segunda-feira, 12 de abril de 2010

Desapego

Imaginas que sofro com tua ausência?
De fato conjecturas sobre meus sentimentos.
Imaginas que afundei-me em decadência,
Sofrendo por te ter em meus pensamentos.

Pensas que lembro-me de ti com afeto,
Que em meu coração ainda encontra alento,
Como se fosse teu refúgio secreto,
Para quando a vida te por em sofrimento.

Sofro sim, mas não pense que seja por saudade,
Pois tudo que trouxes foi desgosto e ilusão.
Sofro por teres ido tão tarde,
Agora que descobri que não há solidão

Vivo os prazeres da vida e da carne,
Sem no entanto ofertar meu coração
Deitei-me com mulheres de todas as idades,
Experimentei o sexo de ocasião.

Não, não preciso mais de tuas lamúrias,
Muito menos de seus achaques e sandices,
Descobri que posso viver da luxúria,
E que perder meu tempo contigo, foi pura tolice.

domingo, 28 de março de 2010

Fim / Rotina

- Você não sabe amar!

Gritava com lágrimas nos olhos. Cobrava apenas aquilo que considerava a equidade do sentimento que tinha por ele.

Indiferente ele acendeu um cigarro, soprou a fumaça pro alto e fitou-a em silêncio. Aguardando o que mais poderia advir daquela discussão que considerava desnecessária e enfadonha.

Ela começou a chorar, primeiro em silêncio, depois parecia fora de si chorava e gritava encolhida no sofá. Naquela situação o silêncio dele a feria mais do que quaisquer palavras que pudesse dizer.

Em pé diante dela, ele apenas fumava o cigarro enquanto ela chorava. Apagou o cigarro pela metade, sentou-se ao lado dela passou-lhe a mão pelos cabelos. Ela, com raiva empurrou-lhe gritando:

- Sai daqui!

Ele levantou-se acendeu outro cigarro e caminhou em direção à porta, abriu-a, olhou pra trás e disse em tom seco:

- Me liga amanhã.

Foi-se embora e nunca mais ouviu falar dela.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Desaprendizado

Começando a conversa: esse talvez seja o primeiro texto declaradamente pessoal que publico em um espaço que não seja o meu bloguinho, meu cantinho escondido onde falo abertamente de mim. Claro que, dentro do meu entendimento de literatura e partindo do pressuposto de que sou uma literata, muitos dos textos que escrevo, embora ficcionais, têm relação comigo ou com vivências que experimentei. Mas, nesse post sincerista, não vou me travestir de literata. Sou eu, palavra por palavra. Fácil não é. Uso a literatura justamente para falar de mim sem me expor. Mas como o espaço é dedicado aos românticos incorrigíveis, me sinto à vontade, é quase como conversar com a melhor amiga.

Sendo um texto sincerista, o estilo também é o sincerismo. Escrevo como falo, como sinto, sem preocupações maiores com o vernáculo. Principalmente por saber que, quando há sentimento, quem também sente entende, e isso independe da forma como é dita. Basta sentir.


*

Estou há quase quinze dias sem ver meu namorado, fato que não ocorre há mais de um ano. Difícil, sabem? Ser dividida em duas cidades sempre faz do período de férias um drama.

Passar tanto tempo longe da cara persona acabou me proporcionando diversas epifanias, coisas que tinha ignorado até então e surgiram em momentos de olhar pra dentro. Descobri que, ao contrário do pressuposto comum de que com o amor se aprende, eu desaprendi uma série de coisas.

Descobri que tenho medo de andar sozinha à noite. Eu, que sempre curti a noite (entendam, eu disse a noite e não a “nigth”), que sempre caminhei sozinha à noite pra pensar, que andava mais de dez quarteirões com a melhor amiga depois das dez da noite só pra botar a conversa em dia, tenho medo de andar sozinha à noite. Percebi isso ontem, enquanto voltava pra casa saindo da casa de um amigo. Porque há mais de um ano, quando eu volto pra casa, meu namorado tá no banco do passageiro do carro. E parece que só a presença dele garante minha segurança e bem-estar. Não, não me sinto uma mulherzinha indefesa e não vejo nele o guerreiro medieval que vai afastar os monstros na noite escura. É só aquela reação mecânica de pensar que, se algo acontecer, não vai ter ninguém do meu lado pra ajudar. Também não significa que antes eu me sentia Highlander. É difícil explicar. Mas, resumindo: antes dele, eu andava à noite sem medo.

Descobri também que não sei mais dormir em cama de solteiro. Sozinha, então, é terrível. Descobri numa noite fria, e não só por me faltar o cobertor de orelha, aquela coisa de dormir abraçadinho e tal. Ilustrando: sempre durmo com o ar-condicionado ligado. E há sempre aquele momento, no meio da madrugada, que o frio do ar aperta. Quando isso acontece e quando estou com ele do meu lado, me basta dizer “amor, tou com frio”. Em um minuto – às vezes até menos – o ar já está desligado, ele já ajeitou os cobertores e já me abraçou daquele jeito dele que me deixa mais aquecida. Parece romance, né? É bem piegas, né? Talvez até seja. Mas quando você acorda no meio da noite morrendo de frio e leva cinco minutos pra perceber que a cara persona não está lá pra desligar o ar-condicionado, fechar a janela, virar o ventilador pro outro lado, ajeitar os cobertores ou dar aquele abraço, qualquer coisa que demonstre que seu incômodo incomoda também aquele a quem ama, quando você acorda no meio da noite e percebe que não tem ninguém ali do lado que cuide de você, dá um aperto, ó. Uma vontadezinha fajuta de chorar, chorar de saudade porque você se pega pensando se a outra pessoa também está em casa rolando na cama sem conseguir dormir, porque de repente aquela cama ficou enorme demais.

Descobri que todos aqueles rituais matinais vistos nos filmes estão apenas lá, nos filmes, mas que ainda existe uma maneira de amanhecer ao lado da pessoa amada sem perder a ternura. Abraços, desejos de bom-dia, mais abraços, ele se levanta pra se preparar pra sair (eu me dou ao luxo de ficar na cama até as onze). Toma um banho, come alguma coisa – se o horário permite – e sempre antes de sair me dá um beijo, um abraço e me deseja de novo um bom-dia. Às vezes diz que vai tentar resolver o que tem pra resolver e voltar, e se volta, me traz coxinha de frango e Baré, café da manhã dos campeões. E assim eu desaprendi não só a dormir sozinha mas, obviamente, a acordar sozinha, e meu humor oscila durante o dia se não tenho nosso rituais matinais. É como se a ausência do desejo dele de bom-dia acabasse influenciando no meu dia de fato, deixando ele bem meia-boca.

Descobri que assistir a competições de artes marciais sem ele também não tem graça nenhuma. E olha que eu adoro artes marciais. Sempre assisti ao UFC, campeonato de MMA (mixed-martial-arts, o antigo vale-tudo), mas com ele tudo fica tão mais engraçado e divertido, sabe como? Porque não é só assistir ao evento. É deixar de sair num sábado à noite, comprar umas cervejinhas e acompanhar com fervor religioso os competidores se matando numa gaiola – e o amor tem dessas coisas, de transformar em poesia um esporte violento. Tentei assistir ao UFC sem ele durante as férias, mas dormi durante o primeiro round da primeira luta. E isso nunca tinha acontecido antes dele. Com ele, então, impossível. Porque ao menor cochilo eu acordava assustada ao som de “pega, puta! Dá na cara dele! Joelhada, joelhada! Muito foda, muito foda!”. Claro que é incrível descobrir, no meio de tanta gente, alguém com tanta afinidade para as coisas menos prováveis, como o MMA. E quando se encontra, parece que não dá mais pra dissociar. Daí a gente desaprende a acompanhar se a pessoa não está por perto, pra fazer com que o gosto pela coisa faça sentido.

É claro que todo esse processo de desaprendizado leva a pessoa a aprender coisas novas. Aprendi e aceito a condição de lembrar dele ao ouvir heavymetal, e por lembrar dele, de sentir saudade de ouvir heavymetal. Aprendi a perder uma tarde inteira assistindo ao desenho animado preferido dele (Flapjack, recomendo, passa no Cartoon) só pra ter a impressão de que estamos juntos em casa e eu o observo rachar de rir enquanto assiste. Aprendi que saudade dá pra se matar assim, aos poucos e com pequenas coisas, enquanto não chega o momento de estar junto de novo. Aprendi que o meu lugar preferido do mundo é o peito onde ele me abriga, ainda que à distância, ainda que quebrada em duas cidades, e acredito no poeta que diz que deve haver um porto¹.

Assim como pude descobrir, à la Orkut, o que aprendi com os relacionamentos anteriores (impossível deixá-los de lado, sou feita de memória): o amor é cigano. Caminha, caminha, caminha, tece trilhas e mais trilhas até o local perfeito pra se parar e descansar. The long and widing road that leads to your door². O longo e sinuoso caminho que me levou até a porta dele.

1 – Caio Fernando Abreu
2 – Lennon & McCartney

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ele grita. ela olha. ele berra mais alto. ela acende o cigarro entra as unhas já não mais tão perfeitamente vermelhas.
ele fala, agora mais manso: "me responde. me res-pon-de."
ela termina o cigarro. joga no chão. apaga. vira as costas. e fala. ainda de forma que ele escute.
"quando tu aprender a ser homem, tu me procura."

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Epifania mal-interpretada

Era tarde. Quer dizer, à tarde. Eu caminhava pelo deserto semi-árido que é Brasília no período da seca, entre o Palácio do Buriti e o Memorial JK. Tinha perdido um ônibus, eu acho. Ou sei lá, acho que ia até o Sudoeste a pé, justamente por ter perdido o ônibus, isso. Ia passar na casa dela por algum motivo que não me lembro agora, só que era um motivo doído. Tipo acertar os detalhes da separação. Tipo pegar a caixa com as minhas coisas essenciais ("os quadros deixa aí que eu coloco pra vender numa galeria depois" - ela disse, muito vaca. Comprei aqueles quadros de um artista vanguardista que ela adorava a um preço absurdo, dá pra entender a revolta?). Enfim, eu tinha rompido com a mulher da minha vida, o ser humano a quem mais amei na face da terra e por quem briguei com minha mãe e fui banido de todos os almoços de família para sempre. Deus, como eu amava aquela mulher. Mas ela, bruxa má do oeste, percebeu que em algum momento eu a sufocava e quis dar no pé. Quer dizer, dar no pé é só pra ilustrar a situação, porque quem ficou sem carro e sem apartamento fui eu. Porque eu jamais deixaria a mulher amada e desamparada na rua da amargura. Sendo que a rua da amargura dela era um outro cara no meu apartamento. Que agora era dela. Não sou um monstro, sou um romântico burro e incorrigível.

Voltando. Perco o foco às vezes, desculpem aí.

Estava debaixo daquele calor inclemente de Agosto caminhando em direção à casa que um dia foi minha ouvindo uma das musiquinhas mudernês que ela gostava. Nem sei o nome da banda. Tinha colocado no meu mp3 porque me fazia lembrar dela, e sou desses que gosta de se torturar após um fim de relacionamento. Eu não gostava daquele tipo de música até ela aparecer na minha vida. Ela era mudernê, entendam, eu era um classicista chato, extremamente preconceituoso e sem vontade de conhecer nada novo. Brigávamos horrores por conta disso, porque ela queria ir pras festas de discotecagem mudernê da cidade e eu nem queria ir e nem queria que ela fosse, porque ficar sem ela por algumas horas me deixava em completo desespero. Eu emburrecia sem ela. Sabe como? Não sabia o que fazer das pernas. Mas ela queria ir, e batia o pé, e dizia que se sentia um pássaro aprisionado na gaiola comigo. Eu também odiava essas metáforas, ela era a rainda das metáforas, mas como eu a amava eu suportava isso. E depois que ela me deixou eu virei o rei das metáforas também, mas perdi meus amigos por conta disso. No fim das contas ela acaba indo pras festinhas mudernês e eu ficava em casa macambúzio olhando pro relógio de minuto em minuto esperando seu regresso. E quase sempre colocava um brega sofrido no som porque era assim que eu me sentia, um cara brega que sofria.

Vou tentar desenvolver o tópico sem resgatar esse tipo de lembrança dolorosa. Bom, era à tarde de um dia quente e eu tinha perdido o ônibus e então eu decidi ir caminhando até a casa dela pra buscar qualquer coisa minha da qual ela queria se livrar. Era agosto. Em Brasília. Isso significa que nessa época do ano faz um calor desgracento e o tempo seco e a baixa umidade não ajudam em absolutamente nada, apenas no pôr-do-sol mais bonito que já vi na vida. Então era agosto, e como é final do período da seca, costuma chover de uma hora pra outra, chuva das fortes mesmo, repentinamente, como ela me deixou, r-e-p-e-n-t-i-n-a-m-e-n-t-e. Então eu ia caminhando quando olhei pro céu e percebi que lá no horizonte ele estava mais carregado que o meu peito (eu disse que tinha virado o rei das metáforas). Ia chover em cinco minutos, no máximo. Vocês conhecem Brasília? Na região central existe apenas um descampado com cerrado seco, sem árvores, sem prédios com marquise, sem absolutamente nada que possa fazer um pobre coitado se abrigar da chuva. A maior parte do tempo eu amo Brasília, mas nessas horas ela me dava um pouco de raiva. Ia cair um temporal e eu estava completamente desabrigado, obviamente sem guarda-chuva, porque ao sair de casa pela manhã estava um sol insano. Eu me sentia a criatura mais tola e infeliz da face da terra, caminhando no sol e depois na chuva só pra ver por dois minutos a mulher que me largou. E muito embora em tempos outros eu conseguisse ver poesia e beleza nisso tudo, nessa hora só um alarme apitava na minha cabeça, como se dissesse que eu estava deixando de fazer sentido.

A chuva chegou antes do previsto (como eu disse, r-e-p-e-n-t-i-n-a-m-e-n-t-e), mas não me pegou. Curiosamente, no exato ponto em que eu estava, não chovia. Como num desenho animado, só que ao contrário. Olhei para o céu, como se pedindo clemência, ou até mesmo agradecendo por não estar encharcado, e vi a metáfora de mim mesmo. Parado ali, com uma nuvem negra ao meu redor, e só havia luz sobre mim.

Talvez eu não tenha entendido direito a coisa. Saí do spot de luz que Deus tinha me dado por breves momentos, como uma epifania bizarra e completamente palpável, e caminhei ainda mais decidido à casa da mulher amada. Obviamente peguei muita água no caminho, porque o spot de luz ficou lá, paradinho, sem me perseguir (no momento achei que isso fosse acontecer, ainda como num desenho animado, sabe como? Só que ao contrário, no desenho animado chove sobre você, e esse não era o caso). Depois de quase meia hora de caminhada e encharcado até os ossos, toquei a campainha do apartamento que era meu, virou nosso e agora era dela. Ela abriu a porta e sequer se dignou a me oferecer uma toalha, só pediu pra eu esperar que ela já voltava com as caixas. Quando voltou, perguntei se ela podia me dar uma carona, porque estava chovendo, ela se desculpou e disse que não podia por estar muito ocupada. Ficou parada à porta me olhando com cara de "por que você ainda não foi embora" quando eu desperdicei toda a epifania que Deus me deu naquele momento anterior, aquela coisa toda da luz e da chuva. Pedi a ela que voltasse pra mim, pelo bem da minha saúde. Prometi a ela que a deixaria respirar, como se eu garantisse que abriria a gaiola pra ela dar uma voltinha e quem sabe fazer as fezes longe do jornalzinho (não disse isso, mas soou como se eu tivesse dito, o que pensei depois ser uma grande estupidez). Prometi que seria o melhor marido do mundo e faria dela a mulher mais feliz e amada da face da terra. Ela só me pediu pra ir embora. Mais nada. Só disse "por favor, vá embora". Joguei a caixa com meus pequenos pertences no chão e a abracei pela cintura, desesperado mas sem chorar, e disse que não sabia o que fazer da vida sem ela. Ela se afastou, foi tudo tão rápido, ela se afastou e o punho cerrado do cara que eu não conhecia e morava com ela atingiu meu nariz com tanta precisão que na hora nem senti dor. Fiquei pensando "Deus, que golpe preciso, será que ele luta?" até cair no chão. Senti o sangue quente escorrer pelo rosto e aí doeu, porra, doeu muito. Ela não se mexeu, ficou lá em pé parada com cara de vaca ainda esperando que eu fosse embora. Eu me levantei, limpei o nariz sangrento na camisa de maneira absolutamente inútil e fui embora com minha caixa com meus pequenos pertences e deixando pingos de sangue pelo corredor.

Quando saí do prédio já não chovia mais e o calor abismal tinha voltado. O sangue secou no meu rosto e coçava. E eu olhei pro céu com raiva de Deus, porque na minha cabeça aquela luz sobre mim indicava que, se eu pedisse com carinho, ela me aceitaria de volta. É, eu não era bom em entender sinais.

Apareci na casa da minha mãe a cara do abandono. Ela se encheu de pena, quis me dar banho, disse que ia matar a vaca e essas coisas que mães falam. Fui pro quarto que ainda era meu, mesmo depois de banido, me joguei na cama e chorei com tanto gosto que até desanuviou o peito. Uns dez minutos depois, minha mãe abriu a porta e disse, toda alegrinha "veja pelo lado positivo, agora você pode participar dos almoços de domingo".

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Da fome

Tem gente que se alimenta de comida. De música. De amor. De luz. Ela se alimentava de mágoa. Deixava acumular, fingia que perdoava, chorava sozinha e mordia a ponta dos dedos, sentindo toda a mágoa do mundo de uma vez só. E somente quando se cansava muito é que ela conseguia sair da letargia e, por fim, se recuperar. Mas só pelo excesso de mágoa que deixava juntar no peito. Como se no fundo do fundo do poço sem fundo houvesse uma mola que se alimentasse também das dores dela, e somente muito pesada pudesse impulsioná-la para fora. Alimentada de mágoa ela conseguia levantar da cama e organizar a casa, tirar dois quadros da parede, arrumar o banheiro que está há dias esperando o conserto, somente alimentada de mágoa ela sentia que tinha que se reencontrar e, sabe? Viver. Porque sem isso era como se não houvesse fome. E sem fome era como se não houvesse porque levantar da cama depois de dois dias. Ela se enchia de mágoa pra comer o próprio coração.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Devaneio

Ele vinha caminhando rua abaixo imerso em pensamentos. Em meio a seus pensamentos rápidos e atropelados divagava sobre tudo e sobre nada enquanto seu corpo caminhava automaticamente para lugar algum. Era como se o mundo ao seu redor não existisse até o instante em que chocou-se com outra criatura tão distraída quanto ele.

- Desculpa
- Eu que peço desculpa estava aqui viajando e nem te vi.

Despediram-se e seguiram seus caminhos confusos de destinos incertos. Ele sentou-se num banco e pôs-se a tentar devanear como já fazia antes da brusca interrupção que sofrera, foi quando deu-se conta de que não pensava em nada antes de interromperem-no. Quanto mais pensava menos conseguia lembrar de seus pensamentos anteriores.

Começou então a ser tomado por um sentimento incômodo de não ter em que pensar. Todo mundo tem no que pensar, oras. Por que justamente ele não conseguia pensar em outra coisa além da incômoda sensação de não conseguir pensar? A dúvida o torturava: teria ele algo em que pensar?

Levantou-se e pôs-se a observar os transeuntes. Todos sisudos, estariam eles imersos em seus mundos de problemas inexistentes e medos injustificáveis? Não tendo no que pensar começou a pensar sobre o que estariam os outros pensando.

Uma senhora caminhando do outro lado da rua tinha um olhar despreocupado, enquanto aquele homem de meia-idade que passava por ela naquele exato instante tinha um caminhar apressado. De cabeça baixa e cara amarrada facilmente seria comparado a um touro pronto para atacar.

Foi quando deu-se conta de que estava observando as pessoas então pensou consigo se alguém o estaria assistindo naquele exato instante. Deu um giro sobre si mesmo procurando seus possíveis observadores e nada encontrando voltou a observar os outros e tentar descobrir sobre o que eles pensavam.

Tomado por grande curiosidade decidiu que teria que decifrar o mistério. Uma jovem de uns vinte anos de idade vinha subindo a rua. Cabisbaixa, usava toca e cachecol para se proteger do frio e enquanto respirava soltava aquela fumaça resultado da diferença da temperatura corporal para o ambiente frio que a circundava. Resolveu perguntar o que ela pensava e imaginou grandes respostas sobre trabalho, família ou faculdade. Talvez o término de um relacionamento ou o início de um novo.


Assim sendo, quando ela ultrapassou-o ele soltou um grito:

- Hey!

Ela parou de andar e voltou a cabeça para ele, por sobre os ombros:

- Você está pensando no quê agora?

Ela voltou a caminhar com um passo ainda mais apressado e saiu balançando a cabeça, deixando-o na dúvida.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Dos excessos

Assim como veio foi, e quase como num daqueles blues antigos, o que me sobrou foi muito tão pouco que considero nada. Havia tanta fome um dia, havia tanta sede um dia, havia tanta de tanta coisa que hoje em dia nem sei dizer se era enfim real o que havia. Era tanto sentir. Assim como veio foi, aquela necessidade de sangrar por todos os poros pra ver se ainda havia vida, porque de tudo que havia, a vida é o que menos preenchia os espaços. E de todas as lacunas vazias, a tua presença não preenchia as mais severas do peito, disso eu sabia, mas não sentia porque teu olhar me dizia coisas outras. "E de te amar assim muito e amiúde", dizia o Poetinha e eu repetia aos brados pelos cantos do peito porque eu acreditava nisso. Ah, eu te amava demais. Hoje em dia só ficou o café de requentar, o pão com manteiga do café que me olha quando chego à noite em casa. Hoje em dia só ficou o ficar, porque de tudo que havia, constato, nada aconteceu de continuar a existir, como se de mim uma parte você tivesse transformado em todo e assim levado contigo o todo que sou eu. E um dia aconteceu de você me perguntar "por que você me ama assim, hein? nesse exagero todo de quem vai morrer?". E aconteceu de responder "porque se eu não te amar eu morro, oras". Oras, não era claro? Mas, olha só, nem morri. Chorei, sequei, mas nem morri.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Semi-árido

A luz amarelo-mortiça do poste deixava a rua com uma aparência meio mórbida. O frio de enregelar ossos uivava no meu ouvido. Era quase um deserto, e eu esperei em vão ouvir um barulho seco de um disparo. Eu ouvia as passadas dela à minha frente e cada passo doía, como um golpe seco, como doía. Ela ria, bêbada, e gritava andiamo, andiamo!, mas eu não conseguia alcançá-la. Talvez tivesse medo de alcançá-la, na verdade. Porque de nada adiantaria chegar até lá pra não conseguir dizer que eu a amava. Porque eu nunca consegui escrever poesia.

Não que ela ligasse pra poesia, ela não ligava pra maioria das coisas que eu ligava, e no estado em que se encontrava, ela não ligava pra absolutamente nada. Minha prima, ela. Meu amor desde que tenho lembrança. Minha melhor amiga. Que me ligou no início da noite pra dizer que o namoro tinha acabado e ela estava arrasada e ia beber umas vodcas pra variar.

Não que eu visse ali, em sua dor e embriaguez, uma possibilidade pra dizer a ela que eu a amava sem medida, desde sempre, e que ela nunca soube porque eu nunca pude dizer. Não, eu não via. Porque quando a encontrei, já bêbada, o seu olhar seco (como o golpe seco que era cada passada dela, como o vento seco que corria naquela noite árida, como seco é o som do disparo que me acordaria pra vida) me disse que ali não haveria mais nada de amor, pelo menos não por um tempo, aquele tempo que todo mundo precisa quando sofre uma desilusão, e costuma desperdiçar em todos os bares da cidade. E não, não poderia só me aproveitar de sua fragilidade pra ter uma noite tórrida de um sexo embriagado e seco, porque a ela eu amava.

Continuava a correr e eu continuava a lhe acompanhar, de longe, não queria sentir o cheiro do cabelo dela. Até que ela parou, olhou pra trás com olhos de perdição e piedade, o olhar que ela tinha vez em quando e que me dilacerava e pediu: primo, me leva pra casa.

Pude lhe oferecer um abraço, sabendo que ali estaria toda a minha poesia, transbordando dos meus braços pro corpo dela, mas era tudo que eu podia. E senti seus cheiros, tanto o perfume quanto o hálito de vodca quanto o suor da correria quanto o sangue do joelho machucado quanto o vômito da esquina anterior e amei todos aqueles cheiros num desespero silencioso e momentâneo, e fui feliz tendo todos aqueles cheiros assim tão perto de mim. E a levei pra minha casa e a deitei na minha cama e ela adormeceu de embriaguez e dor. E eu adormeci no chão, ao lado dela e sentindo a respiração dela.

Quando acordei no meio da tarde seca e cinzenta, só havia dela os cheiros deixados, cheiro de suor seco, de sangue seco, de embriaguez seca, vômito seco, lágrima seca e coração seco. Assim como era seco o disparo que ouvi e que me acordou naquele deserto semi-árido que era a tarde. Meu coração junto com o dela.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Limites ultrapassados

Nós estávamos nessa vida terrível de idas e vindas. Terminamos nos últimos três meses coisa de umas 7 vezes. Brigávamos pelos motivos mais banais, e reatávamos pelos menos importantes. Não havia nada que nos mantivesse unidos, nem nada que conseguisse nos manter separados.

Acredito que, nunca na minha vida, viverei algo tão intenso quanto o fim desse relacionamento. Agora que acredito que ele realmente tenha chegado ao ponto sem retorno, vejo que amadureci demais. Vivenciei sentimentos que jurava ser incapaz de sentir. Odiei, perdoei, odiei ainda mais e alcancei novamente o ápice do perdão. Quis vinganças, busquei serenidades e cheguei até a admitir que a situação estava fora do meu controle, coisa que, para mim, é praticamente impossível.

Depois de eventos descabidos, como eu me trancando no banheiro para não levar uma facada, ou ela correndo escada abaixo de camisola para não levar uma surra, finalmente cheguei à conclusão de que havíamos ultrapassado até mesmo o limite do irracional. Obviamente não foi uma decisão comum. Xingamos-nos, brigamos, nos agredimos fisicamente e no auge da briga começamos a nos beijar. Um beijo intenso, vívido e quente. Desses que imaginamos ser coisa de novela até nos acontecer.

Fizemos sexo. Um sexo sem limites, sem perversão e sem sentimento. Sexo puro e simples. Depois de terminado o coito eu limpei o canto da minha boca, que sangrava por causa de uns socos que ela havia me dado após desferir-lhe um tapa na cara. Olhei o sangue em minha mão e vi meu rosto marcado nas dezenas de reflexos no espelho quebrado, que milagrosamente manteve-se na moldura do guarda-roupas.

Ali eu entendi o grau de insanidade a que havíamos chegado. Sem falar nada eu retirei as malas de cima do guarda-roupa e comecei a jogar minhas roupas dentro. Ao ver a cena ela começou a pedir que eu não fosse embora, que eu era tudo que ela queria na vida. Vendo que não me abalei ante seus apelos ela se pôs a chorar e começou a me xingar. Xingou-me de uma maneira tão impiedosa que, por um milésimo de segundo ponderei recomeçar a briga que havíamos acabado de encerrar como dois animais no cio.

Quando fechei a mala e comecei a vestir a roupa que eu estava usando antes ela começou a me bater. Desvairada. Chorava, gritava, xingava e me batia. Eu estava tão decidido que parecia que não estava vivendo aquela cena. Eu apenas continuei me vestindo calado enquanto ela me batia e ficava cada vez mais fraca.

Perdeu as forças e sentou-se nua no chão, sem importar-se com os cacos de vidro espalhados, os restos de um porta-retratos com uma linda foto nossa. Botou a cabeça entre os joelhos e chorou todas as lágrimas do mundo. Um choro convulsivo e desesperador que sequer me tocou. Havíamos ultrapassado o limite há muito tempo, muito embora só ali eu tenha me dado conta.

Peguei a mala e sai porta afora. Quando cheguei ao térreo do prédio o celular tocou. Era ela. Eu apenas atirei o aparelho no espelho d'água na entrada do prédio, sem atendê-lo. Dirigi-me até o carro, acendi um cigarro e olhei pela última vez para a janela do apartamento onde morávamos. Joguei a mala dentro do carro e sai guiando sem direção até parar em um desses botecos de esquina, tão imundos na entrada que chega a dar medo de pensar em como é o banheiro.

Pedi uma garrafa de uísque e adormeci na mesa do bar, embriagado com aquele uísque falsificado.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Ele vinha, passava um tempo que eu considerava a eternidade ao avesso e depois sumia, demorava uma eternidade de verdade pra voltar. E eu sei lá o que ele fazia quando ia. Sei que ele ia e eu me afogava em Lou Reed e cigarros e, pasmem, adquiri o hábito bacana de beber uísques todos os dias, umas duas ou três doses duplas de qualquer uísque que aparecesse. E ele devia andar a fazer trilhas ou qualquer coisa pseudo-inteligente, dentro das diversas decisões pseudo-inteligentes que ele havia tomado quando éramos um casal feliz - é assustador pensar que já fomos um casal feliz e hoje temos uma relação assim-assim. Porque, assim, quando éramos um casal feliz as coisas iam em conjunto e tínhamos os mesmos gostos e vontades, e de repente não mais que de repente ele resolveu que a vida andava parada demais e tinha tanta coisa pra se ver, não acha? Não, não achava, queria só ficar por aqui, mas ele achava que tinha tanta coisa pra se ver e se foi, oh, se foi mesmo, de verdade verdadeira, e me deixou a comer unhas e enlouquecer um pouco a cada dia. Passava uns três meses em destino incerto e não-sabido e voltava com uns presentinhos fajutos, arte de hippie, e eu me desmilinguia toda porque, no fim das contas, ele havia pensado em mim por um minuto que tivesse sido. Aí passava uns dias comigo, dias loucos e cheios de vida e sexo e amor, muito amor meu, depois partia pra um outro lugar que ele tinha a certeza que precisava conhecer. E aí eu me afundava de novo em cigarros e Lou Reed, e antes eu me afogava em vodka porque era a nossa bebida, nossa amada puta russa, mas depois fui acumulando umas raivas dele e abandonei a puta russa também, quando eu me embriagava muito eu sentia o cheiro dele nela ou por causa dela ou qualquer coisa nesse sentido e me enchia de ciúme e mágoa. E quando ele me ligava eu chorava e pedia peloamordedeus que ele voltasse logo porque senão eu ia pintar meu cabelo de laranja e a parede do quarto de preto, ia fazer um corte moicano no nosso cachorro (o Zé, criaturinha agradável) e ter um filho com um desconhecido. Ele ria e perguntava se eu queria ir pra onde ele estava, pedia pra ele dizer mas ele não dizia, falava que não ia e ele suspirava e desligava o telefone. Numa dessas ele me ligou de Portugal. Não acredito, não acredito, não acredito que você foi parar em Portugal sem mim, eu berrei no telefone, abraçada com carinho à garrafa de Jackson Daniel, meu atual melhor amigo. Ele suspirou fundo fundo bem fundo e falou que o tempo todo ele quis me levar mas eu nunca quis ir, estava com os pés fincados a este apartamento de quarto-e-sala que a terra um dia há de comer junto com meus olhos porque vou pedir pra ser enterrada dentro dele ou junto com ele e ai da funerária se não houve um caixão que caiba, volto pra infernizar a vida de todo mundo. Não, não é bem assim, você quis fazer isso sozinho, eu repliquei. Ele suspirou ainda mais fundo e disse que andava cansado, sabe? Tava pensando em parar um pouco em algum lugar pra ver o que acontecia. Eu te amo, eu disse. Para por aqui e você descansa e a gente descansa junto pra sempre. Isso soou meio mórbido, descansar junto pra sempre. Você quer me matar?, ele perguntou num misto de susto e riso e eu me dei por tranquila, sorri para o Jackson Daniel e ele sorriu pra mim, porque eu sabia que mesmo em Portugal meu amor pensava em mim. Pelo menos eu achava, né, porque ele nunca voltou, já tem um ano ou mais isso, nunca voltou, nunca mais ligou, mas eu sei que anda vivo porque a mãe dele me disse da última das trezentas vezes que liguei na casa dele. A mãe dele me disse que ele ainda estava em Portugal e deve andar se entupindo de pastéis de Belém ao lado de uma portuguesa bigoduda com certeza. Enquanto isso eu continuo aqui, com meu Lou Reed e meu Jackson Daniel e meus cigarros, na decisão pseudo-inteligente de não utilizar a passagem que comprei pra ir atrás dele. Porque, você sabe, se entupir de pastéis de Belém não é uma coisa saudável de se fazer. Meus poucos amigos me dizem que devo aceitar que acabou e pronto, mas eu acho só que ele esqueceu, ou perdeu alguma coisa no meio do caminho. Prefiro acreditar nisso a aceitar o fato de que meu amor partiu. O Jackson Daniel concorda comigo. E um cutelo na cabeça da portuguesa bigoduda até que ia bem.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Casais

Caminhavam felizes pela calçadinha do parque, naquele pôr-do-sol típico de Brasília. Aquele céu encantador com suas tonalidades rosáceas, alaranjadas mesclando-se à negritude da noite que se aproximava.

Marcelo era alto, esguio e sorridente. Priscila era baixa, formosa e séria. A despeito dessa disparidade notória, formavam um casal perfeito. Suas discordâncias eram saudáveis e enalteciam as discussões do casal. Discussões das quais, não raro, ambos saiam com pontos de vista transformados, característica comum dos que estão abertos á novas idéias.

Combinavam em tudo, até mesmo nesse gosto provinciano de caminhar de mãos dadas ao final da tarde, enquanto o sol se põe. Caminhavam felizes conversando sobre a vida, o cotidiano e sobre os planos futuros.

Ele levava a vida como uma grande brincadeira o que fazia com que Priscila assumisse o papel da pessoa lúcida do casamento. Marcelo era a alegria que faltava a Priscila e ela era a seriedade que falta a ele. Uma relação simbiótica ímpar.

Nesta segunda-feira brasiliense típica eles caminhavam pelo Parque da Cidade, um casal de idosos ia à sua frente também caminhando, enquanto eram ultrapassados pelos atletas amadores, ciclistas de patinadores. Apenas caminhavam pelo prazer de estar lado a lado ao final de um dia de trabalho estressante.

- Sabe, amor...
- Hum...
- Não entendo como alguns casais não conseguem e manter juntos.
- Que papo é esse? Eu, hein...
- Ah, é que o Augusto lá do departamento tá se separando.
- Sério? Por quê? Aconteceu alguma coisa?
- Ah, eu perguntei a ele. Disse que não dá mais. Só isso.
- Como assim "não dá mais"?
- Foi o que eu perguntei. Ele só repetiu que não dava mais e saiu meio nervoso.
- E porque ele ficou nervoso?
- Foi o que eu me perguntei, mas não tive coragem de perguntar a ele. Na verdade eu acho que ele ainda gosta dela.
- Se gosta, por que vai separar?
- Porque não dá mais.
- Todo engraçadinho, você, né?
- Ah, amor. Eu penso nessas coisas e fico com medo de acontecer com a gente.
- E porque você acha que pode acontecer conosco?
- Não sei. Vai ver é só um medo bobo, mas não deixa de ser um medo.
- Eu não tenho medo.
- Não?
- Não. Quero você e pronto.
- Que bom então.

Abraçou-a. Enquanto conversavam aproximaram-se do casal de idosos que, inevitavelmente ouviu a conversa. Enquanto Marcelo e Priscila se afastavam abraçados e sorridentes, Seu João olha Dona Catarina. Abraça-a, dentro das possibilidades que seu corpo enrijecido permite e lhe beija a face.

- Foi assim que a gente conseguiu não foi, meu bem?
- Deixa de ficar ouvindo a conversa alheia, velho safado.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Noite de Bukowski

Não fiquei necessariamente surpreso quando ela anunciou, de maneira apoteótica, o fim do nosso casamento. Fiquei ofendido, de certa forma. Assim, não que o casamento tivesse salvação, estávamos num declínio vertiginoso há anos, mas eu não podia aceitar que ela me deixasse, como macho dominante que sou – ou pelo menos devia ser. Tentando recuperar um restinho de dignidade, anunciei que ela podia até me deixar e nunca mais olhar na minha cara de novo, mas quem sairia de casa seria eu. Ela riu, condescendente. “Moramos na casa dos seus pais, idiota”. Titubeei um segundo, não tinha atentado praquilo, e de repente sair de casa me pareceu sem sentido. Mas me mantive firme na decisão. “Não faz diferença. Quem deixa esse lugar que um dia, sonhadoramente, chamei de lar, sou eu”. Ela riu de novo, mais condescendente ainda, e aquilo me irritou. Peguei uma mala no armário, enfiei minhas roupas de qualquer jeito e por último arremessei meu portfólio de fotografias por cima de tudo, de um jeito propositalmente dramático. Ela me olhava e eu sei que se enchia de pena a cada segundo que passava, mas mantive minha cena cinematográfica. Fechei a mala de qualquer jeito, dei uma última olhada pelo quarto e saí sem olhar pra ela. Passei no quarto dos meus pais e inventei uma viagem de última hora, não queria preocupá-los, e fui embora. A pé, porque fugir da casa dos pais com o carro que o pai te deu não me pareceu muito rebelde.

No segundo seguinte já estava arrependido, porque chovia a cântaros e cada osso do meu corpo doía com o frio. Caminhei até um hotelzinho do centro, o atendente mal humorado da recepção me jogou num quartinho de segundo andar com a janela emperrada e o ar condicionado quebrado. O quarto cheirava a casa de gente morta. O chuveiro só tinha água gelada, então só troquei de roupa e me joguei na cama. Por um segundo pensei estar agindo feito um estúpido, mas como essa era uma sensação velha conhecida, não lhe dei atenção.

Devo ter dormido duas horas, aproximadamente. Depois de beber todos os mini-uísques que vi pelo quarto (e não eram muitos), liguei para a recepção e perguntei ao atendente mal humorado se ele sabia onde ficava o bar mais próximo. Não consegui entender uma palavra do que ele me disse, mas soou como “primeira à esquerda, segunda à direita, putas baratas”. Ainda tentei retrucar esclarecendo que não estava à procura disso, mas ele simplesmente desligou o telefone. Peguei minha câmera e saí fotografando as ruas da cidade, os postes, ainda caía uma chuvinha fina, mas eu fotografei tudo que vi pela frente. Os passantes me olhavam de maneira suspeita, acho que não era comum alguém fotografar àquela hora da noite um lugar que seria teoricamente sem atrativos. Mas a luz (ou a ausência dela) me atraiu naquele lugar.

Acabei caindo na esquina das tais putas baratas, e elas realmente estavam lá. Fui a um bar próximo, tomei uma cerveja gelada cujo primeiro gole me pareceu irreal e pedi para fotografá-las. Elas riram, meio tímidas, me perguntaram se era algum tipo de tara, expliquei que não, que era fotógrafo e queria fotografá-las, podia até pagar por foto, sei lá. Então elas se animaram, fizeram pose, comprei mais cervejas e bebemos e fotografamos por quase meia-hora, e nos intervalos para trocar o filme da máquina eu contava a elas minha história. Quando já estávamos todos meio bêbados e as putas bem menos tímidas, apareceu um cafetão sabe-deus-de-onde e me encheu de pancada. Destruiu minha máquina e os rolos de filmes, e só não destruiu minha estrutura facial porque as meninas conseguiram explicar a tempo que eu não era um tarado, nem da polícia e nem de um puteiro cybernético, era apenas um recém-divorciado que tinha a mania doentia de fotografar putas e pagar pelas fotos. Ele tomou isso como aceitável e me deixou ir embora, jogando cem reais em cima de mim pelo conserto da máquina que não teria conserto.

Voltei para o hotel bêbado, encharcado de chuva e suor do cafetão, sangrando e mancando muito. O atendente mal humorado não queria que eu subisse pelo elevador pra não manchar o carpete, armei um escândalo na recepção e ele me xingou de vários palavrões num castelhano feroz. Então ele não era brasileiro, por isso eu não entendia uma palavra do que ele dizia. Mas ele tinha cara de brasileiro, isso era o assustador. Tinha cara de José da Silva, mas não era brasileiro. Tentei dizer isso a ele, que se enfureceu ainda mais e gritou palavras de ordem em castelhano, das quais só consegui entender ‘viva la revolución!’ e ‘Guevara hasta siempre!’. Boliviano? Quando perguntei ele subiu no balcão da recepção, colocou um chapeuzinho de lã na cabeça e cantou o hino, que imaginei ser da Bolívia e preferi acreditar que seria, aquilo já tinha ultrapassado todos os limites. Ao final da demonstração de ataque de hipoglicemia ufanista, ele bradou ‘EVO! EVO! EVO!’. Ótimo, um José boliviano. Disse a ele num castelhano arranhado que era partidário de Evo Morales e da revolução indigenista (isso existia?) e pedi que me conseguisse uns mini-uísques. Ele me perguntou onde eu tinha conseguido o olho roxo, falei que na esquina das putas baratas e ele começou a guinchar feito uma hiena mutante, mas me arranjou os mini-uísques. Saiu por uma portinha lateral, eu fiquei batucando os dedos no balcão, impaciente. No calendário pendurado na parede, a foto de uma modelo muito feia mas muito gostosa, possivelmente boliviana. Quando me dei conta da data, entrei em choque. 16 de agosto. Aniversário do velho Bukowski. A informação me veio num relance, eu não me lembrava de saber a data de aniversário daquele velho safado, mas de algum jeito eu sabia que aquela era a noite de 16 de agosto, ou seja, era aniversário do Velho Buk, então era por isso que todas essas coisas estúpidas estavam acontecendo comigo. Prestidigitação cigana. Devo ter passado muito tempo com a boca aberta, em choque, porque quando o José boliviano voltou com umas vinte garrafinhas de mini-uísque voltou a guinchar feito uma hiena, apontando descaradamente da minha cara pra cara da moça do calendário. Tentei explicar que não tinha achado a moça bonita, mas ele continuou a guinchar e eu me dei por vencido, tomei as garrafinhas dele e fiz questão de subir pelo elevador.

Quando voltei ao quarto ele estava parecendo uma sucursal do inferno de tão quente. A janela estava emperrada, então era impossível abrir sem quebrar, e se eu destruísse o hotel do José boliviano ele mandaria o Evo me matar. O ar condicionado não funcionava, ou melhor, ligava mas não refrigerava o ar, soltando aquele bafo quente na minha cara. Culpa do velho Buk, eu repetia, completamente sem sentido. Que noite horrível. Fiquei me perguntando o que minha ex-mulher teria feito, se já teria dito aos meus pais que eu fugi de casa num arroubo de adolescência tardia, se já teria contado sobre o fim do casamento, se já teria viajado para as Ilhas Fiji com aquele amante sem vergonha que ela tinha e que trabalhava na Bolsa de Valores. Fiquei me perguntando o que meus pais estariam pensando de mim, se já teriam mandado as equipes de busca atrás do meu corpo apodrecendo nas ruas perigosas, escuras e fétidas do centro. Depois pensei nas putas e fiquei me perguntando porque diabos eu não tinha chamado uma delas pro hotel, elas me disseram que eram baratinhas mas o material era de qualidade, e me pareceu mesmo, cada bunda e par de peitos que nunca tinha visto antes. De todos os pensamentos, pensar nas putas foi o que mais me confortou, então fiquei com ele. Tentei limpar o filtro do ar condicionado, sem sucesso, e a única solução para aquele calor infernal seria tomar um banho no chuveiro que só tinha água gelada. Ok, banho de uma hora, banho de onanista (a puta loira me fez uma grande companhia), já me senti melhor. Tentei dormir mas não consegui, tomei os outros mini-uísques e quando passava das duas da manhã minha mãe adentrou o quarto do hotel.

__ Certo. Filho, já sabemos o que está acontecendo. É hora de voltar pra casa.
__ Não vou voltar, mãe. Acabei de declarar minha independência. Vou fazer quarenta anos e ainda moro com vocês! Isso é ridículo.
__ Tudo bem. Tudo bem. Quer morar sozinho?
__ Quero!
__ Tudo bem, a gente prepara aquele apartamento da Augusta pra você. A Linete pode ir lá duas vezes por semana pra fazer a limpeza.
__ Certo!
__ E dinheiro?
__ Vou fotografar profissionalmente. Vou vender minhas fotos.
__ Tudo bem, vou te passar uma lista depois dos nossos conhecidos em jornais e revistas e essas coisas. Entro em contato direto com eles.
__ Ótimo!
__ Será que agora podemos voltar pra casa?
__ Não! Só saio daqui direto pro meu apartamento!
__ Bom, você é quem sabe. Vou deixar diárias pagas até o final da semana. Tudo bem pra você?
__ Sim!
__ Certo, então. Boa noite, meu filho. Ligue para o seu pai amanhã.
__ Boa noite, mamãe.

Ela deu as costas e cinco minutos depois o telefone do quarto tocou. O José boliviano disse que ela deixou as diárias pagas e mais todo o estoque do bar do hotel à minha disposição, então eu devia ir até lá pegar os mini-uísques porque ele não andava em elevadores por medo de queda. Desci de roupão até a recepção, e fiquei batucando os dedos na mesa esperando o atendente voltar. Olhei de novo para o calendário, e muito embora tecnicamente não fosse mais 16 de agosto, ainda estava acordado desde que o aniversário do Velho Buk começara. Decidi comemorar.

Desci de roupão até a esquina das putas baratas e encontrei a minha loira. Comemoramos com o Velho Buk no estilo do Velho Buk até amanhecer.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Amor doentio

Trancada no banheiro Giovana gritava histericamente, enquanto seu noivo, ou àquela altura ex-noivo, socava a porta aos berros chorando desesperado. A notícia do término despertou no homem uma bestialidade tal que, quem o visse naquele estado, não acreditaria nunca que se tratava de Luís Sousa: médico cirurgião. Homem dos nervos de aço e de mente serena. Bastante admirado em seu trabalho pela sua frieza em situações de emergência.

- Vai embora, Luís. Sai daqui, não quero te ver nunca mais!
- Giovana, me perdoa. Eu perdi a cabeça... me perdoa, pelo amor de Deus.

Cacos de vidro e sangue fresco estavam espalhados pelo chão da casa, enquanto uma ponta de cigarro manchado de batom queimava um pedaço do sofá na sala, enquanto isso Luís sentava no chão do corredor, apoiando as costas na porta do banheiro. Com o rosto entre as mãos, e os braços apoiados nas pernas chorava compulsivamente, um choro desesperador e amedrontador.

Dentro do banheiro Giovana chorava encostada no azulejo frio, manchado de sangue. Um choro silencioso, como se estivesse tentando não denunciar sua presença a algum monstro que rondasse pela casa à espreita de qualquer movimento seu. Enquanto chorava, absorta em seus pensamentos não ouvia através da porta do banheiro o choro convulsivo do homem que amou durante tantos anos. Apenas chorava silenciosamente e pensava em dar Um basta à sua vida.

Luís desfazia-se em prantos e soluçava de maneira quase convulsiva enquanto pegava um caco do porta-retratos que arremessara na parede e cortava os próprios pulsos. "Se não for pra viver com ela, que tudo mais vá pro inferno", pensava enquanto cortava os próprios pulsos, sem imaginar que dentro do banheiro Giovana tomava todos os comprimidos que encontrara no armário.

Agora calado, aguardava a morte de braços estendidos, sangrando pelos cortes de precisão cirúrgica que havia feito em seus próprios pulsos, a despeito do instrumento rudimentar do qual dispunha, e se olhava na foto que estava ali perto dentro dos restos do porta-retratos, uma foto onde sorridente, carregava a então noiva em seus braços, num momento de amor primaveril e radiante. Foi então que se pôs a chorar novamente até perder a consciência. Chorava novamente aquele choro bestial e nem percebia a fumaça que preenchia o ar do corredor.

Morrera naquela mesma posição, vigiando a porta do banheiro onde estava a mulher que adorava mais que tudo nesse mundo, enquanto o fruto de seu esforço, o apartamento que dividiam, era consumido pelo fogo que se alastrava pelos tapetes, carpetes e cortinas.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

E era assim, e desde que te conheci era assim, eu pensava em ti todos os dias. Todos os dias. Qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa do meu dia, fazia me lembrar de ti. Fosse porque o céu estivesse mais azul, fosse porque ventava, fosse porque o dia era comum, qualquer coisa me fazia lembrar de ti.

Era assim. Eu te conheci, e nunca mais descansei. As coisas não têm paz.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Loucura

Isolado em sua própria mente,
Pedro vivia sua vida decadente.
Não tinha amigos nem parentes
Tinha apenas sua imaginação doente.

Em sua camisa branca ele descansa,
De braços enlaçados como uma criança.
Em seu abraço carente de esperança
Pedro revive suas lembranças.

Seu quarto acolchoado o protege,
Sua camisa branca o aquece,
Seu abraço constante o fortalece,
E a realidade dura o persegue.

Pensamentos correm inconclusos,
E perdido em devaneios obtusos
Anseia por objetivos escusos
Por não ver na vida algum uso.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O cheiro que precede a chuva

Dia normal e enfadonho no trabalho. A verdade é que eu já não ligo mais a mínima para o que acontece ou deixa de acontecer no escritório. Eu me rendi ao sistema e trabalho no modo automático executando instintivamente todas as tarefas do cotidiano. Sair do escritório é como sair de uma caverna após um século hibernando, como todos os dias úteis anteriores neste último ano.

Acontece que nem sempre foi assim. Antes havia alegria e vigor. Antes havia vida. O fato é que meu mundo tornou-se cinzento desde que meu amor morreu. Engraçado falar isso assim de maneira tão displicente: "meu amor morreu". Nunca percebi o quanto isso soa ridiculamente emotivo e pensando bem, agora que isso soa demasiadamente emotivo percebo que acabei me tornando malditamente frio: o tipo de pessoa que eu desprezava.

Caminhando até o carro sinto aquele cheiro de terra molhada que precede as chuvas após o período da seca nesta savana maldita que é o cerrado do Planalto Central. Esse cheiro me traz tantas lembranças. Encontros, desencontros, brigas, tréguas, realizações e frustrações. Dizem que isso acontece porque raramente os sentimos por estas bandas, já que a chuva é escassa por aqui, mas eu prefiro acreditar que é porque eu sou ridiculamente emotivo. Preciso resgatar alguma coisa boa do passado.

Ao entrar no carro tiro a gravata e desabotôo o colarinho em busca de ar, especialmente aquele ar com o cheiro que precede a chuva. Então fico lá sentado divagando experimentando o meu passado distante e o meu passado recente. Lembro-me de Júlia por alguns instantes e procuro afastar esses pensamentos. Ligo o carro e o dirijo até minha casa.

Lá chegando eu entro, abro todas as janelas, desligo todas as luzes e abro uma garrafa de Cabernet argentino. Fico no escuro sentindo aquele cheiro especial que me trazia de volta o passado até mesmo mais do que minha própria memória e a lembrança de Júlia inevitavelmente ressurge. Fico lembrando nossa última conversa, de quando ela me contou o quanto achava miserável por sentir pena de mim mesmo. Ela achava que eu tinha potencial, mas que eu mesmo me sabotava. Por fim disse que já não sentia mais a mesma coisa por mim, que estava gostando de outro e que estava indo embora de minha vida. Saiu sem me dar oportunidade de falar nada, não que eu quisesse, mas acho que merecia essa oportunidade. Simplesmente virou as costas e saiu. Eu fiquei na janela acompanhando a sua partida e sentindo esse mesmo cheiro que sinto agora. Foi esse o dia que meu amor morreu.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Termina o café. Apaga o cigarro. Solta a fumaça.
Ela caminha, mas num caminhar incerto, desses mesmo de quem não sabe aonde ir. Recusa uma ligação. Respira fundo enquanto olha a Lua, cheia. Num meio sorriso, lembrando de outro tempo, ela quase uiva. Não, não é momento.
De tanto caminhar, se cansa. Pára e senta num banco de praça. Afaga o peito pra conter a lágrima. E cai a chuva.
E com a chuva ela atende a ligação há pouco recusada. Num meio sorriso, mais de resignação, ela conversa. Porém nada manifesta, apenas diz sem dizer, como já é de seu costume fazer.
Volta a caminhar, agora sabendo aonde ir. E de tanto caminhar acaba chegando, ofegante, ao lugar onde não deveria estar.
Toca a campainha uma, duas, dez vezes. Ninguém vem ao seu encontro. Ninguém nunca está.
Pára diante da porta. Senta. Acende o cigarro. Solta a fumaça. E a lágrima.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Profissão: literato

"Workshop de literatura com Miguel Leal, autor dos best-sellers 'O anjo dos fracassados' e 'O amor e seus demônios'. De 22 a 26 de setembro..." e blá blá blá, eu enjoava toda vez que lia aquele anúncio no jornal. Aí meu editor me ligava, empolgadíssimo: "leu o anúncio do jornal? Vou fazer uns contatos hoje, acho que consigo veicular no rádio e na tevê também" e eu tinha mais um colapso mental. "Já te disse que não quero fazer isso, Otávio. Não posso ensinar ninguém a escrever", eu dizia, mas era vão, ele não me ouvia. Podia imaginá-lo quicando por sua sala, feliz da vida com o novo contratado de sua editora: eu. E só um ser humano que teve hiperatividade na infância e a cabeça cheia de Ritalin poderia ficar empolgado em me contratar.

Depois do rolo com a editora anterior e sua revisora mal comida, gastei uma fortuna pagando as custas do processo, os danos morais e materiais, até o tratamento psiquiátrico daquela desgraçada ficou por minha conta. Tive de tirar meu blog do ar e fiquei meses sem conseguir me publicar. Curiosamente, foi o meu período mais fértil, escrevi quase cinco romances, todos eles com qualidade acima da média. Como dizia Ana, a mulher amada, eu estava enfim beirando a perfeição.

Aí, numa tarde dessas secas e quentes de Brasília, fui até o bar do Rubens pra tomar uma cerveja e vi o Otávio por lá. A gente já se conhecia de longa data, fizemos faculdade juntos, ele seguiu e eu larguei. Sentei à mesa com ele, conversamos, relembramos velhas histórias e demos muita risada.

__ E você, Miguel? Grande literato, quem diria. Já tem previsão de quando sai livro novo?
__ Estou sem editora, Otávio. Não publico nada há quase um ano, mas estou cheio de material.
__ E como você conseguiu ficar sem editora?
__ Uma história suja aí. Envolvendo um blog e uma revisora, enfim.
__ Você fazia sexo com ela, ahn? Pode falar, garanhão, pode falar! Fez sexo com ela, tirou fotos e postou no blog, ahn?!
__ Meu Deus, Otávio, você é doente. Não foi nada disso. Só tive um problema judicial, que já está resolvido. Mas fiquei sem editora e sem dinheiro.
__ Hum. Eu abri uma editora há pouco mais de seis meses.
__ Eu soube. E aí?
__ Muito trabalho. Tem muita gente nova querendo ser publicada. Conhece a Mariana de Médicis?
__ Nunca ouvi falar.
__ Incrível. Ela é incrível. Tem 22 anos. Já publicamos dois livros dela. Quase tudo tirado da internet, ela também tem um blog.
__ Ah. Mais uma.
__ Como assim?
__ Mais uma dessas. Orgias, drogas, pais ricos que não se importam.
__ Exatamente. Maravilhoso. Maravilhoso. Isso vende que nem água.
__ Isso não é literatura.
__ Não seja purista. Enfim. Manda algum material seu, quem sabe a gente publica.
__ Pode ser.

E assim fui contratado, não por período, nem por obra. Apenas fazia parte do casting da editora, já conhecida no mercado editorial por publicar praticamente qualquer coisa que tivesse mais de cem páginas, fosse lá o que fosse. Logo depois o Otávio teve a idéia de fazer o maldito workshop, pra avaliar como andava minha aceitação com o público antes de voltar a me publicar, muito embora meu romance já estivesse pronto pra ser distribuído. E me passou o endereço do blog da tal Mariana de Médicis, que joguei fora sem me interessar em ler.

No primeiro dia de aula eu estava nervoso. Não por ter de dar aulas, falar sobre literatura nunca foi problema pra mim. Eu estava nervoso por não concordar com aquilo. Quer dizer, como eu ia ensinar a alguém como ser um bom escritor? Isso não fazia sentido. Você pode ensinar alguém a escrever, juntar palavras de um jeito que tenha significado, mas jamais vai poder ensinar alguém a ser um escritor talentoso. Cansei de explicar isso pro Otávio, mas ele simplesmente não me dava ouvidos.

Cheguei ao local do maldito workshop e, para meu terror, estava lotado. Infestado de jovenzinhos da classe tipo Mariana de Médicis, todos que escrevem em blogs e sonham em um dia ver suas reclamações sobre a vida em papel impresso exposto em uma livraria qualquer. Vários estudantes de Letras que achavam que o domínio da norma culta o faziam literatos melhores que seus ídolos, gente tipo o Paulo Coelho e Sidney Sheldon. O tipo de gente que eu abomino.

__ Pois bem. Agradeço a presença de todos vocês aqui. Gostaria de dizer que ser um escritor de talento é bem simples. Basta ter nascido com ele. Se você nasceu com talento, ótimo. Vá escrever e encaminhe seu material pra editora e colha os louros da fama. Se você não tem talento, desista. Estude pra concurso público, vá trabalhar numa loja de shopping, vire artista de tevê, celebridade instantânea, participe de um reality show ou o que valha. Mas, por favor, não escreva. É isso. Obrigado por terem vindo e tenham todos uma boa tarde.

Não fiquei pra esperar a reação, apenas dei as costas e fui embora, me sentindo dez quilos mais leve. Poucas sensações no mundo se assemelham a de alívio. Voltei a pé pra casa, uma caminhada considerável, passei na casa de Ana pra dar-lhe um beijo e lhe dizer que a amava e finalmente entrei em casa. O Otávio já estava lá, tomando um cafezinho com a minha mãe.

__ Meu editor favorito.
__ Miguel, Miguel. Como você pôde fazer isso comigo?
__ Eu disse pra não contratá-lo, Otávio.
__ Obrigado, mãe. Otávio, eu cansei de dizer que não concordava com aquilo. E continuo discordando. É absurdo. Surreal.
__ Certo. Certo. O mais importante, porém, é que a pesquisa que fizemos no final de tudo indica que sua imagem não foi assim tão afetada. Eles te acham excêntrico, e excêntrico no mundo editorial é sempre um elogio.
__ Hum.
__ Ok. Vamos devolver o dinheiro deles e pedir que eles comprem seu livro. Já autorizei a distribuição. Mês que vem teremos noite de autógrafos! Saudade?
__ Não.
__ Hum. Você é realmente excêntrico. Bem, tenho uma reunião com a Mariana, parece que querem filmar o último livro dela, isso é fantástico.
__ Sim, estou molhado de excitação.
__ Ei! Você não quer ir à reunião comigo? Ia ser ótimo se os dois maiores escritores da minha editora se conhecessem.
__ Não posso. Tenho que colocar meus pés na água morna.
__ Não seja chato. Vamos.

Pouco depois chegamos à casa da tal Mariana, uma mansão no Lago Norte. Exatamente como eu imaginava. Ela era linda, loira e pseudo-rocker, ou punk de boutique, como já ouvi por aí. Usava roupa de couro preto, um coturno pesadíssimo e uma maquiagem que a deixava com cara de defunta. Contei uns cinco piercings numa primeira olhada, e no fim de tudo cheguei à conclusão que ela me dava medo.

__ Mari, meu amor. Como você está?
__ Hum. Entrem.
__ Oi, eu sou o Miguel.
__ Sei quem você é. O cara do blog. Ele saiu do ar, né?
__ Sim.
__ Essas 'fucking' instituições...por isso eu gostava de morar em Nova York. Existe liberdade de expressão por lá.
__ E por que voltou pro Brasil?
__ Uns lances aí. Família, 'tals'.
__ Tals?
__ É.
__ Hum. Otávio, vem até aqui no meu escritório.

Puxei o Otávio de volta em direção à porta e anunciei dramaticamente que iria embora.

__ Miguel, quer parar com isso? Dê uma chance à menina!
__ Otávio, ela fala 'tals'! Eu sei lá que diabos é isso! Se eu ficar, vou fazê-la se sentir tão deprimida que aí sim haverá razão pra cara de defunta dela.
__ Por favor, cara. Em nome da nossa amizade. E pra apagar o que você fez comigo hoje à tarde.
__ Tudo bem. Mas não me responsabilizo.

Voltamos à sala e ela bebia um dry martini enquanto fumava um charuto. Tudo nela me parecia ensaiado, forçado, pensado com calma. Pedi um uísque duplo sem gelo e me sentei no canto oposto da sala, meio que acuado no sofá, rezando pra que conseguisse permanecer calado. Otávio começou a falar do filme com ela e ela parecia propositalmente desinteressada. Dizia coisas como 'whatever', 'who cares?', 'oh, gosh!' e por aí vai. Ela me dava coceira.

__ Posso te fazer uma pergunta sincera?
__ 'Go on'.
__ Por que você escreve?
__ Sei lá. Um dia, contando minha história de vida pra alguém, um cara aí, ele falou que minha vida dava um livro. Então escrevi e vendeu e achei legal fazer isso. Quer dizer, agora tenho uma profissão, meu pai vivia reclamando que eu larguei a faculdade, agora posso dizer pra ele 'sou escritora, você pode viver com isso?'. Meu pai me odeia, 'by the way'.
__ E você escreve como fala?
__ 'Ié, babe'.
__ Deus. Você sente o mínimo de paixão por isso?
__ Minhas paixões são engarrafadas, querido. O resto é consequência do líquido.
__ Literatura não é profissão, Mariana.
__ Rá, vai dizer isso pro Paul Rabbit!
__ E quem diabos é esse?
__ 'Gosh', o Paulo Coelho!
__ Otávio, agora é sério, eu vou embora.

Dei as costas e saí da sala, doido pra respirar. Quando já estava a uma distância segura, liguei pra editora e pedi pra cancelarem meu contrato. Depois liguei pra minha mãe e avisei a ela que tinha enfim saído da editora, que voltaria a ser um peso pra ela e pro Estado. Ela sorriu e disse 'tudo bem, meu filho, não há nada tão ruim que não possa piorar'. Fui pra casa da Ana e disse a ela que não aguentava mais aquilo, estava decidido a largar tudo, encarar literatura como profissão foi justamente o que fez desses últimos dois anos os piores de minha vida. Disse a ela que minha meta agora era escrever tão somente por prazer, e deixar os escritos espalhados pela casa, os visitantes poderiam ler caso se interessassem, mas nada de publicar ou assinar contratos ou autografar exemplares em livrarias lotadas de imbecis. Ela sorriu o sorriso mais lindo da face da terra e disse que finalmente eu alcançara a perfeição.


***

Texto escrito para ler ao som de "Essa moça tá diferente", do Chico Buarque. Ou qualquer música que seja uma conversa do autor com sua própria obra.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Felicidade

Stanley era um sonhador. Iludido pelo sonho de ser feliz, via em todos os caminhos impostos pela vida algum desígnio do destino para que ele entrasse no caminho correto que o levaria à felicidade.

Costumava acordar de bom humor e via em todos um leve vislumbre do que seria uma parte da felicidade. Estava convencido de que quando a encontrasse não seria aos pedaços, mas sim completa e intacta. Ele acreditava em felicidade parcial, aquilo que comumente conhecemos como momentos felizes, para ele eram apenas uma parte da felicidade que nos seria possível alcançar, mas que rapidamente se desfazia porque a felicidade quando não é completa tende a se dissipar nas agruras da vida.

Essa forma de pensamento levou Stanley a viver em sua vida uma procura incessante e incansável pela felicidade. Durante os trinta primeiros anos de sua vida fora guiado por um positivismo inigualável e alcançou sucesso em quase tudo que fez. Um ótimo salário em um trabalho invejável, o amor de uma bela mulher com a qual casou-se ainda jovem e a conquista de todos os sonhos de consumo que uma remuneração alta poderia proporcionar. Stanley tinha em mente que só seria feliz se o fosse por completo e em todas as esferas da sua vida.

No ano em que completou trinta e um anos de idade Stanley começou a se perguntar porque ainda não conseguira ser feliz. Tinha uma bela casa, uma bela esposa que o amava, estava sempre com o carro do ano e sua carreira estava em plena ascenção. O problema é que nunca, em nenhum momento, todas áreas da sua vida estiveram plenamente bem ao mesmo tempo. Quando o trabalho estava bem, acontecia alguma briga com a esposa e vice-versa.

Houve um único dia em que estava num excelente momento com sua esposa, chegando no trabalho fechou um negócio espetacular que rendeu-lhe uma promoção. Decidido a ir comemorar com a esposa pediu para sair mais cedo da empresa e, chegando ao estacionamento, seu carro não estava mais lá: havia sido roubado. Adicionalmente enquanto estava na delegacia fazendo o boletim de ocorrência sua mãe liga informando que o irmão havia sofrido um acidente de moto. Sua felicidade completa durara apenas alguns minutos.

Desde então Stanley passou a se perguntar o que era a felicidade e por que ele não conseguia ser feliz. Mergulhou em uma depressão profunda. Triste, seu trabalho já não rendia mais e começou a cometer deslizes que o levaram a uma demissão. Desempregado e à procura da resposta para o motivo de sua falta de felicidade perdeu a esposa e a vontade de viver.

Se patrimônio foi aos poucos dilapidado pelos credores e Stanley terminou seus dias deitado em um beco fétido, brigando com outros mendigos por um pedaço de carne podre. Em uma dessas brigas acabou sendo esfaqueado mortalmente. Enquanto agonizava, o sangue jorrando pela boca, Stanley vislumbrou seu passado. Então sorriu e, sentindo-se realizado, pensou: "eu era feliz e não sabia".