quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Noite de Bukowski

Não fiquei necessariamente surpreso quando ela anunciou, de maneira apoteótica, o fim do nosso casamento. Fiquei ofendido, de certa forma. Assim, não que o casamento tivesse salvação, estávamos num declínio vertiginoso há anos, mas eu não podia aceitar que ela me deixasse, como macho dominante que sou – ou pelo menos devia ser. Tentando recuperar um restinho de dignidade, anunciei que ela podia até me deixar e nunca mais olhar na minha cara de novo, mas quem sairia de casa seria eu. Ela riu, condescendente. “Moramos na casa dos seus pais, idiota”. Titubeei um segundo, não tinha atentado praquilo, e de repente sair de casa me pareceu sem sentido. Mas me mantive firme na decisão. “Não faz diferença. Quem deixa esse lugar que um dia, sonhadoramente, chamei de lar, sou eu”. Ela riu de novo, mais condescendente ainda, e aquilo me irritou. Peguei uma mala no armário, enfiei minhas roupas de qualquer jeito e por último arremessei meu portfólio de fotografias por cima de tudo, de um jeito propositalmente dramático. Ela me olhava e eu sei que se enchia de pena a cada segundo que passava, mas mantive minha cena cinematográfica. Fechei a mala de qualquer jeito, dei uma última olhada pelo quarto e saí sem olhar pra ela. Passei no quarto dos meus pais e inventei uma viagem de última hora, não queria preocupá-los, e fui embora. A pé, porque fugir da casa dos pais com o carro que o pai te deu não me pareceu muito rebelde.

No segundo seguinte já estava arrependido, porque chovia a cântaros e cada osso do meu corpo doía com o frio. Caminhei até um hotelzinho do centro, o atendente mal humorado da recepção me jogou num quartinho de segundo andar com a janela emperrada e o ar condicionado quebrado. O quarto cheirava a casa de gente morta. O chuveiro só tinha água gelada, então só troquei de roupa e me joguei na cama. Por um segundo pensei estar agindo feito um estúpido, mas como essa era uma sensação velha conhecida, não lhe dei atenção.

Devo ter dormido duas horas, aproximadamente. Depois de beber todos os mini-uísques que vi pelo quarto (e não eram muitos), liguei para a recepção e perguntei ao atendente mal humorado se ele sabia onde ficava o bar mais próximo. Não consegui entender uma palavra do que ele me disse, mas soou como “primeira à esquerda, segunda à direita, putas baratas”. Ainda tentei retrucar esclarecendo que não estava à procura disso, mas ele simplesmente desligou o telefone. Peguei minha câmera e saí fotografando as ruas da cidade, os postes, ainda caía uma chuvinha fina, mas eu fotografei tudo que vi pela frente. Os passantes me olhavam de maneira suspeita, acho que não era comum alguém fotografar àquela hora da noite um lugar que seria teoricamente sem atrativos. Mas a luz (ou a ausência dela) me atraiu naquele lugar.

Acabei caindo na esquina das tais putas baratas, e elas realmente estavam lá. Fui a um bar próximo, tomei uma cerveja gelada cujo primeiro gole me pareceu irreal e pedi para fotografá-las. Elas riram, meio tímidas, me perguntaram se era algum tipo de tara, expliquei que não, que era fotógrafo e queria fotografá-las, podia até pagar por foto, sei lá. Então elas se animaram, fizeram pose, comprei mais cervejas e bebemos e fotografamos por quase meia-hora, e nos intervalos para trocar o filme da máquina eu contava a elas minha história. Quando já estávamos todos meio bêbados e as putas bem menos tímidas, apareceu um cafetão sabe-deus-de-onde e me encheu de pancada. Destruiu minha máquina e os rolos de filmes, e só não destruiu minha estrutura facial porque as meninas conseguiram explicar a tempo que eu não era um tarado, nem da polícia e nem de um puteiro cybernético, era apenas um recém-divorciado que tinha a mania doentia de fotografar putas e pagar pelas fotos. Ele tomou isso como aceitável e me deixou ir embora, jogando cem reais em cima de mim pelo conserto da máquina que não teria conserto.

Voltei para o hotel bêbado, encharcado de chuva e suor do cafetão, sangrando e mancando muito. O atendente mal humorado não queria que eu subisse pelo elevador pra não manchar o carpete, armei um escândalo na recepção e ele me xingou de vários palavrões num castelhano feroz. Então ele não era brasileiro, por isso eu não entendia uma palavra do que ele dizia. Mas ele tinha cara de brasileiro, isso era o assustador. Tinha cara de José da Silva, mas não era brasileiro. Tentei dizer isso a ele, que se enfureceu ainda mais e gritou palavras de ordem em castelhano, das quais só consegui entender ‘viva la revolución!’ e ‘Guevara hasta siempre!’. Boliviano? Quando perguntei ele subiu no balcão da recepção, colocou um chapeuzinho de lã na cabeça e cantou o hino, que imaginei ser da Bolívia e preferi acreditar que seria, aquilo já tinha ultrapassado todos os limites. Ao final da demonstração de ataque de hipoglicemia ufanista, ele bradou ‘EVO! EVO! EVO!’. Ótimo, um José boliviano. Disse a ele num castelhano arranhado que era partidário de Evo Morales e da revolução indigenista (isso existia?) e pedi que me conseguisse uns mini-uísques. Ele me perguntou onde eu tinha conseguido o olho roxo, falei que na esquina das putas baratas e ele começou a guinchar feito uma hiena mutante, mas me arranjou os mini-uísques. Saiu por uma portinha lateral, eu fiquei batucando os dedos no balcão, impaciente. No calendário pendurado na parede, a foto de uma modelo muito feia mas muito gostosa, possivelmente boliviana. Quando me dei conta da data, entrei em choque. 16 de agosto. Aniversário do velho Bukowski. A informação me veio num relance, eu não me lembrava de saber a data de aniversário daquele velho safado, mas de algum jeito eu sabia que aquela era a noite de 16 de agosto, ou seja, era aniversário do Velho Buk, então era por isso que todas essas coisas estúpidas estavam acontecendo comigo. Prestidigitação cigana. Devo ter passado muito tempo com a boca aberta, em choque, porque quando o José boliviano voltou com umas vinte garrafinhas de mini-uísque voltou a guinchar feito uma hiena, apontando descaradamente da minha cara pra cara da moça do calendário. Tentei explicar que não tinha achado a moça bonita, mas ele continuou a guinchar e eu me dei por vencido, tomei as garrafinhas dele e fiz questão de subir pelo elevador.

Quando voltei ao quarto ele estava parecendo uma sucursal do inferno de tão quente. A janela estava emperrada, então era impossível abrir sem quebrar, e se eu destruísse o hotel do José boliviano ele mandaria o Evo me matar. O ar condicionado não funcionava, ou melhor, ligava mas não refrigerava o ar, soltando aquele bafo quente na minha cara. Culpa do velho Buk, eu repetia, completamente sem sentido. Que noite horrível. Fiquei me perguntando o que minha ex-mulher teria feito, se já teria dito aos meus pais que eu fugi de casa num arroubo de adolescência tardia, se já teria contado sobre o fim do casamento, se já teria viajado para as Ilhas Fiji com aquele amante sem vergonha que ela tinha e que trabalhava na Bolsa de Valores. Fiquei me perguntando o que meus pais estariam pensando de mim, se já teriam mandado as equipes de busca atrás do meu corpo apodrecendo nas ruas perigosas, escuras e fétidas do centro. Depois pensei nas putas e fiquei me perguntando porque diabos eu não tinha chamado uma delas pro hotel, elas me disseram que eram baratinhas mas o material era de qualidade, e me pareceu mesmo, cada bunda e par de peitos que nunca tinha visto antes. De todos os pensamentos, pensar nas putas foi o que mais me confortou, então fiquei com ele. Tentei limpar o filtro do ar condicionado, sem sucesso, e a única solução para aquele calor infernal seria tomar um banho no chuveiro que só tinha água gelada. Ok, banho de uma hora, banho de onanista (a puta loira me fez uma grande companhia), já me senti melhor. Tentei dormir mas não consegui, tomei os outros mini-uísques e quando passava das duas da manhã minha mãe adentrou o quarto do hotel.

__ Certo. Filho, já sabemos o que está acontecendo. É hora de voltar pra casa.
__ Não vou voltar, mãe. Acabei de declarar minha independência. Vou fazer quarenta anos e ainda moro com vocês! Isso é ridículo.
__ Tudo bem. Tudo bem. Quer morar sozinho?
__ Quero!
__ Tudo bem, a gente prepara aquele apartamento da Augusta pra você. A Linete pode ir lá duas vezes por semana pra fazer a limpeza.
__ Certo!
__ E dinheiro?
__ Vou fotografar profissionalmente. Vou vender minhas fotos.
__ Tudo bem, vou te passar uma lista depois dos nossos conhecidos em jornais e revistas e essas coisas. Entro em contato direto com eles.
__ Ótimo!
__ Será que agora podemos voltar pra casa?
__ Não! Só saio daqui direto pro meu apartamento!
__ Bom, você é quem sabe. Vou deixar diárias pagas até o final da semana. Tudo bem pra você?
__ Sim!
__ Certo, então. Boa noite, meu filho. Ligue para o seu pai amanhã.
__ Boa noite, mamãe.

Ela deu as costas e cinco minutos depois o telefone do quarto tocou. O José boliviano disse que ela deixou as diárias pagas e mais todo o estoque do bar do hotel à minha disposição, então eu devia ir até lá pegar os mini-uísques porque ele não andava em elevadores por medo de queda. Desci de roupão até a recepção, e fiquei batucando os dedos na mesa esperando o atendente voltar. Olhei de novo para o calendário, e muito embora tecnicamente não fosse mais 16 de agosto, ainda estava acordado desde que o aniversário do Velho Buk começara. Decidi comemorar.

Desci de roupão até a esquina das putas baratas e encontrei a minha loira. Comemoramos com o Velho Buk no estilo do Velho Buk até amanhecer.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Amor doentio

Trancada no banheiro Giovana gritava histericamente, enquanto seu noivo, ou àquela altura ex-noivo, socava a porta aos berros chorando desesperado. A notícia do término despertou no homem uma bestialidade tal que, quem o visse naquele estado, não acreditaria nunca que se tratava de Luís Sousa: médico cirurgião. Homem dos nervos de aço e de mente serena. Bastante admirado em seu trabalho pela sua frieza em situações de emergência.

- Vai embora, Luís. Sai daqui, não quero te ver nunca mais!
- Giovana, me perdoa. Eu perdi a cabeça... me perdoa, pelo amor de Deus.

Cacos de vidro e sangue fresco estavam espalhados pelo chão da casa, enquanto uma ponta de cigarro manchado de batom queimava um pedaço do sofá na sala, enquanto isso Luís sentava no chão do corredor, apoiando as costas na porta do banheiro. Com o rosto entre as mãos, e os braços apoiados nas pernas chorava compulsivamente, um choro desesperador e amedrontador.

Dentro do banheiro Giovana chorava encostada no azulejo frio, manchado de sangue. Um choro silencioso, como se estivesse tentando não denunciar sua presença a algum monstro que rondasse pela casa à espreita de qualquer movimento seu. Enquanto chorava, absorta em seus pensamentos não ouvia através da porta do banheiro o choro convulsivo do homem que amou durante tantos anos. Apenas chorava silenciosamente e pensava em dar Um basta à sua vida.

Luís desfazia-se em prantos e soluçava de maneira quase convulsiva enquanto pegava um caco do porta-retratos que arremessara na parede e cortava os próprios pulsos. "Se não for pra viver com ela, que tudo mais vá pro inferno", pensava enquanto cortava os próprios pulsos, sem imaginar que dentro do banheiro Giovana tomava todos os comprimidos que encontrara no armário.

Agora calado, aguardava a morte de braços estendidos, sangrando pelos cortes de precisão cirúrgica que havia feito em seus próprios pulsos, a despeito do instrumento rudimentar do qual dispunha, e se olhava na foto que estava ali perto dentro dos restos do porta-retratos, uma foto onde sorridente, carregava a então noiva em seus braços, num momento de amor primaveril e radiante. Foi então que se pôs a chorar novamente até perder a consciência. Chorava novamente aquele choro bestial e nem percebia a fumaça que preenchia o ar do corredor.

Morrera naquela mesma posição, vigiando a porta do banheiro onde estava a mulher que adorava mais que tudo nesse mundo, enquanto o fruto de seu esforço, o apartamento que dividiam, era consumido pelo fogo que se alastrava pelos tapetes, carpetes e cortinas.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

E era assim, e desde que te conheci era assim, eu pensava em ti todos os dias. Todos os dias. Qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa do meu dia, fazia me lembrar de ti. Fosse porque o céu estivesse mais azul, fosse porque ventava, fosse porque o dia era comum, qualquer coisa me fazia lembrar de ti.

Era assim. Eu te conheci, e nunca mais descansei. As coisas não têm paz.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Loucura

Isolado em sua própria mente,
Pedro vivia sua vida decadente.
Não tinha amigos nem parentes
Tinha apenas sua imaginação doente.

Em sua camisa branca ele descansa,
De braços enlaçados como uma criança.
Em seu abraço carente de esperança
Pedro revive suas lembranças.

Seu quarto acolchoado o protege,
Sua camisa branca o aquece,
Seu abraço constante o fortalece,
E a realidade dura o persegue.

Pensamentos correm inconclusos,
E perdido em devaneios obtusos
Anseia por objetivos escusos
Por não ver na vida algum uso.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O cheiro que precede a chuva

Dia normal e enfadonho no trabalho. A verdade é que eu já não ligo mais a mínima para o que acontece ou deixa de acontecer no escritório. Eu me rendi ao sistema e trabalho no modo automático executando instintivamente todas as tarefas do cotidiano. Sair do escritório é como sair de uma caverna após um século hibernando, como todos os dias úteis anteriores neste último ano.

Acontece que nem sempre foi assim. Antes havia alegria e vigor. Antes havia vida. O fato é que meu mundo tornou-se cinzento desde que meu amor morreu. Engraçado falar isso assim de maneira tão displicente: "meu amor morreu". Nunca percebi o quanto isso soa ridiculamente emotivo e pensando bem, agora que isso soa demasiadamente emotivo percebo que acabei me tornando malditamente frio: o tipo de pessoa que eu desprezava.

Caminhando até o carro sinto aquele cheiro de terra molhada que precede as chuvas após o período da seca nesta savana maldita que é o cerrado do Planalto Central. Esse cheiro me traz tantas lembranças. Encontros, desencontros, brigas, tréguas, realizações e frustrações. Dizem que isso acontece porque raramente os sentimos por estas bandas, já que a chuva é escassa por aqui, mas eu prefiro acreditar que é porque eu sou ridiculamente emotivo. Preciso resgatar alguma coisa boa do passado.

Ao entrar no carro tiro a gravata e desabotôo o colarinho em busca de ar, especialmente aquele ar com o cheiro que precede a chuva. Então fico lá sentado divagando experimentando o meu passado distante e o meu passado recente. Lembro-me de Júlia por alguns instantes e procuro afastar esses pensamentos. Ligo o carro e o dirijo até minha casa.

Lá chegando eu entro, abro todas as janelas, desligo todas as luzes e abro uma garrafa de Cabernet argentino. Fico no escuro sentindo aquele cheiro especial que me trazia de volta o passado até mesmo mais do que minha própria memória e a lembrança de Júlia inevitavelmente ressurge. Fico lembrando nossa última conversa, de quando ela me contou o quanto achava miserável por sentir pena de mim mesmo. Ela achava que eu tinha potencial, mas que eu mesmo me sabotava. Por fim disse que já não sentia mais a mesma coisa por mim, que estava gostando de outro e que estava indo embora de minha vida. Saiu sem me dar oportunidade de falar nada, não que eu quisesse, mas acho que merecia essa oportunidade. Simplesmente virou as costas e saiu. Eu fiquei na janela acompanhando a sua partida e sentindo esse mesmo cheiro que sinto agora. Foi esse o dia que meu amor morreu.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Termina o café. Apaga o cigarro. Solta a fumaça.
Ela caminha, mas num caminhar incerto, desses mesmo de quem não sabe aonde ir. Recusa uma ligação. Respira fundo enquanto olha a Lua, cheia. Num meio sorriso, lembrando de outro tempo, ela quase uiva. Não, não é momento.
De tanto caminhar, se cansa. Pára e senta num banco de praça. Afaga o peito pra conter a lágrima. E cai a chuva.
E com a chuva ela atende a ligação há pouco recusada. Num meio sorriso, mais de resignação, ela conversa. Porém nada manifesta, apenas diz sem dizer, como já é de seu costume fazer.
Volta a caminhar, agora sabendo aonde ir. E de tanto caminhar acaba chegando, ofegante, ao lugar onde não deveria estar.
Toca a campainha uma, duas, dez vezes. Ninguém vem ao seu encontro. Ninguém nunca está.
Pára diante da porta. Senta. Acende o cigarro. Solta a fumaça. E a lágrima.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Profissão: literato

"Workshop de literatura com Miguel Leal, autor dos best-sellers 'O anjo dos fracassados' e 'O amor e seus demônios'. De 22 a 26 de setembro..." e blá blá blá, eu enjoava toda vez que lia aquele anúncio no jornal. Aí meu editor me ligava, empolgadíssimo: "leu o anúncio do jornal? Vou fazer uns contatos hoje, acho que consigo veicular no rádio e na tevê também" e eu tinha mais um colapso mental. "Já te disse que não quero fazer isso, Otávio. Não posso ensinar ninguém a escrever", eu dizia, mas era vão, ele não me ouvia. Podia imaginá-lo quicando por sua sala, feliz da vida com o novo contratado de sua editora: eu. E só um ser humano que teve hiperatividade na infância e a cabeça cheia de Ritalin poderia ficar empolgado em me contratar.

Depois do rolo com a editora anterior e sua revisora mal comida, gastei uma fortuna pagando as custas do processo, os danos morais e materiais, até o tratamento psiquiátrico daquela desgraçada ficou por minha conta. Tive de tirar meu blog do ar e fiquei meses sem conseguir me publicar. Curiosamente, foi o meu período mais fértil, escrevi quase cinco romances, todos eles com qualidade acima da média. Como dizia Ana, a mulher amada, eu estava enfim beirando a perfeição.

Aí, numa tarde dessas secas e quentes de Brasília, fui até o bar do Rubens pra tomar uma cerveja e vi o Otávio por lá. A gente já se conhecia de longa data, fizemos faculdade juntos, ele seguiu e eu larguei. Sentei à mesa com ele, conversamos, relembramos velhas histórias e demos muita risada.

__ E você, Miguel? Grande literato, quem diria. Já tem previsão de quando sai livro novo?
__ Estou sem editora, Otávio. Não publico nada há quase um ano, mas estou cheio de material.
__ E como você conseguiu ficar sem editora?
__ Uma história suja aí. Envolvendo um blog e uma revisora, enfim.
__ Você fazia sexo com ela, ahn? Pode falar, garanhão, pode falar! Fez sexo com ela, tirou fotos e postou no blog, ahn?!
__ Meu Deus, Otávio, você é doente. Não foi nada disso. Só tive um problema judicial, que já está resolvido. Mas fiquei sem editora e sem dinheiro.
__ Hum. Eu abri uma editora há pouco mais de seis meses.
__ Eu soube. E aí?
__ Muito trabalho. Tem muita gente nova querendo ser publicada. Conhece a Mariana de Médicis?
__ Nunca ouvi falar.
__ Incrível. Ela é incrível. Tem 22 anos. Já publicamos dois livros dela. Quase tudo tirado da internet, ela também tem um blog.
__ Ah. Mais uma.
__ Como assim?
__ Mais uma dessas. Orgias, drogas, pais ricos que não se importam.
__ Exatamente. Maravilhoso. Maravilhoso. Isso vende que nem água.
__ Isso não é literatura.
__ Não seja purista. Enfim. Manda algum material seu, quem sabe a gente publica.
__ Pode ser.

E assim fui contratado, não por período, nem por obra. Apenas fazia parte do casting da editora, já conhecida no mercado editorial por publicar praticamente qualquer coisa que tivesse mais de cem páginas, fosse lá o que fosse. Logo depois o Otávio teve a idéia de fazer o maldito workshop, pra avaliar como andava minha aceitação com o público antes de voltar a me publicar, muito embora meu romance já estivesse pronto pra ser distribuído. E me passou o endereço do blog da tal Mariana de Médicis, que joguei fora sem me interessar em ler.

No primeiro dia de aula eu estava nervoso. Não por ter de dar aulas, falar sobre literatura nunca foi problema pra mim. Eu estava nervoso por não concordar com aquilo. Quer dizer, como eu ia ensinar a alguém como ser um bom escritor? Isso não fazia sentido. Você pode ensinar alguém a escrever, juntar palavras de um jeito que tenha significado, mas jamais vai poder ensinar alguém a ser um escritor talentoso. Cansei de explicar isso pro Otávio, mas ele simplesmente não me dava ouvidos.

Cheguei ao local do maldito workshop e, para meu terror, estava lotado. Infestado de jovenzinhos da classe tipo Mariana de Médicis, todos que escrevem em blogs e sonham em um dia ver suas reclamações sobre a vida em papel impresso exposto em uma livraria qualquer. Vários estudantes de Letras que achavam que o domínio da norma culta o faziam literatos melhores que seus ídolos, gente tipo o Paulo Coelho e Sidney Sheldon. O tipo de gente que eu abomino.

__ Pois bem. Agradeço a presença de todos vocês aqui. Gostaria de dizer que ser um escritor de talento é bem simples. Basta ter nascido com ele. Se você nasceu com talento, ótimo. Vá escrever e encaminhe seu material pra editora e colha os louros da fama. Se você não tem talento, desista. Estude pra concurso público, vá trabalhar numa loja de shopping, vire artista de tevê, celebridade instantânea, participe de um reality show ou o que valha. Mas, por favor, não escreva. É isso. Obrigado por terem vindo e tenham todos uma boa tarde.

Não fiquei pra esperar a reação, apenas dei as costas e fui embora, me sentindo dez quilos mais leve. Poucas sensações no mundo se assemelham a de alívio. Voltei a pé pra casa, uma caminhada considerável, passei na casa de Ana pra dar-lhe um beijo e lhe dizer que a amava e finalmente entrei em casa. O Otávio já estava lá, tomando um cafezinho com a minha mãe.

__ Meu editor favorito.
__ Miguel, Miguel. Como você pôde fazer isso comigo?
__ Eu disse pra não contratá-lo, Otávio.
__ Obrigado, mãe. Otávio, eu cansei de dizer que não concordava com aquilo. E continuo discordando. É absurdo. Surreal.
__ Certo. Certo. O mais importante, porém, é que a pesquisa que fizemos no final de tudo indica que sua imagem não foi assim tão afetada. Eles te acham excêntrico, e excêntrico no mundo editorial é sempre um elogio.
__ Hum.
__ Ok. Vamos devolver o dinheiro deles e pedir que eles comprem seu livro. Já autorizei a distribuição. Mês que vem teremos noite de autógrafos! Saudade?
__ Não.
__ Hum. Você é realmente excêntrico. Bem, tenho uma reunião com a Mariana, parece que querem filmar o último livro dela, isso é fantástico.
__ Sim, estou molhado de excitação.
__ Ei! Você não quer ir à reunião comigo? Ia ser ótimo se os dois maiores escritores da minha editora se conhecessem.
__ Não posso. Tenho que colocar meus pés na água morna.
__ Não seja chato. Vamos.

Pouco depois chegamos à casa da tal Mariana, uma mansão no Lago Norte. Exatamente como eu imaginava. Ela era linda, loira e pseudo-rocker, ou punk de boutique, como já ouvi por aí. Usava roupa de couro preto, um coturno pesadíssimo e uma maquiagem que a deixava com cara de defunta. Contei uns cinco piercings numa primeira olhada, e no fim de tudo cheguei à conclusão que ela me dava medo.

__ Mari, meu amor. Como você está?
__ Hum. Entrem.
__ Oi, eu sou o Miguel.
__ Sei quem você é. O cara do blog. Ele saiu do ar, né?
__ Sim.
__ Essas 'fucking' instituições...por isso eu gostava de morar em Nova York. Existe liberdade de expressão por lá.
__ E por que voltou pro Brasil?
__ Uns lances aí. Família, 'tals'.
__ Tals?
__ É.
__ Hum. Otávio, vem até aqui no meu escritório.

Puxei o Otávio de volta em direção à porta e anunciei dramaticamente que iria embora.

__ Miguel, quer parar com isso? Dê uma chance à menina!
__ Otávio, ela fala 'tals'! Eu sei lá que diabos é isso! Se eu ficar, vou fazê-la se sentir tão deprimida que aí sim haverá razão pra cara de defunta dela.
__ Por favor, cara. Em nome da nossa amizade. E pra apagar o que você fez comigo hoje à tarde.
__ Tudo bem. Mas não me responsabilizo.

Voltamos à sala e ela bebia um dry martini enquanto fumava um charuto. Tudo nela me parecia ensaiado, forçado, pensado com calma. Pedi um uísque duplo sem gelo e me sentei no canto oposto da sala, meio que acuado no sofá, rezando pra que conseguisse permanecer calado. Otávio começou a falar do filme com ela e ela parecia propositalmente desinteressada. Dizia coisas como 'whatever', 'who cares?', 'oh, gosh!' e por aí vai. Ela me dava coceira.

__ Posso te fazer uma pergunta sincera?
__ 'Go on'.
__ Por que você escreve?
__ Sei lá. Um dia, contando minha história de vida pra alguém, um cara aí, ele falou que minha vida dava um livro. Então escrevi e vendeu e achei legal fazer isso. Quer dizer, agora tenho uma profissão, meu pai vivia reclamando que eu larguei a faculdade, agora posso dizer pra ele 'sou escritora, você pode viver com isso?'. Meu pai me odeia, 'by the way'.
__ E você escreve como fala?
__ 'Ié, babe'.
__ Deus. Você sente o mínimo de paixão por isso?
__ Minhas paixões são engarrafadas, querido. O resto é consequência do líquido.
__ Literatura não é profissão, Mariana.
__ Rá, vai dizer isso pro Paul Rabbit!
__ E quem diabos é esse?
__ 'Gosh', o Paulo Coelho!
__ Otávio, agora é sério, eu vou embora.

Dei as costas e saí da sala, doido pra respirar. Quando já estava a uma distância segura, liguei pra editora e pedi pra cancelarem meu contrato. Depois liguei pra minha mãe e avisei a ela que tinha enfim saído da editora, que voltaria a ser um peso pra ela e pro Estado. Ela sorriu e disse 'tudo bem, meu filho, não há nada tão ruim que não possa piorar'. Fui pra casa da Ana e disse a ela que não aguentava mais aquilo, estava decidido a largar tudo, encarar literatura como profissão foi justamente o que fez desses últimos dois anos os piores de minha vida. Disse a ela que minha meta agora era escrever tão somente por prazer, e deixar os escritos espalhados pela casa, os visitantes poderiam ler caso se interessassem, mas nada de publicar ou assinar contratos ou autografar exemplares em livrarias lotadas de imbecis. Ela sorriu o sorriso mais lindo da face da terra e disse que finalmente eu alcançara a perfeição.


***

Texto escrito para ler ao som de "Essa moça tá diferente", do Chico Buarque. Ou qualquer música que seja uma conversa do autor com sua própria obra.