompanhar teu processo de criação.
__ Nada tão fantástico. Quer escrever comigo?
__ Não, não poderia. Jamais. Querer eu quero, claro, mas não poderia.
__ Eu quero. Você quer. Vamos escrever juntos. Podemos caminhar até a minha casa.
__ Ou a minha.
__ E tomar mais um café.
__ Ou um vinho.
__ E podemos ouvir um jazz.
__ Ou bossa nova.
__ Suas sugestões vencem as minhas, fácil.
__ E daí podemos, com vinho e bossa nova, escrever.
__ E todas as outras cousas que poderemos. Se quisermos.
__ Eu quero.
__ Então vamos. Hora da tortura atípica, parte II.
Início de tarde, final de outono, Leblon, Rio de Janeiro. Clara rodava à toa pelo shopping com umas amigas, perdida de uma perdição muito menos mundana e cheia de humanidade, quando se deparou com o cartaz na livraria que anunciava o lançamento da mais recente publicação de Breno Cavalcante, "Ao piano". Divisou o literato sentado - sozinho/solitário/abandonado - através da vitrine e encheu-se de uma histeria adolescente.
__ É verdade que o Breno Cavalcante tá lançando o livro dele aquihojeagora?
__ Sim, senhora.
__ E ele está autografando?
__ Exatamente, senhora.
__ Me vê um exemplar. Agora.
Com seu exemplar em mãos, Clara caminhou insegura até a mesa onde o escritor estava - entediado/desligado/desamado.
__ Boa tarde.
__ Oi.
Ele sorriu com um esforço sobre-humano, ainda assim lhe faltando humanidade.
__ O sr. é meu escritor preferido.
__ Que tragédia. Sinto muito por isso. Mas, por favor, não me chame de senhor.
__ Ah, perdão. Será que você pode autografar meu exemplar?
__ Claro. Já leu?
__ Ainda não, acabei de comprar.
__ Se acaso eu autografá-lo, vai valer menos ainda quando você tentar se livrar dele.
Clara sorriu, em êxtase.
__ Isso não vai acontecer, sabe? Leio "O homem no espelho" pelo menos uma vez por mês. Amo o seu trabalho, de verdade. Dos escritores da nova geração, é com quem mais me identifico.
__ Não sou um escritor da nova geração. Conta comigo: tenho a alma envelhecida, me falta espírito aventureiro e nunca usei drogas. Eu não me encaixo.
__ Não faz diferença. Continua sendo o meu preferido.
__ Nem me preocupo. Você é jovem, há tempo pra mudar. O livro?
__ Aqui está.
__ Seu nome?
__ Clara. Clara Monteiro. Eu também escrevo.
__ Mesmo? Alguma publicação?
__ Ainda não. Encaminhei uns originais para algumas editoras mas ainda não obtive resposta.
__ Essas cousas tomam tempo. Pronto, aqui está seu livro devidamente autografado. Caso não consiga vendê-lo, dá um excelente peso de papel.
Ele sorriu novamente, agora com um pouco mais de humanidade. Um desavisado poderia até jurar ter sentido um certo tipo de calor, tímido porém vivo.
Clara tomou seu exemplar com carinho e delicadeza tão extremos que chegavam a ser palpáveis. Retribuiu o sorriso de Breno com um calor incandescente que lhe subia a nuca e quase cegava.
__ Posso te convidar pra um café?
__ Clara, Clara, não se arrisque. Sou uma companhia desagradabilíssima.
__ Me deixe ao menos tentar. Assumo o risco.
Ele não sorriu, apenas aquiesceu com a cabeça, usando de uma gravidade que derramava charme impunemente. Clara mal conseguia esconder sua excitação ensopada quando dispensou as amigas sem maiores explicações, usando apenas um "vamos tomar um café!!!!" desesperado.
Ela voltou à livraria e se sentou a um canto para ler seu exemplar autografado, mas não pôde se concentrar na leitura por não conseguir tirar os olhos dele. E assim foi durante toda a tarde movimentada. Já passava das seis quando ele se levantou - cansado/desimportado/desempolgado - e se dirigiu até ela.
__ Vamos. Hora da tortura atípica.
* Da leitura - Café, cigarro e sal.
__ Preliminarmente: sou um cara verdadeiramente enfadonho, portanto durma ou fuja se lhe der vontade. Justamente por ser miseravelmente enfadonho é que quase nunca me ofendo. E muito embora seja lisonjeiro me ter em seu rol da fama, não me agrada falar dos meus livros, soa deveras presunçoso. Podemos conversar amenidades, caso as minhas a interessem, sou ameno da forma menos empolgante possível.
__ Não custa deixar acontecer, vejamos até onde vai. Podemos começar com o óbvio?
__ Tentemos.
__ Ainda mora em Brasília?
__ Não. Passei dois anos em São Paulo, tratamento, sabe como é. Me dei alta e mudei para o Rio, porque odeio o sol mas amo a praia, então escolhi morrer junto ao mar. E vim parar no Leblon porque sou tão clichê que chega a doer. E você?
__ Sou nascida no interior do Rio, Resende. Vim pra capital aos dezoito, ou seja, há seis anos. Moro em Ipanema, morei um tempo na Lapa mas estava me tornando alcoólatra. Em Ipanema não é assim tão diferente, mas quando fico bêbada pelas calçadas os garçons do Garota dão aquela força.
__ E você tem sido feliz aqui?
__ Quase o tempo todo. Não dá pra ser infeliz no Rio, não de verdade, especialmente nessa época do ano. O outono aqui é mais bonito que em outros lugares.
Breno sorriu com tanta humanidade que até o dia se deu por satisfeito.
__ É bom ouvir isso de outra pessoa. E em voz alta.
__ E você? Tem sido feliz aqui?
__ Ah, não. Sou uma pessoa infelicíssima, sabe? O que não me impede de apreciar a beleza das coisas, em absoluto. Mas de um jeito meio mórbido. Ao invés de ver o tom dourado que todo mundo diz que o Rio tem, especialmente nessa época do ano, costumo observar como as noites são mais negras e menos estreladas. Sou um caso perdido, Clara.
Ela também sorriu, e seu calor já abrasava os passantes, era visível, límpido, brilhante.
__ Podemos comprar nosso café e caminhar até a praia, assim ficamos junto ao mar e ainda podemos fumar, inclusive. Você fuma, não é?
__ Parei há algum tempo. Mas não me incomoda.
__ Então você realmente tem câncer?
__ Realmente tenho câncer.
Clara mordeu o lábio. Cruzamento/entroncamento/encruzilhada.
__ Então Nina realmente existiu. Não é errado pensar assim, é?
__ Não, não é errado.
O calor de Breno se dissipou rapidamente, dando lugar mais uma vez àquela gravidade sombria que, embora ainda charmosa, começava a assustar.
__ Não precisamos falar disso.
__ Não há o que falar. Nina nasceu, cresceu, viveu e morreu em mim. Fim.
__ Ela se matou.
__ Não. Ela só morreu.
__ Me desculpe.
__ Não carece de desculpa. Vamos. Nosso café, seu e pseudo-meu cigarro. Depois se aparam as arestas.
* A possibilidade de amor
__ Sempre amei escrever. Mas era tudo tão pessoal, nunca tinha imaginado a possibilidade de me publicar antes. Não me vejo como escritora profissional porque é tudo tão exorcismo, sabe como? E não me é fácil, por Deus, nunca foi, sempre teve sangue jorrando.
__ Gosto das suas metáforas. Emprego forte e certeiro. Você deve ser uma mulher difícil, Clara. Encantadora, mas de um jeito difícil.
__ Obrigada. Sempre me achei bem simples, na verdade. Muita paixão, muito sentimento, muita verdade, muito suor.
__ E eu aprecio tudo isso. Talvez por nunca ter sido assim.
__ Não consigo acreditar nisso. Se seus personagens são mesmo cópias suas, são cheios de paixão.
__ E medo.
__ Normal. Sinal que há um coração pulsando.
Ele a olhou com uma profundidade quase radiográfica, sentindo no peito a alteração do pulsar das obviedades. Era isso, o que Caio Fernando chamava de possibilidade de amor. Era estar com ela à beira do mar, café numa mão, cigarro na outra - depois de quanto tempo? matando aquilo que o matava suavemente. E aquela coisa de possibilidade de amor, depois de quantos anos? Depois de tanta solidão - mastigada/revolvida/regurgitada -, cá estava ele vislumbrando uma possibilidade rica e serena.
__ Sabe. Deu vontade de escrever agora.
__ Sério? Deve ser de um prazer imenso acompanhar teu processo de criação.
__ Nada tão fantástico. Quer escrever comigo?
__ Não, não poderia. Jamais. Querer eu quero, claro, mas não poderia.
__ Eu quero. Você quer. Vamos escrever juntos. Podemos caminhar até a minha casa.
__ Ou a minha.
__ E tomar mais um café.
__ Ou um vinho.
__ E podemos ouvir um jazz.
__ Ou bossa nova.
__ Suas sugestões vencem as minhas, fácil.
__ E daí podemos, com vinho e bossa nova, escrever.
__ E todas as outras cousas que poderemos. Se quisermos.
__ Eu quero.
__ Então vamos. Hora da tortura atípica, parte II.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Descoberta, ou A constatação da dúvida.
"Eu já sabia", eu disse a ela, a constatação lacrimosa de uma dor infinda que eu realmente já previa, como uma dessas previsibilidades mais banais que a gente só não enxerga por ainda acreditar em algo. "Não tinha como saber", ela tentou me demover dessa certeza dolorida e sangrenta, como fazem os bons amigos, tentando negar o óbvio. E todas as desculpas que eu sabia que ela daria por ser amiga dele, e todas as tentativas de amenizar o crime, por ser minha amiga. "Não se desculpe por ele", eu pedi, já sabendo que viria uma explicação que não explicaria nada. Nem da parte dela e muito menos da parte dele. E depois eu me senti mal por colocá-la na linha de tiro, entre minha dor e a culpa dele, amiga que era dos dois. Mas não havia outro jeito, porque da minha solidão ela havia tomado conta e não me deixaria desfrutá-la, não da forma ideal, aquela coisa de cigarro e silêncio e solidão, mezzo deprê mezzo "tenho pena de mim mesma". Mas eu queria fazê-la entender que eu já sabia, desde o início dos tempos, que eu sabia que ele me macularia, me lanharia, e que se isso ocorreu foi tão somente por negligência minha, porque eu quis me negacear, por acolher essa oportunidade de amor com pouquíssimo zelo. Mas eu sabia que a grata surpresa haveria de ser ingrata criatura mais cedo ou mais tarde, e saber disso já fazia com que metade do caminho para a cura chegasse mais rápido e até com menos dor. E depois eu ligaria pra ele assim como quem não quer nada, como fiz no dia seguinte, na esperança de que ele colhesse a decepção na minha voz e fizesse algo, qualquer coisa, pra consertar o erro, pra fechar o buraco de bala que ele abriu no meu peito. E talvez ele tenha até percebido, mas esconde tudo tão bem e de maneira tão competente que não demonstra nada, nunca. Então não há certeza de que ele também sentiu o reflexo de ter agido como estúpido e de ter-me feito agir feito estúpida nesses últimos dois meses. E dias depois ela, a amiga de ambos, viria conversar comigo pra saber se eu havia conversado com ele, se as coisas já estavam resolvidas, como se muito pouco ou até mesmo nada tivesse acontecido, e eu sorriria com amargura e afirmaria com uma convicção tamanha que ele não vai me procurar, eu sei disso, eu sei de tudo com relação a nós dois porque conheço a nós dois como desconheço a todo o resto. "Ele vai te procurar", ela afirma com uma segurança precária. E eu volto a sorrir com amargura, saudosa da minha solidão, até penso em alugar um quarto num hotel durante um final de semana só pra me ver sozinha, pensando, como fiz daquela vez em que fui pra Goiânia pra fazer nada, só pensar. "Não adianta, eu sei como tudo acaba, eu sei quando e onde acaba. Sei que ele não vem conversar, mas sei que não conseguirei negar, então vamos nos lanhando como gato e rato, até o momento em que um dos dois não tiver mais sangue pra derramar. E esse que terá a hemorragia parcamente estancada será eu. Eu sei". "Não tem como saber disso", ela ainda tentará repetir. "Tem sim. Eu sei. Eu nunca me engano".
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Futuro pretérito
E se eu tivesse coragem, te chamaria pra ver o filme que milagrosamente está em cartaz na sala de cinema fria. E compraríamos pipocas e cocacola e até ficaríamos meio sem jeito no início, mas depois as coisas tenderiam a se acertar e estaríamos de novo à vontade, como é de costume. E depois caminharíamos até um bar, ou uma sorveteria, ou um lanche (como diz o pessoal daqui) conversando sobre o filme, nossas impressões sobre o roteiro, a fotografia, a direção, quase sempre deixando a atuação de lado, fora de foco, porque somos assim e realmente temos isso em comum. E durante a caminhada iríamos vislumbrando mais e mais quanto de cada um tem no outro, e sentiríamos aquela ânsia na boca do estômago, ainda sem saber se boa ou ruim, sabendo apenas que é ânsia e se é ânsia tem uma razão de existir, talvez oculta ou clara demais, mas sempre a ponto de cegar. E depois de umas cervejas e uns cigarros a conversa já estaria solta e falaríamos sobre projetos e música e cinema e sentimentalidades e todos os assuntos sobre os quais costumamos conversar quando somos somente nós, deixando os outros nós e todos os outros seres viventes em suspenso, à deriva. E novamente a sensação incômoda de espelho, assim como tenho com ela e você deve ter com mais alguém, e novamente a sensação de medo de estar se mostrando a alguém que, embora grata surpresa, é um ilustre desconhecido. E ao chegar em casa, na sua ou na minha, iríamos sorrir daquele jeito que as pessoas sorriem quando estão sem-graça e tentando disfarçar o quanto aquela situação, por mais constrangedora que seja, é exatamente a situação que você esperava. E quase como num romance você me beijaria devagar, relembrando meu gosto, e me apertaria contra o peito como se fosse morrer se me soltasse. E eu me faria completamente sua, sem cerimônia, porque não há razão alguma em lutar contra isso, eu acredito nisso, eu me diria isso repetidas vezes em silêncio e no escuro, só a brasa do cigarro por companhia. E por acreditar nisso eu sentiria toda a intensidade do teu toque e conseguiria definir o desenho perfeito da tua língua entre os meus dentes. E você me sorriria e perguntaria, quase num sussurro, que mistério é esse que há entre nós que nos fez tão próximos em tão pouco tempo. E eu te responderia que também ando me perguntando isso, a cabeça irrequieta e o coração pateticamente exposto. E você tentaria fingir que as coisas não são assim, e eu pensaria na ingrata criatura que tu me serás futuramente, e já até sinto o gosto de cinzeiro de tantos cigarros comidos quando você findar por me machucar. Mas àquela hora, àquela hora em que estaríamos somente nós na escuridão quente do teu quarto ou do meu quarto, eu me esqueceria da ingrata criatura que tu me serás e só pensaria na grata surpresa que tu me seria naquele momento de mel e suor. E pensaríamos em todas as coisas que haveriam de ocorrer dali em diante, de como estaríamos mais próximos porém mais distantes quando todos juntos, naquelas noites de cerveja e divertimentos mundanos. E tentaríamos fingir que somos imunes a isso, melhores que isso, somos adultos e maduros, ninguém acreditaria nas ânsias que sentíamos se não disséssemos aos outros. Mas findaríamos por seguir, com medo e possíveis dores, porque haveria essa vontade soberana e inexplicável de nos sentirmos vivos. Porque seríamos esse tipo de gente assim, que sangra pra se sentir vivo. E deixaríamos sangrar.
segunda-feira, 31 de março de 2008
Dois
__ Preciso fazer isso.
__ Não, você não precisa. Deixa.
__ Preciso, como você vai saber se eu preciso ou não? Como, se a lacuna é do meu peito e é da minha veia que jorra e sangra e eu não estanco?
__ Não se leve tão a sério.
__ Me dá dois minutos.
Larguei o telefone e corri até a cozinha, e durante o percurso senti o mal-estar dele me seguindo, silencioso e sombrio. Ele deve me odiar, pensei logo, mas logo repensei e vi que não procedia. Quem ama cuida, já diziam os estúpidos sentimentais, e ele cuidava de mim, desde sempre, lá se vão uns quatro anos de cuidados desperdiçados e nunca retribuídos. Pelo menos não da forma que devia ter sido, da forma que faz sentido, who cares? ele dizia, e eu ria e tornava a me descuidar pra que ele tornasse a me cuidar, e assim prosseguíamos, fingindo um ódio absoluto que só podia ser amor mesmo, mais nada. E como se de mais nada precisássemos íamos vivendo no nosso mundinho de incertezas que forjávamos pra intensificar a vida, um mundinho cada vez mais escuro e frio e mofado de onde não considerávamos a possibilidade de sair não por gostar, mas por temer a luz do sol. E nada de nirvana pra nós. Queríamos beirar o inferno.
__ Pronto. Voltei.
__ Fez o serviço sujo?
__ Escuta, posso te fazer uma pergunta?
__ Ahn.
__ Você gosta de mim?
__ Estou preso a você.
__ Resposta errada, caubói.
__ Você nunca me perguntou isso antes.
__ Você nunca manifestou isso antes.
__ Como é?
__ Hein, como está São Paulo?
__ Cinzenta e fria, como sempre esteve.
__ Tipo Brasília nessa época do ano. Já te disse que Brasília me dá nos nervos? São Paulo também. Odeio São Paulo.
__ Sei.
__ É sério. Se eu pudesse, não ficava nem aí nem aqui. Hein, vamos morar em Minas?
__ E de Nova Iorque, você gosta?
__ São Paulo blaster. Não é pra mim.
__ Escuta, posso te ligar em meia hora?
__ Por quê?
__ Não dá pra falar agora.
__ Tá, tá, eu sei, eu tou fodendo com o teu estilo de vida. É, pode ser, meia hora, vou comprar cigarros então.
__ Deixa o fone no gancho. Eu vou te ligar.
__ Eu te ligo.
__ Mas que coisa chata. Ninguém leva meia hora pra comprar cigarros.
__ Vou atravessar o eixão. Você precisa ver, adrenalina, foda-se montanha russa se você tem o eixão.
__ Como estão seus braços?
__ Pararam de latejar. Hein, vamos tomar umas cervejas? Você bebe daí e eu bebo daqui e ficamos bêbados virtualmente mas em tempo real.
__ Não tou bebendo, você sabe.
__ Ah, é. A coisa pseudo-religiosa.
__ Pra curar a coisa pseudo-depressiva. Nem é Deus, porra, são só remédios.
__ Me liga em meia hora. Vou ficar bêbada sem você, vou ver se arranjo uma puta russa.
__ Isso mata. Não viu o jornal?
__ Viver mata.
Desligamos sem nos despedir, como sempre. Acho que nunca dissemos "tchau", "até logo", essas sentimentalidades potencializadas pela distância. Até mesmo no aeroporto, no dia em que ele foi embora pra São Paulo, não teve despedida. Acho que ele me disse algo do tipo "não morra, te ligo em duas horas" e eu não morri e duas horas depois ele me ligou e "oi, cheguei, odeio São Paulo, comprei cervejas no aeroporto e o hotel é uma bosta" e a ladainha. Desde então passamos metade da vida no telefone, e só ele me liga e só eu ligo pra ele, e a outra metade da vida passamos ou dormindo ou sonhando ou escrevendo ou.
Não tive espírito aventureiro para atravessar o eixão, nada havia do lado de lá. Conveniência e cigarros e puta russa, das mais vagabundas, garrafa de plástico, dez minutos no freezer e fica tudo ok, babe. Dei uma volta na quadra, me balancei no parquinho, a vida era terrivelmente vazia sem ele. Voltei pra casa e tentei adiantar umas revisões, eu precisava fazer aquilo, duas semanas sem dinheiro e eu quase morrendo de inanição, o editor e o escritor e o pai do escritor e o mundo me enchendo o saco por causa de duas dúzias de páginas de puro lixo. Odeio escritores da nova geração, não sabem escrever, mas que merda. Preciso de grana, eu dizia, puta vendida, ele dizia, nem doía mais, não de verdade, dói quando se acredita e eu nunca fui crente em absolutamente nada. Larguei as revisões e andei pela casa, acendendo um cigarro na bundinha do outro, coloquei um CD de Jazz só por causa do silêncio, Chet Baker, e andei e andei e.
__ Mais de meia hora.
__ Eu sei. Precisava terminar uma coisa. Você já está bêbada?
__ Not yet. Puta russa desqualificada ainda no congelador.
__ E o que você fez?
__ Andei e fumei e ouvi e só. E você? Terminou?
__ Aham.
__ Terminou o quê?
__ Meu namoro.
__ Ah, sinto muitíssimo.
__ Eu não.
__ Ela vai ficar bem?
__ Espero que não.
__ Você vai ficar bem?
__ Nunca estive mal de fato. Hein, o que você tem lido?
__ Muita porcaria. Tem um carinha novo que é horrível, comete erros grotescos, Jonas Monteiro o nome do pusilânime. Mas o pai do infeliz tem rios de dinheiro, e hoje em dia a máxima é "pagou, publicou". Sad, but true.
__ Voltei a ler Kerouac, aquele que você tinha me dado e eu nem consegui na época. Difícil, por Deus, que coisa difícil. Mas é bom.
__ Só pelo desafio?
__ Nem. Só é bom.
__ Me dá dois minutos.
__ Esquece os braços.
__ Esqueci. E esqueci também da vodca.
Corri pra cozinha e ele ainda me olhava, sem mal-estar, um divertimento mundano, quem sabe? Eu o conhecia como ninguém, e como ninguém eu assim o desconhecia, com um desapego tão fingido que às vezes feria, mas só às vezes, nas noites de chuva. E de mim ele sabia tudo, gesto decorado, palavra mil vezes dita. E de tão afundados que estávamos naquele amor sem carinho não conseguíamos trazer à tona absolutamente nada que nos fosse externo. E assim todo relacionamento que se iniciava à parte de nós era só uma vírgula, uma lacuna, um parêntese, esperando o nosso ponto final. E sempre findava sem choro nem vela.
__ Por que a gente não casou?
__ Somos amigos. Amigos não se casam.
__ Inimigos se casam?
__ Penso que sim.
__ Mas a gente trepou muito.
__ Putz, nem foi assim tão bom. Quero dizer, não o sexo, o sexo era bom, acho que o fato do sexo ser entre a gente é que não era bom.
__ E por isso a gente não casou?
__ Nem casou, nem renunciou, nem largou, nem ficou, nem viveu, nem.
__ Mas estamos presos um ao outro.
__ Então pra quê casar? Somos perfeitos assim. Eu tenho você, você tem a mim. Sem brigas, sem ciúme, sem posse, sem crime, sem sangue, sem dor.
__ E sexo? Não sente falta do sexo?
__ Casados não trepam. Não com quem se casaram.
__ Perguntei se sente falta do sexo comigo.
__ Não.
__ Não sente?
__ Não foi isso que você perguntou.
__ Não importa. Se um dia você se casar, o que vai dizer de mim à sua mulher?
__ Que você é minha outra parte no mundo.
__ Não sei se é legal de se ouvir.
__ Você não gostou?
__ Falo da sua esposa. Não sei se é o que ela quererá ouvir.
__ Ela vai preferir a mentira, é isso? Isso não deve fazer sentido. Não mesmo.
__ É, é meio surreal.
__ Irreal. Mais e maior.
__ Não acha o nosso relacionamento doentio?
__ Não temos um relacionamento.
__ Claro que temos.
__ Não temos, são só telefonemas. Doentia é a conta que eu pago.
__ E no que você tem trabalhado?
__ Resenhas, críticas, colunas. O mundo underground me adora.
__ E como você consegue chafurdar nisso de cara limpa? É terrível.
__ Tudo se aprende, quantas vezes não te disse? E nem é nada mágico, só é vida. Who cares?
__ E tem quanto tempo que você não bebe?
__ Uns meses. Dois, três, nem faz diferença. Você sabe. A última bebedeira foi naquele sábado sangrento.
__ Entendi a piada.
__ Não, não teve piada. Eu bebi e me cortei todo e fiquei duas semanas internado, nem morrer consegui, sábado sangrento.
__ Achei que tivesse falado da música.
__ Que música? Você nem gosta da banda.
__ A puta russa tá batendo. Meia garrafa para meio juízo, proporção.
__ Mas já? É o que o meu tio velho chama de peso da idade.
__ Estômago vazio. Porra, nunca aprendi anda na vida. Me dá dois minutos.
__ Cacete, esquece os braços, esquece a vodca.
__ Preciso vomitar. Isso eu aprendi: bebe vodca, vomita, bebe mais vodca. Ah, preciso fazer isso.
__ Deixa de ser doente.
__ Dois minutos.
Corri até o banheiro e senti as mãos dele segurando meu cabelo pra não sujar, e afagando minhas costas pra eu respirar. Pude sentir a reprovação dele se alojar num canto do meu cérebro que eu não conseguia destruir mas ele sempre conseguia acessar, como um bunker dele dentro de mim. E foram as mãos dele que jogaram água no meu rosto, e depois escovaram meus dentes, e foi no passo dele meio torto pela minha embriaguez que voltei ao telefone. Vomitei de novo, no tapete, ele não limpou, aquele nojinho meio homo que ele tinha e que me divertia.
__ Ainda viva?
__ Quase morta. Por duas vezes.
__ Tapete?
__ Ié, babe.
__ Hein, tem visto alguém?
__ Não. Quem há para se ver?
__ Só pensei.
__ Escuta, posso te pedir uma coisa?
__ Ahn.
__ Quando a gente desligar, daqui a pouco, me diz adeus?
__ Digo.
__ E não me liga mais?
__ Nem amanhã?
__ Nem amanhã, nem depois, nem em agosto. Nem nunca mais.
__ E você vai ficar bem?
__ Nunca estive mal de fato.
__ Tá certo. Adeus.
Ouvi o clique do telefone e tornei a vomitar. Eu te amo, ele disse ao meu ouvido. Eu te amo mais, ainda ousei afirmar.
__ Não, você não precisa. Deixa.
__ Preciso, como você vai saber se eu preciso ou não? Como, se a lacuna é do meu peito e é da minha veia que jorra e sangra e eu não estanco?
__ Não se leve tão a sério.
__ Me dá dois minutos.
Larguei o telefone e corri até a cozinha, e durante o percurso senti o mal-estar dele me seguindo, silencioso e sombrio. Ele deve me odiar, pensei logo, mas logo repensei e vi que não procedia. Quem ama cuida, já diziam os estúpidos sentimentais, e ele cuidava de mim, desde sempre, lá se vão uns quatro anos de cuidados desperdiçados e nunca retribuídos. Pelo menos não da forma que devia ter sido, da forma que faz sentido, who cares? ele dizia, e eu ria e tornava a me descuidar pra que ele tornasse a me cuidar, e assim prosseguíamos, fingindo um ódio absoluto que só podia ser amor mesmo, mais nada. E como se de mais nada precisássemos íamos vivendo no nosso mundinho de incertezas que forjávamos pra intensificar a vida, um mundinho cada vez mais escuro e frio e mofado de onde não considerávamos a possibilidade de sair não por gostar, mas por temer a luz do sol. E nada de nirvana pra nós. Queríamos beirar o inferno.
__ Pronto. Voltei.
__ Fez o serviço sujo?
__ Escuta, posso te fazer uma pergunta?
__ Ahn.
__ Você gosta de mim?
__ Estou preso a você.
__ Resposta errada, caubói.
__ Você nunca me perguntou isso antes.
__ Você nunca manifestou isso antes.
__ Como é?
__ Hein, como está São Paulo?
__ Cinzenta e fria, como sempre esteve.
__ Tipo Brasília nessa época do ano. Já te disse que Brasília me dá nos nervos? São Paulo também. Odeio São Paulo.
__ Sei.
__ É sério. Se eu pudesse, não ficava nem aí nem aqui. Hein, vamos morar em Minas?
__ E de Nova Iorque, você gosta?
__ São Paulo blaster. Não é pra mim.
__ Escuta, posso te ligar em meia hora?
__ Por quê?
__ Não dá pra falar agora.
__ Tá, tá, eu sei, eu tou fodendo com o teu estilo de vida. É, pode ser, meia hora, vou comprar cigarros então.
__ Deixa o fone no gancho. Eu vou te ligar.
__ Eu te ligo.
__ Mas que coisa chata. Ninguém leva meia hora pra comprar cigarros.
__ Vou atravessar o eixão. Você precisa ver, adrenalina, foda-se montanha russa se você tem o eixão.
__ Como estão seus braços?
__ Pararam de latejar. Hein, vamos tomar umas cervejas? Você bebe daí e eu bebo daqui e ficamos bêbados virtualmente mas em tempo real.
__ Não tou bebendo, você sabe.
__ Ah, é. A coisa pseudo-religiosa.
__ Pra curar a coisa pseudo-depressiva. Nem é Deus, porra, são só remédios.
__ Me liga em meia hora. Vou ficar bêbada sem você, vou ver se arranjo uma puta russa.
__ Isso mata. Não viu o jornal?
__ Viver mata.
Desligamos sem nos despedir, como sempre. Acho que nunca dissemos "tchau", "até logo", essas sentimentalidades potencializadas pela distância. Até mesmo no aeroporto, no dia em que ele foi embora pra São Paulo, não teve despedida. Acho que ele me disse algo do tipo "não morra, te ligo em duas horas" e eu não morri e duas horas depois ele me ligou e "oi, cheguei, odeio São Paulo, comprei cervejas no aeroporto e o hotel é uma bosta" e a ladainha. Desde então passamos metade da vida no telefone, e só ele me liga e só eu ligo pra ele, e a outra metade da vida passamos ou dormindo ou sonhando ou escrevendo ou.
Não tive espírito aventureiro para atravessar o eixão, nada havia do lado de lá. Conveniência e cigarros e puta russa, das mais vagabundas, garrafa de plástico, dez minutos no freezer e fica tudo ok, babe. Dei uma volta na quadra, me balancei no parquinho, a vida era terrivelmente vazia sem ele. Voltei pra casa e tentei adiantar umas revisões, eu precisava fazer aquilo, duas semanas sem dinheiro e eu quase morrendo de inanição, o editor e o escritor e o pai do escritor e o mundo me enchendo o saco por causa de duas dúzias de páginas de puro lixo. Odeio escritores da nova geração, não sabem escrever, mas que merda. Preciso de grana, eu dizia, puta vendida, ele dizia, nem doía mais, não de verdade, dói quando se acredita e eu nunca fui crente em absolutamente nada. Larguei as revisões e andei pela casa, acendendo um cigarro na bundinha do outro, coloquei um CD de Jazz só por causa do silêncio, Chet Baker, e andei e andei e.
__ Mais de meia hora.
__ Eu sei. Precisava terminar uma coisa. Você já está bêbada?
__ Not yet. Puta russa desqualificada ainda no congelador.
__ E o que você fez?
__ Andei e fumei e ouvi e só. E você? Terminou?
__ Aham.
__ Terminou o quê?
__ Meu namoro.
__ Ah, sinto muitíssimo.
__ Eu não.
__ Ela vai ficar bem?
__ Espero que não.
__ Você vai ficar bem?
__ Nunca estive mal de fato. Hein, o que você tem lido?
__ Muita porcaria. Tem um carinha novo que é horrível, comete erros grotescos, Jonas Monteiro o nome do pusilânime. Mas o pai do infeliz tem rios de dinheiro, e hoje em dia a máxima é "pagou, publicou". Sad, but true.
__ Voltei a ler Kerouac, aquele que você tinha me dado e eu nem consegui na época. Difícil, por Deus, que coisa difícil. Mas é bom.
__ Só pelo desafio?
__ Nem. Só é bom.
__ Me dá dois minutos.
__ Esquece os braços.
__ Esqueci. E esqueci também da vodca.
Corri pra cozinha e ele ainda me olhava, sem mal-estar, um divertimento mundano, quem sabe? Eu o conhecia como ninguém, e como ninguém eu assim o desconhecia, com um desapego tão fingido que às vezes feria, mas só às vezes, nas noites de chuva. E de mim ele sabia tudo, gesto decorado, palavra mil vezes dita. E de tão afundados que estávamos naquele amor sem carinho não conseguíamos trazer à tona absolutamente nada que nos fosse externo. E assim todo relacionamento que se iniciava à parte de nós era só uma vírgula, uma lacuna, um parêntese, esperando o nosso ponto final. E sempre findava sem choro nem vela.
__ Por que a gente não casou?
__ Somos amigos. Amigos não se casam.
__ Inimigos se casam?
__ Penso que sim.
__ Mas a gente trepou muito.
__ Putz, nem foi assim tão bom. Quero dizer, não o sexo, o sexo era bom, acho que o fato do sexo ser entre a gente é que não era bom.
__ E por isso a gente não casou?
__ Nem casou, nem renunciou, nem largou, nem ficou, nem viveu, nem.
__ Mas estamos presos um ao outro.
__ Então pra quê casar? Somos perfeitos assim. Eu tenho você, você tem a mim. Sem brigas, sem ciúme, sem posse, sem crime, sem sangue, sem dor.
__ E sexo? Não sente falta do sexo?
__ Casados não trepam. Não com quem se casaram.
__ Perguntei se sente falta do sexo comigo.
__ Não.
__ Não sente?
__ Não foi isso que você perguntou.
__ Não importa. Se um dia você se casar, o que vai dizer de mim à sua mulher?
__ Que você é minha outra parte no mundo.
__ Não sei se é legal de se ouvir.
__ Você não gostou?
__ Falo da sua esposa. Não sei se é o que ela quererá ouvir.
__ Ela vai preferir a mentira, é isso? Isso não deve fazer sentido. Não mesmo.
__ É, é meio surreal.
__ Irreal. Mais e maior.
__ Não acha o nosso relacionamento doentio?
__ Não temos um relacionamento.
__ Claro que temos.
__ Não temos, são só telefonemas. Doentia é a conta que eu pago.
__ E no que você tem trabalhado?
__ Resenhas, críticas, colunas. O mundo underground me adora.
__ E como você consegue chafurdar nisso de cara limpa? É terrível.
__ Tudo se aprende, quantas vezes não te disse? E nem é nada mágico, só é vida. Who cares?
__ E tem quanto tempo que você não bebe?
__ Uns meses. Dois, três, nem faz diferença. Você sabe. A última bebedeira foi naquele sábado sangrento.
__ Entendi a piada.
__ Não, não teve piada. Eu bebi e me cortei todo e fiquei duas semanas internado, nem morrer consegui, sábado sangrento.
__ Achei que tivesse falado da música.
__ Que música? Você nem gosta da banda.
__ A puta russa tá batendo. Meia garrafa para meio juízo, proporção.
__ Mas já? É o que o meu tio velho chama de peso da idade.
__ Estômago vazio. Porra, nunca aprendi anda na vida. Me dá dois minutos.
__ Cacete, esquece os braços, esquece a vodca.
__ Preciso vomitar. Isso eu aprendi: bebe vodca, vomita, bebe mais vodca. Ah, preciso fazer isso.
__ Deixa de ser doente.
__ Dois minutos.
Corri até o banheiro e senti as mãos dele segurando meu cabelo pra não sujar, e afagando minhas costas pra eu respirar. Pude sentir a reprovação dele se alojar num canto do meu cérebro que eu não conseguia destruir mas ele sempre conseguia acessar, como um bunker dele dentro de mim. E foram as mãos dele que jogaram água no meu rosto, e depois escovaram meus dentes, e foi no passo dele meio torto pela minha embriaguez que voltei ao telefone. Vomitei de novo, no tapete, ele não limpou, aquele nojinho meio homo que ele tinha e que me divertia.
__ Ainda viva?
__ Quase morta. Por duas vezes.
__ Tapete?
__ Ié, babe.
__ Hein, tem visto alguém?
__ Não. Quem há para se ver?
__ Só pensei.
__ Escuta, posso te pedir uma coisa?
__ Ahn.
__ Quando a gente desligar, daqui a pouco, me diz adeus?
__ Digo.
__ E não me liga mais?
__ Nem amanhã?
__ Nem amanhã, nem depois, nem em agosto. Nem nunca mais.
__ E você vai ficar bem?
__ Nunca estive mal de fato.
__ Tá certo. Adeus.
Ouvi o clique do telefone e tornei a vomitar. Eu te amo, ele disse ao meu ouvido. Eu te amo mais, ainda ousei afirmar.
terça-feira, 18 de março de 2008
O livro do desassossego
Me perdoa. Só me perdoa. Porque fui estúpido, porque agi feito um imbecil, ataque de hipoglicemia, como você mesma diz. Não sei o que houve, ou porque fiz o que fiz, sei que fiz e foi feio e deve ter doído aí, porque aqui em mim doeu, mas só doeu depois, quando eu percebi repentinamente, como num vislumbre, quase uma anunciação, que ao agir assim eu podia te perder. E me lembrei daquela analogia que você fez uma vez, da pessoa que perde a outra pessoa, a pessoa querida, a cara persona, como quem perde um anel precioso por dia, e não quero te perder diariamente. Quero ter sua conquista diária, como você disse. Tudo bem, vou tentar parar de te citar, é a velha necessidade de parear, isso não é novo pra mim, só estava adormecido. E estando adormecido e tendo acordado com tamanha violência e encanto, fico sem saber como agir, porque você me intimida e me invade e me atinge de uma maneira que não sei dizer se é positiva ou negativa, sei que você me atinge de maneira brutal e vai devastando os espaços que eu gostava de pensar ilesos. Não, não tenho medo de ti, não tenho medo dessa entrega, não tenho medo desse encantamento. Tampouco me incomoda o desassossego, você surgiu como grata surpresa e quero me alimentar disso sim, mas às vezes ajo assim, feito imbecil, e sei que te deixo feito nau à deriva, perdão por isso, sou tão menino perto de você. E você é tão resiliente, tão irascível, hahaha, pode rir, aprendi essas palavras contigo, você as disse ontem enquanto xingava minhas cinco gerações vindouras, eu me lembro, estava ébrio mas não fora de mim. Tanto que cheguei em casa em estado de horror e fui procurar um dicionário porque eu precisava saber do que você estava falando, porque você costuma falar e eu costumo entender, é como você diz, somos harmônicos, somos sintônicos, não quero perder isso. Então me diz que me perdoa e vamos fazer as pazes daquele jeito piegas que os casais costumam fazer, pensei numa cena pra isso, um take de cinema, a gente aqui com esse sol ameno e esse vento-quase-brisa e nós dois sentados nessa escada tentando acalmar esse desassossego. Palavra sua. Me perdoa. E aí você diz que me perdoa sim, ora porra, e eu volto a sorrir, e você me sorri também e corta a cena, tem música, talvez Chico, nosso favorito, pode ser assim? Talvez funcione assim, sei que vai, e até posso te imaginar escrevendo sobre isso, você é tão mulher e tão melhor que eu. Ah, eu sei que você me perdoa, eu sei, pequena, eu sempre soube. Daí você diz que me perdoa e eu te abraço e você me abraça e eu gosto do seu abraço porque você abraça de verdade e eu sinto o teu cheiro e o desassossego volta a ser encantamento. Mas para de me punir com esse olhar, com esses silêncios, com esses muxoxos de desaprovação, porra, eu não parei de falar e você só me olha como se me radiografasse, procurando saber a verdade, não é mentira, agi feito imbecil sei lá porquê, mas quero você. Sempre quis. E vou continuar a querer.
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