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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Desapego

Imaginas que sofro com tua ausência?
De fato conjecturas sobre meus sentimentos.
Imaginas que afundei-me em decadência,
Sofrendo por te ter em meus pensamentos.

Pensas que lembro-me de ti com afeto,
Que em meu coração ainda encontra alento,
Como se fosse teu refúgio secreto,
Para quando a vida te por em sofrimento.

Sofro sim, mas não pense que seja por saudade,
Pois tudo que trouxes foi desgosto e ilusão.
Sofro por teres ido tão tarde,
Agora que descobri que não há solidão

Vivo os prazeres da vida e da carne,
Sem no entanto ofertar meu coração
Deitei-me com mulheres de todas as idades,
Experimentei o sexo de ocasião.

Não, não preciso mais de tuas lamúrias,
Muito menos de seus achaques e sandices,
Descobri que posso viver da luxúria,
E que perder meu tempo contigo, foi pura tolice.

domingo, 28 de março de 2010

Fim / Rotina

- Você não sabe amar!

Gritava com lágrimas nos olhos. Cobrava apenas aquilo que considerava a equidade do sentimento que tinha por ele.

Indiferente ele acendeu um cigarro, soprou a fumaça pro alto e fitou-a em silêncio. Aguardando o que mais poderia advir daquela discussão que considerava desnecessária e enfadonha.

Ela começou a chorar, primeiro em silêncio, depois parecia fora de si chorava e gritava encolhida no sofá. Naquela situação o silêncio dele a feria mais do que quaisquer palavras que pudesse dizer.

Em pé diante dela, ele apenas fumava o cigarro enquanto ela chorava. Apagou o cigarro pela metade, sentou-se ao lado dela passou-lhe a mão pelos cabelos. Ela, com raiva empurrou-lhe gritando:

- Sai daqui!

Ele levantou-se acendeu outro cigarro e caminhou em direção à porta, abriu-a, olhou pra trás e disse em tom seco:

- Me liga amanhã.

Foi-se embora e nunca mais ouviu falar dela.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ele grita. ela olha. ele berra mais alto. ela acende o cigarro entra as unhas já não mais tão perfeitamente vermelhas.
ele fala, agora mais manso: "me responde. me res-pon-de."
ela termina o cigarro. joga no chão. apaga. vira as costas. e fala. ainda de forma que ele escute.
"quando tu aprender a ser homem, tu me procura."

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Limites ultrapassados

Nós estávamos nessa vida terrível de idas e vindas. Terminamos nos últimos três meses coisa de umas 7 vezes. Brigávamos pelos motivos mais banais, e reatávamos pelos menos importantes. Não havia nada que nos mantivesse unidos, nem nada que conseguisse nos manter separados.

Acredito que, nunca na minha vida, viverei algo tão intenso quanto o fim desse relacionamento. Agora que acredito que ele realmente tenha chegado ao ponto sem retorno, vejo que amadureci demais. Vivenciei sentimentos que jurava ser incapaz de sentir. Odiei, perdoei, odiei ainda mais e alcancei novamente o ápice do perdão. Quis vinganças, busquei serenidades e cheguei até a admitir que a situação estava fora do meu controle, coisa que, para mim, é praticamente impossível.

Depois de eventos descabidos, como eu me trancando no banheiro para não levar uma facada, ou ela correndo escada abaixo de camisola para não levar uma surra, finalmente cheguei à conclusão de que havíamos ultrapassado até mesmo o limite do irracional. Obviamente não foi uma decisão comum. Xingamos-nos, brigamos, nos agredimos fisicamente e no auge da briga começamos a nos beijar. Um beijo intenso, vívido e quente. Desses que imaginamos ser coisa de novela até nos acontecer.

Fizemos sexo. Um sexo sem limites, sem perversão e sem sentimento. Sexo puro e simples. Depois de terminado o coito eu limpei o canto da minha boca, que sangrava por causa de uns socos que ela havia me dado após desferir-lhe um tapa na cara. Olhei o sangue em minha mão e vi meu rosto marcado nas dezenas de reflexos no espelho quebrado, que milagrosamente manteve-se na moldura do guarda-roupas.

Ali eu entendi o grau de insanidade a que havíamos chegado. Sem falar nada eu retirei as malas de cima do guarda-roupa e comecei a jogar minhas roupas dentro. Ao ver a cena ela começou a pedir que eu não fosse embora, que eu era tudo que ela queria na vida. Vendo que não me abalei ante seus apelos ela se pôs a chorar e começou a me xingar. Xingou-me de uma maneira tão impiedosa que, por um milésimo de segundo ponderei recomeçar a briga que havíamos acabado de encerrar como dois animais no cio.

Quando fechei a mala e comecei a vestir a roupa que eu estava usando antes ela começou a me bater. Desvairada. Chorava, gritava, xingava e me batia. Eu estava tão decidido que parecia que não estava vivendo aquela cena. Eu apenas continuei me vestindo calado enquanto ela me batia e ficava cada vez mais fraca.

Perdeu as forças e sentou-se nua no chão, sem importar-se com os cacos de vidro espalhados, os restos de um porta-retratos com uma linda foto nossa. Botou a cabeça entre os joelhos e chorou todas as lágrimas do mundo. Um choro convulsivo e desesperador que sequer me tocou. Havíamos ultrapassado o limite há muito tempo, muito embora só ali eu tenha me dado conta.

Peguei a mala e sai porta afora. Quando cheguei ao térreo do prédio o celular tocou. Era ela. Eu apenas atirei o aparelho no espelho d'água na entrada do prédio, sem atendê-lo. Dirigi-me até o carro, acendi um cigarro e olhei pela última vez para a janela do apartamento onde morávamos. Joguei a mala dentro do carro e sai guiando sem direção até parar em um desses botecos de esquina, tão imundos na entrada que chega a dar medo de pensar em como é o banheiro.

Pedi uma garrafa de uísque e adormeci na mesa do bar, embriagado com aquele uísque falsificado.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Casais

Caminhavam felizes pela calçadinha do parque, naquele pôr-do-sol típico de Brasília. Aquele céu encantador com suas tonalidades rosáceas, alaranjadas mesclando-se à negritude da noite que se aproximava.

Marcelo era alto, esguio e sorridente. Priscila era baixa, formosa e séria. A despeito dessa disparidade notória, formavam um casal perfeito. Suas discordâncias eram saudáveis e enalteciam as discussões do casal. Discussões das quais, não raro, ambos saiam com pontos de vista transformados, característica comum dos que estão abertos á novas idéias.

Combinavam em tudo, até mesmo nesse gosto provinciano de caminhar de mãos dadas ao final da tarde, enquanto o sol se põe. Caminhavam felizes conversando sobre a vida, o cotidiano e sobre os planos futuros.

Ele levava a vida como uma grande brincadeira o que fazia com que Priscila assumisse o papel da pessoa lúcida do casamento. Marcelo era a alegria que faltava a Priscila e ela era a seriedade que falta a ele. Uma relação simbiótica ímpar.

Nesta segunda-feira brasiliense típica eles caminhavam pelo Parque da Cidade, um casal de idosos ia à sua frente também caminhando, enquanto eram ultrapassados pelos atletas amadores, ciclistas de patinadores. Apenas caminhavam pelo prazer de estar lado a lado ao final de um dia de trabalho estressante.

- Sabe, amor...
- Hum...
- Não entendo como alguns casais não conseguem e manter juntos.
- Que papo é esse? Eu, hein...
- Ah, é que o Augusto lá do departamento tá se separando.
- Sério? Por quê? Aconteceu alguma coisa?
- Ah, eu perguntei a ele. Disse que não dá mais. Só isso.
- Como assim "não dá mais"?
- Foi o que eu perguntei. Ele só repetiu que não dava mais e saiu meio nervoso.
- E porque ele ficou nervoso?
- Foi o que eu me perguntei, mas não tive coragem de perguntar a ele. Na verdade eu acho que ele ainda gosta dela.
- Se gosta, por que vai separar?
- Porque não dá mais.
- Todo engraçadinho, você, né?
- Ah, amor. Eu penso nessas coisas e fico com medo de acontecer com a gente.
- E porque você acha que pode acontecer conosco?
- Não sei. Vai ver é só um medo bobo, mas não deixa de ser um medo.
- Eu não tenho medo.
- Não?
- Não. Quero você e pronto.
- Que bom então.

Abraçou-a. Enquanto conversavam aproximaram-se do casal de idosos que, inevitavelmente ouviu a conversa. Enquanto Marcelo e Priscila se afastavam abraçados e sorridentes, Seu João olha Dona Catarina. Abraça-a, dentro das possibilidades que seu corpo enrijecido permite e lhe beija a face.

- Foi assim que a gente conseguiu não foi, meu bem?
- Deixa de ficar ouvindo a conversa alheia, velho safado.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Amor doentio

Trancada no banheiro Giovana gritava histericamente, enquanto seu noivo, ou àquela altura ex-noivo, socava a porta aos berros chorando desesperado. A notícia do término despertou no homem uma bestialidade tal que, quem o visse naquele estado, não acreditaria nunca que se tratava de Luís Sousa: médico cirurgião. Homem dos nervos de aço e de mente serena. Bastante admirado em seu trabalho pela sua frieza em situações de emergência.

- Vai embora, Luís. Sai daqui, não quero te ver nunca mais!
- Giovana, me perdoa. Eu perdi a cabeça... me perdoa, pelo amor de Deus.

Cacos de vidro e sangue fresco estavam espalhados pelo chão da casa, enquanto uma ponta de cigarro manchado de batom queimava um pedaço do sofá na sala, enquanto isso Luís sentava no chão do corredor, apoiando as costas na porta do banheiro. Com o rosto entre as mãos, e os braços apoiados nas pernas chorava compulsivamente, um choro desesperador e amedrontador.

Dentro do banheiro Giovana chorava encostada no azulejo frio, manchado de sangue. Um choro silencioso, como se estivesse tentando não denunciar sua presença a algum monstro que rondasse pela casa à espreita de qualquer movimento seu. Enquanto chorava, absorta em seus pensamentos não ouvia através da porta do banheiro o choro convulsivo do homem que amou durante tantos anos. Apenas chorava silenciosamente e pensava em dar Um basta à sua vida.

Luís desfazia-se em prantos e soluçava de maneira quase convulsiva enquanto pegava um caco do porta-retratos que arremessara na parede e cortava os próprios pulsos. "Se não for pra viver com ela, que tudo mais vá pro inferno", pensava enquanto cortava os próprios pulsos, sem imaginar que dentro do banheiro Giovana tomava todos os comprimidos que encontrara no armário.

Agora calado, aguardava a morte de braços estendidos, sangrando pelos cortes de precisão cirúrgica que havia feito em seus próprios pulsos, a despeito do instrumento rudimentar do qual dispunha, e se olhava na foto que estava ali perto dentro dos restos do porta-retratos, uma foto onde sorridente, carregava a então noiva em seus braços, num momento de amor primaveril e radiante. Foi então que se pôs a chorar novamente até perder a consciência. Chorava novamente aquele choro bestial e nem percebia a fumaça que preenchia o ar do corredor.

Morrera naquela mesma posição, vigiando a porta do banheiro onde estava a mulher que adorava mais que tudo nesse mundo, enquanto o fruto de seu esforço, o apartamento que dividiam, era consumido pelo fogo que se alastrava pelos tapetes, carpetes e cortinas.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Confuso

Engraçado ver essas coisas acontecendo conosco, sentir essa distância se tornando cada vez maior. Juro por tudo que há de mais sagrado que tudo que eu quero é fazer com que as coisas dêem certo.

Não dá pra dizer "eu te amo" o tempo todo porque têm horas que tudo que eu queria era que você virasse fumaça e sumisse da minha frente, mas logo em seguida me desespero por pensar nessa possibilidade. Minha vida sem você seria por demais penosa: uma busca constante e um eterno desgosto por não te encontrar. É justamente pensando nessas coisas que eu acho engraçado te ver assim, se distanciando e eu aqui quieto na minha só sentindo essa distância aumentar.

Não faz sentido pensar que me desesperaria sem você e, ao mesmo tempo, assistir mudo e imóvel à tua partida lenta e sofrida de minha vida lenta e sofrida. Acho que cheguei nesses dias de conflito pelos quais todos passam algum dia na vida e pelos quais alguns passam a vida toda. Estou confuso a respeito do que me confunde. Não sei se estou confuso a respeito do que sinto, ou se estou confuso a respeito do que fazer! O fato é que estou confuso, e isso não tem nos ajudado. Será que você está confusa também? Seria tão mais fácil se ainda tivéssemos a mesma comunicação de antes.

Onde foram parar nosso diálogos, nossas loucuras e nossas contas telefônicas estratosféricas? Não sei e aposto que você também não sabe. Aposto que ninguém sabe. Estranho pensar nessas coisas. Estranho pensar em você sorridente no passado e te ver muda e inexpressiva hoje. Estranho achar estranho nosso relacionamento, quando antes eu o achava perfeito.

O que fazer? Pedir ajuda? A quem? A você? Você está tão perdida quanto eu, minha jovem: isso é fato.

(silêncio...)

terça-feira, 15 de julho de 2008

Dois lados - O lado dele

Estava entediado. Nenhum livro novo pra ler, computador quebrado e uma manhã inteira assistindo televisão. Sentia-me um prisioneiro dentro de casa. Repentinamente em um desses arroubos que nos acometem inesperadamente levantei-me e sai de casa. Não suportava mais aquela quietude fúnebre. Sai sem destino e sem ter idéia do que procurar fora de casa, além da sensação de não estar em casa.

Incrível como eu pude passar a manhã toda deitado no sofá assistindo televisão mudando de canal e reclamando da vida. Estava um dia muito bonito. Repassei mentalmente algumas coisas que eu faltavam em casa e decidi que iria fazer pesquisa de preços. Assim passei a tarde toda entrando de loja em loja e olhando preços, até que essa tarefa deprimente me cansou. Estava indo para uma lanchonete comer alguma coisa antes de ir para casa quando começou um temporal, absurdo.

Em questão de segundos a chuva tomou conta de tudo. Corri para debaixo de um toldo em busca de abrigo, algumas pessoas chegaram junto comigo e começaram a reclamar e xingar. Eu apenas ri. O que mais se pode fazer numa situação dessas? Foi então que chegou uma garota linda. Sem esperar muito tempo procurei puxar conversa tentando parecer espontâneo:

- Como pode, né? Estava tão claro agora há pouco.
- Pois é. Quem diria que ia chover.
- O bom é que quando é forte assim passa logo.
- Ahan...
- Bem, enquanto não passa vou entrar ali naquela lanchonete pra tomar um café.
- Então tá...
- Aceita um café?
- Não, obrigado.
- Tá, o café é o de menos. Não quer ir para um lugar onde vente menos? Lá pelo menos é coberto.

Ela aceitou. Magrinha daquele jeito devia estar morrendo de frio. Chegando na lanchonete nos sentamos e conversamos bastante. Ela tinha um sorriso lindo, não conseguia deixar de reparar no quanto o sorriso dela era lindo, tanto que procurei fazê-la sorrir o tempo todo só para ver aquele sorriso iluminando aquele dia que até então estava sendo péssimo. A chuva passou e continuamos sentados. Conversando e rindo.

Quando começou a escurecer ela precisou ir embora. Ela morava num prédio longe da minha casa, mas a companhia era tão agradável que nem me importei em acompanhá-la. Lá chegando ela me convidou a subir. Neguei para não parecer muito afoito. Inventei uma desculpa qualquer e peguei o número do celular dela. Iria ligar no dia seguinte ou dois dias depois, para parecer despretensioso. Ela subiu e eu fui embora. Duas quadras depois fui assaltado. Levaram minha carteira e meu celular, junto com o celular foi-se embora o telefone dela.

Dois lados - O lado dela

Nunca esquecerei a situação em que nos conhecemos. Eu precisava comprar um sofá novo pra minha casa e, como o dia estava claro, decidi sair para olhar as vitrines a pé mesmo. Caminhar, espairecer e gastar. Eu usava uma blusinha branca de alcinha e um jeans coladinho, estava bem básica.

Então sai por aí caminhando e olhando vitrines. Acho que só olhei sofás mesmo por uma meia hora, porque lembro de ficar deslumbrada com alguns vestidos que vi nesse dia. A sensação que eu tinha era de euforia, alegria, liberdade. O céu estava limpo, de um azul fascinante. Passei a tarde toda caminhando pelas lojas da cidade e, assim empolgada, nem percebi que o céu fechou repentinamente. Chuva de verão.

Uma chuva forte e impiedosa preencheu tudo e desapareceu em poucos minutos. Enquanto chovia, fui obrigada a me abrigar embaixo de um toldo, e lá estava ele também. Sorridente, charmoso. Ria da própria impotência ante a chuva inesperada. Quando cheguei tratou logo de puxar conversa:

- Como pode, né? Estava tão claro agora há pouco.
- Pois é. Quem diria que ia chover.
- O bom é que quando é forte assim passa logo.
- Ahan...
- Bem, enquanto não passa vou entrar ali naquela lanchonete pra tomar um café.
- Então tá...
- Aceita um café?
- Não, obrigado.
- Tá, o café é o de menos. Não quer ir para um lugar onde vente menos? Lá pelo menos é coberto.

Pareceu uma ótima idéia, já que eu estava de camisa branca. Problemas femininos. Fomos para a tal lanchonete e lá, com certa descontração, Klaus conseguiu prender minha atenção. Acabei descobrindo a pessoa maravilhosa que ele era, tanto que a chuva passou e continuamos os dois sentados à mesa. Conversando e rindo.

Foi um fim de tarde ótimo. Ele me deixou no prédio onde eu morava, eu o convidei a subir e ele declinou. Disse que tinha um compromisso que não podia adiar. Pediu meu número de telefone e foi embora. Nunca me ligou, mas até hoje eu me lembro do sorriso dele. Engraçado como essas coisas acontecem, ele se tornou minha paixão platônica e eu só o vi um dia na minha vida, há dois anos.

sábado, 10 de maio de 2008

Simplicidade envolvente

Estávamos abraçados. Era noite e estávamos abraçados olhando pela janela, as luzes apagadas, e eu sentia o cheiro dela enquanto o aparelho de som preenchia o ambiente com aquele trip hop relaxante.

Eu fechava os olhos e sentia a textura da pele dela. Lisa, macia, tentadora. Até então a noite havia sido perfeita. Um bom jantar, um bom vinho, sorrisos, abraços, beijos e sexo apaixonado. Não importa quantas vezes você fez sexo na sua vida, quando se faz com sentimento sempre parece ser a primeira vez.

Mordi levemente a orelha dela. Ela passou a mão pelo braço que a apertava contra meu corpo.

- O que faremos agora?
- Não sei. Sei que está sendo muito bom.
- Não me imagino mais sem você.
- Nem eu me imagino sem você. Sem esse abraço, sem esse sorriso...
- Mas você tem que ir embora e eu não posso ir junto.
- Ah, não, amor. Vamos aproveitar o nosso tempo...

Dito isso, virou-se, colocou seus braços em volta do meu pescoço e me beijou.

- Para de pensar nisso, a gente vai dar um jeito.

Simples. Fácil. Tudo para ela parecia ser assim. Ela parecia não se importar com os meandros dos caminhos da vida, com os obstáculos impostos pelo destino. Fascinante essa visão da vida. Uma linha reta: simples e sem interferências. Uma visão tão fascinante quanto perigosa. Não posso negar que fui seduzido por tudo nela, desde sua beleza até sua forma simplista de ver a vida.

Beijei-a de volta, abraçando-a firmemente. Parei e, olhando dentro daqueles olhos encantadores, não pude pensar em outra coisa, além da felicidade de se viver o agora.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A fórmula mágica

Procuro não olhar enquanto ela fala. Essas acusações sem sentido me irritam, e quando eu me irrito as coisas sempre pioram pra mim. A mente feminina e os caminhos tortuosos que ela percorre quando uma mulher raciocina são coisas inexplicáveis. Neste exato momento estou sendo acusado de ser "insensível" e um "porco capitalista", porque não quis almoçar em casa esse final de semana. Pelo amor de Deus, não me perguntem como ela conseguiu chegar à essa conclusão, acho que nem ela sabe quais foram as conexões de raciocínio que a levaram até aí, o importante nessas horas é que ela me ofenda.

- Amor, eu só queria fazer algo diferente.
- Deixa de ser cínico, Cláudio. Você está dizendo isso agora pra tentar contornar a situação.

Ah, sim, claro. Eu causei a situação toda, como sempre. Eu adoro restaurante e ela sabe disso, só queria saber porque cargas d'água justo hoje ela montou toda essa tragédia grega por causa de um simples almoço. A vontade de arrancar alguns dentes dela está crescendo. Pego a chave do carro e começo a caminhar em direção à porta.

- Isso, foge mesmo, seu covarde. Medroso! Covarde!

Chega, essa foi a gota d'água. Eu volto, dou um tapa na cara dela, aponto-lhe o dedo em riste e declaro solenemente:

- Acabou a palhaçada! Estou indo almoçar fora, se quiser venha comigo, se não quiser fique aqui. Na volta eu quero dar uma trepada e se você não quiser eu vou conseguir uma na rua. Fui claro?

Ela ficou parada com a mão na cara me olhando com aquele ar de incredulidade. Então eu pergunto:

- Vamos?

Ela levanta pega a bolsa e sai caminhando à minha frente, tão silenciosa quanto se estivesse indo a um velório. Acho que encontrei a fórmula mágica.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

A Fé Solúvel

Ajoelhada Roberta reza novamente, agora sem esperanças, para um Deus que nunca a ouve. Seus joelhos machucados pela fé que nunca a ajudou em nada já não suportam mais o mutismo intransigente e a passividade de um ser superior que vive a ignorá-la. Suas lágrimas já secaram e até mesmo a dor passou.
Roberta sempre fora um exemplo de fé inabalável dentro de sua comunidade, até o dia em que cruzara com Klaus. Um jovem modesto e cheio de ambições que levava a vida da maneira mais objetiva possível. Dir-se-ia dele uma dessas pessoas práticas para quem o tempo vale muito e não pode ser desperdiçado com algo que não gere retorno imediato.
Conheceram-se e se apaixonaram. Ela, sempre firme em sua fé, pedia-lhe somente os domingos, reservados única e exclusivamente para Deus. Todos os outros dias da semana seriam dele. Ele de início aceitou, achou até bonita aquela celebração semanal de uma fé tão fervorosa, coisa que até então desconhecia. Porém o tempo, como sempre, revelou-se o formidável combustível para incendiar o fogo da destruição causado pelas diferenças.
Klaus trabalhava de sol a sol, sempre pragmático e objetivo na construção daquilo que ele dizia ser seu império, e nessa ganância de sempre obter mais para comprar mais e desejar mais começou a aceitar trabalhos noturnos. "O dinheiro é o ópio dos homens sábios" dizia ele, e considerando a si mesmo um homem sábio, fazia jus à própria afirmação. Nesses acasos que constituem a vida, Klaus e Roberta foram se distanciando um do outro pelo trabalho que agora o consumia, acabando por restar somente o dia de domingo livre para se verem.
Roberta, que era realmente apaixonada por Klaus, encontrava-se dividida entre o amor a Deus e o amor ao namorado. Não queria abrir mão de nenhum dos dois, pois amava a ambos intensamente. Até que, dividindo-se da maneira que podia, recebeu o ultimato:

__ Roberta, larga dessa história de Igreja. O único dia que temos é o domingo. Eu não agüento mais ir à missa.
__ Ah, amor, não me peça isso. Ia ser muito mais fácil se você diminuísse sua carga de trabalho.
__ Diminuir meu trabalho? Nunca! Absolutamente tudo que conquistei foi devido a ele. E ainda tenho muito mais a conquistar.
__ Eu sei, eu entendo...mas desde que você começou a trabalhar tanto a gente quase não se vê mais. E eu não posso abandonar a Igreja. É o único dia que tenho reservado a Deus, não posso abrir mão dele.
__ Mas, Roberta...isso funcionava antes, quando tínhamos tempo suficiente pra nos vermos durante a semana. Agora, com o meu trabalho, não faz mais sentido. Vá à Igreja durante a semana, se quer tanto. Deixe o domingo pra gente.
__ Não posso! Tenho trabalho, tenho faculdade durante a semana. Além disso, tenho compromissos nas missas dominicais, o Padre João conta comigo. Não posso, Klaus, não posso!
__ E o que vamos fazer então?
__ Ora...já lhe propus isso, mais de uma vez...trabalhe menos.
__ Não vou, Roberta. Você sabe que posso crescer mais e mais na minha área, e pra isso preciso de total dedicação.
__ Só o que estou te pedindo é que se dedique a nós também.
__ E eu estou te pedindo a mesma coisa, Roberta. Exatamente a mesma coisa.

Roberta perdeu dias e dias tentando encontrar uma solução para seu caso, crente na sua fé inabalável que Deus acabaria por dar respostas. Tentou conversar com a mãe, a quem considerava uma mulher sensata e ponderada, mas só o que ouviu foram palavras de desânimo, pois tanto ela quanto seu pai desaprovavam Klaus veementemente. Achavam sua ambição negativa e um péssimo exemplo para a filha, sempre tão dedicada e subserviente. Suas amigas também não simpatizavam muito com ele, por não ser da Igreja, sequer tinha feito a Primeira Eucaristia. Padre João, porém, costumava ser seu bastão de tranqüilidade, e foi ter com ele dias após a última conversa com o namorado.

__ Padre, me perdoe, pois eu pequei.
__ Quando foi sua última confissão, minha filha?
__ Há duas semanas, padre.
__ Sim...o que houve?
__ Padre...o senhor sabe que namoro esse rapaz, Klaus, há coisa de seis meses. Mesmo ele não sendo uma pessoa de fé, aceitou a minha prontamente, por me amar e me respeitar. Mas logo isso se tornou um problema. Não a minha fé, exatamente. Ele começou a trabalhar demais e ficamos sem tempo para que pudéssemos nos ver. Na verdade, padre, o único dia em que podemos nos ver é o domingo.
__ Mas aos domingos tem a Igreja, Roberta.
__ Sim, padre, eu sei. Eu argumentei isso com ele. Pedi a ele que continuasse a compreender e aceitar, mas ele está irredutível. Pedi a ele que trabalhasse menos, pois assim eu não precisaria abandonar a Igreja, mas ele sequer considera essa possibilidade.
__ E quais são as razões dele para trabalhar tanto?
__ Ele é uma pessoa prática, padre. Além disso, bastante ambiciosa. Costuma esperar por resultados imediatos às suas ações, e sempre acha que há mais por se conquistar. Mas não é uma ambição negativa, padre, de forma alguma. Ele jamais faria mal a alguém ou a si mesmo pra alcançar seus objetivos.
__ Mas não é exatamente isso que ele está fazendo, Roberta? Abrindo mão do amor que você tem por ele, que vejo ser verdadeiro, pra conseguir tudo o que quer? Colocando você contra a parede? Responda-me...você acha isso justo, Roberta?
__ Padre, eu o amo, e sei que ele me ama. Não quero que ele perca nada por mim. Mas não quero perder nada, também. Não quero me afastar da Igreja ou abalar minha fé, por um único momento, por causa dele.
__ Sua fé já está abalada, minha filha. Do contrário, você rechaçaria de pronto qualquer chantagem nesse sentido. Lembre-se, Roberta, o amor de Deus é o único verdadeiro. É o único que vai seguir contigo por toda a vida, é o único que tem como recompensa a verdadeira felicidade.
__ Mas, padre...
__ Você tem que fazer uma escolha, Roberta. É o único caminho que lhe resta. Agora eu te repasso essa penitência, para que se arrependa por questionar o amor de Deus.
__ Amém, padre. Amém.

No domingo seguinte Roberta não foi à missa pela manhã, passando na casa de Klaus logo cedo. Quando chegou o viu sentando na varanda, com uma caneca do que provavelmente seria café, um meio sorriso nos lábios. Seu cachorro corria freneticamente de um lado para o outro.
__ Bom-dia, Klaus.
__ Roberta...você não me avisou que vinha.
__ Pensei em conversar. Precisamos conversar.
__ Tudo bem. Estou ouvindo.
__ O que há com esse cachorro?
__ Nada. Só dei um pouco de café pra ele.
Roberta ficou chocada. Sabia que Klaus tinha umas idéias bastante perturbadoras, mas nunca o tinha visto colocar nenhuma delas em prática.
__ Você deu café para o cachorro? Isso é perverso!
__ Eu nunca me diverti tanto.
__ Meu Deus, Klaus, eu...enfim. Não importa. Vim para falar sobre a situação do nosso namoro. Quero saber se você vai continuar irredutível.
__ Roberta, de uma vez por todas, entenda. Eu não vou abrir mão do meu trabalho por causa do seu capricho.
__ Não é capricho, Klaus, isso é minha fé! É a única coisa na qual acredito, é a minha vida!
__ Meu trabalho é a minha vida. Eu vim do nada, Roberta. Olha pra mim agora. Será que você não percebe? Como você espera ter tranqüilidade, segurança, conforto, se eu não trabalhar pra conquistar tudo isso? Diga-me, Roberta, com sinceridade, do que vamos viver? Da sua fé? Vamos viver de amor e fé? Isso é ilusório.
__ Deus nos concede tudo.
__ E você por acaso tem uma conta bancária onde Ele, o Todo Poderoso, deposita a pensão mensal pra você pagar suas contas? Ele te alimenta?
__ Alimenta minha alma.
__ Chega, Roberta. Honestamente, me encanta que uma mulher sensata e inteligente como você tenha cegado à realidade.
__ O que me encanta é que você tenha se transformado nesse monstro egoísta e mesquinho. Você só pensa em dinheiro, Klaus.
__ E vou pensar em quê? Preciso viver, Roberta. E o seu Deus não vai me prover, disso eu tenho certeza.
Klaus tomou o café de um gole só e atirou a ponta apagada do cigarro no cinzeiro.
__ Eu te amo, Roberta. Mas acho melhor passarmos um tempo distantes um do outro. Reorganize suas prioridades.
__ Você está terminando comigo, é isso? Está terminando comigo porque eu tenho a minha fé?
__ Não, Roberta. Estou terminando com você porque não sei quem você é.
__ E você, quem é? Veja como o dinheiro talhou você, Klaus. Você costumava ser carinhoso e sonhador. Agora é um arrogante ambicioso que só espera benefícios. O Padre João estava certo.
__ Você falou com o padre sobre mim?
__ Falei com ele sobre nós. E sabe o que ele me disse? Disse que se você fosse realmente uma boa pessoa jamais me pediria pra abandonar a Igreja só porque você não pode fazer um sacrifício mínimo por mim.
__ Ah, não? E todas as manhãs que acordei mais cedo pra te acompanhar à missa? E todas as tardes que perdi ouvindo o mesmo sermão o dia inteiro? E o tanto que eu deixei de lado por você, Roberta? Não seja injusta. Eu te amo, Roberta. E fiz isso porque eu te amo. Só não posso fazer mais.
__ E por que não?
__ Porque você não me ama.
Klaus assoviou para o cachorro, que continuava sua corrida frenética sem demonstrar sinais de cansaço e sequer lhe deu atenção. Deu as costas à Roberta e entrou em casa sem dizer palavra, batendo a porta atrás de si.
Ele realmente amava Roberta. Realmente queria aquela mulher em sua vida, por sua dedicação, sua inteligência e por todo o amor que ele achava que ela sentia. Sem contar-lhe nada, Klaus fez planos para os dois, deixando um pouco de lado seu comedimento natural, pois acreditava que seria feliz ao lado dela. Tencionava lhe pedir a mão em casamento quando um ano de namoro se completasse, mesmo sabendo que os pais dela o detestavam. E por isso vinha trabalhando tanto...além de sua satisfação pessoal, queria dar à Roberta e aos seus filhos o que ele nunca teve.
Porém Klaus era, acima de tudo, uma pessoa realista. Não perdia tempo em devaneios e nem acreditava que o sobrenatural viesse resolver o que competia a ele próprio. Por isso, perdeu um compasso quando entrou em casa, deixando uma Roberta chocada do lado de fora. Mas, passados poucos minutos, ligou o computador do escritório e deu início ao seu processo pessoal de limpeza: excluiu fotos, e-mails e o projeto de cinco anos que havia estabelecido para ambos. Depois, abriu a pasta do trabalho e adiantou todo o serviço da semana. Na certa, ganharia uma excelente bonificação por isso.
Roberta, por sua vez, dedicou-se completamente à Igreja, freqüentando todas as missas e grupos que seus horários permitiam. Condenou a si mesma por ter acreditado em Klaus e no amor que ele dizia sentir, aplicando a si mesma uma pena severa que seguia à risca. Seus pais ficaram extremamente preocupados e solicitaram a intervenção do Padre João, mas Roberta estava irredutível. E acreditava que Deus iria recompensá-la por tanto esforço, aceitando seu sincero pedido de perdão e seu arrependimento.

Dedicando-se integralmente à Igreja, Roberta acabou deixando de lado o trabalho e a faculdade, acabou negligenciando a família e os amigos, e em pouco tempo se viu completamente sozinha.
Sem perspectiva, Roberta resolveu procurar por Klaus, depois de meses sem nenhum contato, nenhuma notícia. Descobriu que ele havia sido transferido para a sede da empresa, em outro estado, para ocupar um cargo de alto prestígio e alto salário. Descobriu que ele ainda podia alçar vôos maiores, por sua dedicação, competência e ambição. E até pôde imaginar Klaus feliz, por ser isso tudo que ele sempre quis, tudo pelo que ele sempre lutou. E ela, o que exatamente tinha? Pelo que havia lutado? Quais eram as suas conquistas? Pela primeira vez em sua vida, Roberta sentiu revolta e cansaço. Roberta pôde ver a si mesma completamente abandonada, porque o Deus em quem ela tanto acreditava parecia ignorá-la completamente. Pela primeira vez ela se permitiu a questionar se esse Deus realmente existia, se realmente era bom e misericordioso...e se existia, qual seria a verdadeira razão para que Ele permitisse que isso tivesse acontecido a ela. E se lembrou de uma frase que ouviu de Klaus, há meses, assim que começaram a brigar: “Deus é perverso a maior parte do tempo. Nos joga aqui e ainda espera que nos arrependamos pelos atos que ele diz que podemos tomar. E enquanto nos deixa aqui, sequer se digna a nos ouvir ou atender nossas preces”. “Mas podemos conversar com Ele. Pra isso existe a confissão, Klaus. Nós falamos e Ele nos ouve. Depois Ele nos responde, seja pela Eucaristia, seja pelo sermão do padre. Nós falamos, um de cada vez. E ouvimos, um de cada vez”, retrucou Roberta. Klaus, incrédulo, apenas respondeu: “dois monólogos não fazem um diálogo”.

Klaus estava sentado na varanda de sua nova casa. Seu irmão estava em casa, para uma visita. O cachorro, mais uma vez, corria freneticamente.
__ Você deu café para o cachorro de novo? Meu Deus, Klaus, você é doente.
Klaus sorriu, satisfeito. Acendeu um bom charuto cubano, deu uma golada no excelente Johnny Black que ganhou por ajudar um amigo e suspirou:
__ Ah...isso sim é que é vida.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Carta para Clariana

Clariana,

Sei que as coisas têm sido difíceis entre nós, se é que eu ainda posso dizer que existe "nós". Essa situação esquisita em que o nosso relacionamento se encontra tem me deixado louco! Tenho pensado noite e dia em todos os acontecimentos de que posso me recordar, lembrando-me dos mínimos detalhes em busca de uma pista qualquer que me indique onde foi que eu errei. Sim, penso desta maneira, que o erro foi meu, porque é fato que eu não vejo nenhum erro de tua parte.

Sempre dedicou-se a mim de corpo e alma, com essa devoção fervorosa quase impossível de se ver nos dias de hoje, e isso conquistou-me e deixou-me mal acostumado. Onde estão as ligações perguntando como estou, onde estou ou o que tenho feito? Teu cuidado me faz falta, assim como faz uma falta imensa aquele brilho especial que eu via em teus olhos sempre que nos encontrávamos, e aquele sentimento de que o peito estava prestes a explodir de saudade, antes mesmo de terminarmos nosso beijo de despedida. Onde está essa Clariana que me conquistou?

Hoje mal me liga, quando nos vemos está sempre dispersa, sempre distante, e quando nos despedimos parece que estou te tirando um peso enorme dos ombros? Por favor, não agüento mais essa situação! Eu pergunto todo santo dia o que está acontecendo e esse teu silêncio me fere mais do que se uma adaga em brasa tivesse sido transpassada em meu coração! Ao menos me dê uma resposta! Tenha ao menos a dignidade de falar que não me quer mais, que eu não sou mais o homem da sua vida, que não quer mais ter filhos e um futuro comigo e todas as outras coisas que sempre disse, mas não me torture mais com a tua indiferença e esse teu silêncio. Se há algo que me fere mais que as tuas palavras é a total ausência delas.

Esta carta é meu último recurso em busca de uma resposta para tudo o que tem acontecido. Quem sabe escrevendo não se solte mais e me conte o que está acontecendo. Por favor, não me negue uma resposta a esta carta. É tudo o que eu te peço: as coisas como elas realmente são, preto no branco.

Beijos,
Marcos Aurélio Damasceno

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Ponto final

Eu posso até me arrepender de estar te escrevendo, porque certas coisas são tão danosas que o simples fato de dedicarmos-lhes atenção já é uma coisa nociva ao nosso próprio bem-estar.

Aquele dia eu te fiz a pergunta errada com o sentimento certo. A verdade é que eu não consigo racionalizar meus sentimentos com muita facilidade, ainda mais quando a necessidade de fazê-lo se manifesta assim, de maneira tão repentina. Como eu disse, eu não sei “jogar” de outra maneira, sou sincero e espontâneo, mesmo quando isso me prejudica por ter a necessidade de manifestar urgentemente o que eu sinto e esta urgência não me permite formular corretamente uma pergunta ou uma afirmação que defina meus sentimentos com clareza. A pergunta correta a ser feita domingo seria: “Por que pra você estou sempre em segundo plano?”

A resposta eu já tenho (na verdade eu sempre tenho essas respostas, nem sei por qual motivo ainda pergunto). A resposta é: porque eu mesmo deixo. Eu me entrego com facilidade, talvez por viver o passado. Eu revivo a paixão de nove anos atrás e me entrego àquela menina que eu conheci quando ela ainda tinha quinze anos, andava de skate e parecia estar começando a gostar de alguém pela primeira vez na vida, e esse alguém aparentemente era eu.

E quando eu me entrego assim com facilidade, me torno cego para a pessoa que você se transformou nesse tempo, que eu não tenho direito algum de julgar, mas que eu desconheço quase completamente. Só conheço essa capacidade de aparecer de repente e causar estragos na minha cabeça e no meu coração. O mais hilário disso tudo é constatar que sou eu próprio que te outorgo esse direito, porque se você me faz tanto mal assim é pura e simplesmente porque eu mesmo deixo.

Eu poderia lutar contra tudo e contra todos. Poderia propor que fossemos contra todas as adversidades porque é assim que um relacionamento de verdade cresce e se transforma em algo que muda as nossas vidas e nos marca para sempre, mas por que falar isso tudo se eu sei que seria uma batalha em vão? Eu estaria te propondo algo que você poderia aceitar racionalmente, mas que você nunca pensou em fazer de verdade com seu coração. Basta olhar para trás e ver a facilidade com que me largou sempre, sem nem mesmo se dar a oportunidade de experimentar algo que poderia ser diferente e transformador em sua vida, mas que você tem medo de viver. Eu imagino que é desta maneira que as coisas se passam aí dentro de você.

Eu ainda procuro imaginar por qual motivo você às vezes me procura assim do nada, o que se passa na sua cabeça ou no seu coração: quando faz isso e também quando decide alçar vôo e me largar com um punhado de esperanças no coração e um monte de projetos na cabeça.

Sendo sincero, eu, atualmente, achava que estava imune a isso tudo, tendo em vista que há muito tempo esse tipo de coisa não me acontece de jeito nenhum, mesmo porque, como eu disse, não dou esse direito a ninguém, só me resta saber e entender porque ainda permito que especificamente você o faça.

Com base em tudo o que eu já vivi, nos meus sentimentos e no atual contexto da minha vida, só me resta desejar novamente que você consiga achar o seu caminho, se concentrar naquilo que realmente te importa e te deixar um conselho muito importante: não deixe que os outros ditem a forma como você deve viver, ou o que deve fazer para ser feliz. É a terceira vez que você vai embora contra a sua vontade e por causa de outras pessoas (ou então você mente para mim quanto às suas razões).

Eu finalizo a carta pedindo a você que realmente não me procure mais, porque dessa vez o estrago foi grande. Maior até do que você pode imaginar, e como você foi a causa direta, nada mais certo do que te informar.

Seja feliz.


Sem nomes e sem datas. É melhor que seja assim...

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Pôr-do-sol

Ambos estávamos contemplando o pôr-do-sol na janela do meu apartamento. E após um longo tempo em silêncio ela diz:

- Sabe...
- Hum...
- O melhor de tudo é que a gente se entende: e isso é o que importa.

E voltou a contemplar o horizonte. Eu fiquei ali olhando aquele perfil dela, agora ainda mais maravilhoso por causa das luzes meio alaranjadas meio avermelhadas que davam a seu rosto traços ainda mais sensuais. Abracei-a, olhei para o horizonte e disse:

- Isso é porque a gente se ama: e isso basta.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Monólogo

Antes de você sair deixa só eu te dizer umas coisinhas, bobagenzinhas à toa, mas que preciso dizer antes que você feche a porta, para que depois você não precise voltar ou para que eu não precise te procurar [não que isso vá acontecer, é claro]. É só que, apesar de tudo, eu amei você incondicionalmente. Não, não precisa me olhar assim, eu sei que nos expulsamos da vida um do outro e não há mais retorno. Mas eu te amei sem medidas. E vou sentir falta de você sapateando com o meu juízo, fazendo do meu coração o seu brinquedo favorito. É verdade, sim. Tudo bem se você não acreditar, eu pesei tudo na balança e assumo a parcela mais salgada de culpa. Não, não é demagogia, me deixe ao menos terminar, eu quero poder acertar ao menos agora. Assumo o erro agora na sua frente e na frente de quem mais quiser ouvir. Mas isso jamais mudará o fato de que teu cheiro fez casa em mim, e tampouco pretendo me livrar dele como você está a se livrar de mim assim, com tamanha facilidade e desapego. Deixa eu te dizer que nunca mais vou dormir sozinha, porque você vai continuar a dormir comigo por noites e noites a fio. Não, não é mais uma historinha minha, não choro para angariar tua piedade, não precisamos disso, no fim das contas. Só preciso te fazer ciente de que não terminou pra mim, esse amor devia ter durado anos e eu ainda acredito nisso, muito embora tenha a certeza de que você jamais vai me tocar de novo. Deixa só eu te pedir para me cumprimentar se a gente se esbarrar por aí, um olhar, um aceno de cabeça, um esboço de sorriso. Não precisa me julgar pelo que fiz, já recebi condenação. Mas também não precisa fingir que nunca me amou, assim desse jeito que você tenta fazer agora, afinal eu conheço todos os teus caminhos. Ah, como pude esquecer? Deixa eu te avisar que essa porta nunca estará trancada, e as janelas permanecerão abertas de par em par, e essa persiana verde vai espiar as ruas todos os dias, de manhã bem cedinho, esperando você voltar. E você sabe, isso eu não preciso dizer, você sabe que pode voltar a qualquer hora, mesmo que não seja para sempre naquela eternidade de momentos que costumávamos forjar. Você ainda tem meu telefone, não tem? A gente pode só conversar. Por favor, não dê as costas pra mim, espera só mais um pouco. Não esqueça de avisar pra próxima garota que você gosta de capuccino forte, que dorme de meias brancas e limpas quando chove ou faz frio, pede pra ela tirar o pó da sua casa todos os dias, cuida dessa sua alergia. E avisa, antes de tudo, que você não quer ser pai, não vai decepcionar a menina quando ela já puder odiá-lo. Anda sempre com um casaco na mochila, ninguém sabe quando vai chover. Incrível como continuo a tomar conta de ti, não acha? Não esqueça o aniversário dela, ou o aniversário de namoro, faça com que ela se sinta a mulher mais amada do mundo todos os dias. Do jeito que você fazia comigo. Do que você está rindo? Você fazia isso, não se lembra? Costumava deixar bilhetes pela casa, ou uma orquídea na minha mesa de trabalho sem motivo aparente, só porque me amava muito. Ainda tenho uns bilhetes guardados, olha que coisa. Tenho todos guardados, na verdade. Do primeiro ao último, uns cinco anos de história que vão para um baú. O que foi que eu fiz da gente, por Deus do céu? Como pude me forçar a me lanhar sem ti? Como pude te forçar a me deixar assim, feito nau à deriva? Não, não te preocupes, não vou chorar mais. É certo que vai doer, de uma dor diária e sem tamanho, mas a gente sobrevive, não se morre mais dessas coisas. E talvez eu não me acostume ao silêncio angustiante que produz o som de uma casa vazia de ti, mas posso colocar nossa música sempre que for preciso. Lembra dela, né? Você cantou pra mim depois daquele show, o bar vazio, não consigo tirar o retrato daquela noite da minha cabeça. Também acho que você não vai esquecer, mas parece presunçoso dizer isso, por ora devo silenciar meus pensamentos e deixar você ir. Desculpa, não dá, parece que vem tudo contra mim, em ondas, e nada conspira. Por Deus, não consigo me calar. Deixa eu te dizer que eu ainda te amo, muito mesmo, talvez agora mais do que sempre, e não é por estar te perdendo, é por saber que é irremediável. Deixa eu te pedir perdão por tudo e por isso, será que você consegue me olhar sem me odiar? Será que você pode amenizar esse peso, só um pouquinho assim, pra ver se eu consigo respirar? Isso, senta aqui do meu lado assim, não me deixa morrer agora, não sem antes saber que você me perdoa. Me perdoa então? Ah, que bom, isso muda um pouco a perspectiva. Acho que você já pode ir agora, agora que já falei tudo e você ouviu direitinho. Ou pode ficar, se quiser, claro, ia me fazer muito feliz. Você não quer ir agora? Não? Então fica aqui, fica assim, fica mais, fica pra sempre se não for incômodo. Quer me dizer alguma coisa, falei feito doida, não te dei espaço pra nada. Quer tentar mais uma vez? Só uma mísera vez, assim? Juro que te deixo ir quando quiser. Posso ficar perto de ti assim, só pra sentir teu calor? Tá frio, faz tanto frio hoje, deita aqui, assim, do teu lado da cama. Deixa eu ficar do teu lado pra sempre, deixa? Tudo bem, agora estou eufórica, deixa eu ir até ali apagar a luz.